sexta-feira, 25 de março de 2016

PARTE XXV - LISBOA NOVAMENTE À PROCURA DE FERNANDO PESSOA.


Lisboa, a vista da nossa varanda.
 Cheguei de novo em Lisboa dia primeiro de março e como sempre Jan estava me esperando no aeroporto. Nosso projeto totalmente realizado era lá passar alguns dias, no lindo apartamento de minha querida sobrinha Carol, na rua Yven no Baixa-Chiado, próximo de muitos dos encantos dessa cidade querida. O principal objetivo era o de seguir os caminhos de Fernando Pessoa conhecendo sua casa, a Tabacaria famosa, os bares mais frequentados. Alguns turísticos, outros meio desconhecidos. Afinal para viajar basta existir (Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego). 




E para amar Lisboa, com suas casas de várias cores, deve-se também amar esse poeta maior, solitário, imaginativo, genial, comum nos seus gostos e vestimentas, comum no seu trabalho de tradutor, único nos pensamentos e sentimentos do mundo.
Caminhando para a Praça do Comércio.
Nessa primeira tarde decidimos procurar seu café predileto na Praça do Comércio, o Café Restaurante Martinho da Arcada, que não fica circundando a praça, mas a seu lado. Sempre disse que adoramos caminhar em Lisboa dentro da paisagem dos belos edifícios clássicos, pisando as calçadas de pedras típicas. E como não poderia deixar de ser, subindo suas ladeiras. Lisboa cheirando ao Tejo e colorida pelos telhados vermelhos das casas ancestrais.
O arco da Augusta, a mais bela entrada para a praça.





Escolhemos chegar à praça pelo arco da Augusta, portanto caminhando ao longo da rua do mesmo nome sob céu azul e vento frio e um sol tímido aquecendo as emoções.




O Arco da Augusta, a praça e o Martinho da Arcada.
O Martinho da Arcada, praça do Comércio número 3, é o café mais antigo da cidade, com mais de dois séculos de história, inaugurado pelo Marquês de Pombal em 1782. Teve vários nomes desde seu início até o nome atual que data de 1842. Esse café da Martinho da Arcada para se diferenciar de um outro Café Martinho sempre foi ligado às artes e letras portuguesas frequentado por importantes políticos, escritores e intelectuais incluindo Bocage, Almada Negreiros e mais recentemente José Saramago. Fernando Pessoa era um de seus clientes mais assíduos, tendo lá uma mesa permanentemente reservada. Até hoje. Alí ele tomou café com Almada Negreiros três dias antes de falecer, em 1935. Almada Negreiros, o pintor português que tem um dos mais conhecidos retratos do poeta.
O Martinho da Arcada.
Como visitantes de primeira viagem não sabíamos a princípio o local do café, mas os guardas e as pessoas que encontramos na praça também não o sabem. Não sabem que café o poeta frequentava, mas um finalmente apontou o local do Martinho.
Lembro de como estávamos contentes e excitados nessa primeira visita a um de seus locais preferidos.
Sentados na mesa reservada ao poeta.
Primeiro sentamos numa mesa no terraço e perguntamos timidamente onde estava a mesa do poeta. Lá todo mundo sabe e tem o maior prazer de nos conduzir à mesa e às lembranças. Jan lembra sempre da emoção e do arrepio que sentiu sentado nessa mesa que se não era realmente a sua mesa verdadeira era a mesa fingida, como fingida pode ser a dor de um poeta.

Outra foto da mesa.


Um chapéu (cópia) e várias fotos. Poemas também.

A foto mais famosa de todas estava lá, Fernando Pessoa em Flagrante Delitro, oferecida com essas palavras a sua ou quase sua Ofélia. O poeta em pé tomando um copo de vinho.  
Pessoa fala do Café Arcada no Terreiro do Paço (nome antigo da praça do Comércio), como o local onde se despediu de Aleister Crowley às dez horas e meia de um dia 23 de setembro de 1930. Último encontro dos dois narrado em entrevista de outubro do mesmo ano.
Quem era Alesteir Crowley, escritor e mago tão admirado por Pessoa? Os dois tinham duas coisas em comum: o amor por heterônimos e pela astrologia e horóscopos. Os dois trocaram cartas e Crowley foi à Lisboa com o intuito de conhecer Pessoa. Se Pessoa afirma que se despediu do amigo nesse dia diz também que o viu no dia 24 de manhã.
"Quero crer que ainda o vi. No dia 24, de manhã, vi Crowley ou o seu fantasma dobrar a esquina do Café La Gare para a Rua 1° de Dezembro. Nesse mesmo dia, ao atravessar a Praça Duque da Terceira, vi Crowley ou o seu fantasma, entrar com outro indivíduo na Tabacaria. Inglesa."
O mistério maior é que o inglês desapareceu nesse dia do encontro deixando uma carta num local, um penhasco chamado Boca do Inferno e a dúvida da imprensa e da polícia era se o desaparecimento fora um suicídio (no que Pessoa acreditava), um assassinato ou uma mentira para deixar o hotel sem pagar a conta. Parece que a terceira opção é a verdade. Qual a razão para introduzir um assunto tão prosaico ou policialesco nas minhas lembranças poéticas de Fernando Pessoa? Pesquisando sobre sua presença no Arcada dei com essa estória, seu depoimento à polícia e sua entrevista aos jornais e descobri uma faceta especial desse homem também especial. O amor pelos mistérios (já sabia), sua capacidade de atrair pessoas (Crowley, um viajante compulsivo vai a Portugal conhecer Pessoa) e sua inclinação pela imaginação romântica do suicídio causado pelo abandono da amante. Uma outra farsa porque essa amante, que chegou à Lisboa com o inglês, viajou para a Alemanha num navio e portanto não desapareceu mas apenas viajou. A pergunta é: Pessoa saberia das mentiras e estava se divertindo com as invencionices do além? Ou ele realmente acreditava em fantasmas? Sua entrevista parece irônica quando fala do fantasma do amigo que ele teria visto após a suposta morte.

Outra foto de Fernando Pessoa.

Jan Kremer e uma parede de lembranças.
O recanto de Pessoa e a vista da entrada do café.


















O Martinho da Arcada foi quase uma segunda casa para Fernando Pessoa nos seus últimos dez anos de vida. Era seu escritório. Nessa mesa sempre reservada e nunca ocupada por turistas a não ser pelo breve instante de uma foto ele escreveu muitos dos belos poemas de "Mensagem" e muitas páginas do "Livro do Desassossego". Do livro que é também dos nossos desassossegos e questionamentos da natureza da vida, do sentido do viver, do sonhar e do morrer. Como disse antes ele estava tomando café no Martinho da Arcada, aos 47 anos de idade, já com a saúde frágil,  dois dias antes de ser internado no Hospital de São Luis dos Franceses em Lisboa, três dias antes de sua morte no dia 30 de novembro de 1935.


Na esplanada do restaurante onde lanchamos.


Feliz nesse primeiro encontro com o mundo do poeta.
Mas esse restaurante também é conhecido pela sua mesa típica da culinária portuguesa. Seu cardápio inclui os pasteis de bacalhau (nossos bolinhos de bacalhau), os deliciosos peixinho da horta (na realidade vagens empanadas e fritas), as amêijoas à Bulhão Pato (Raimundo António de Bulhão Pato, poeta, ensaísta e memorialista português), arroz de pato (o de Celinha da Arcádia em Recife é muito saboroso), bacalhau à lagareiro e os fantásticos doces conventuais feitos sempre com as gemas dos ovos e nascidos nos conventos de freiras portuguesas. Nessas épocas antigas grande parte da clara era exportada e usada como purificador na produção de vinho branco ou usada para engomar as roupas elegantes dos homens mais ricos nas cidades do mundo ocidental. Nos conventos as claras eram usadas para engomar os hábitos das freiras e o chamado cocar, a touca rígica que emoldura o rosto e os véus.
Não gosto de doces mas adoro os doces de gemas que lembram os fios de ovos que comia quando morei em São Paulo, feitos por Tia Joanita. Os fios de ovos que acompanham o presunto de Natal, o toucinho do céu (doce preferido de meu filho Paulo) e tudo mais que compõe a doceria de Portugal.
Por isso fizemos um lanche, tomamos vinho, comemos doces e conversamos com os simpáticos garçons. Um lugar para se voltar sempre.


Uma foto inesquecível.
E de novo lembrando Fernando Pessoa, guia de nossos passos lisboetas "a vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."
Podem ler e reler esse conceito de sossego no contínuo desassossego de Pessoa que fez dele um viajante exímio dos caminhos da vida interior.

1 - Fernando Pessoa, Livro do Desassossego - "Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são."
2 - Fernando Pessoa, Livro do Desassossego - "A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."

3 - Lisboa (Álvaro de Campos, in Poemas):
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.






terça-feira, 15 de março de 2016

PARTE XXIV - SAUDADES DE TANTAS COISAS

Não consigo achar um poema que traduza essa saudade visceral por você que mora dentro de mim. Não me consome, não me entristece, não doi, não muda minha rotina e nem o meu prazer de viver. Apenas faz parte de mim como uma sombra.
Aprendi que não só a saudade mas o amor tem uma dimensão física na medida em que o amor implica em mudanças e decisões. Não mudanças espirituais, bem estar físico ou segurança. Mas mudar para encontrar. Viajar para encontrar. Mudar de país para encontrar. Mudar estilo de vida e de trabalho para encontrar. Para viver o amor que está crescendo dentro da gente. Não falo em coração ou alma porque são termos conhecidos e comuns e acho que os sentimentos ocupam uma parte muito maior do nosso corpo e de nossa mente.
Na linda festa de casamento de Paulo.
Mas você veio ao Brasil e nos divertimos muito em Recife e no Rio de Janeiro.
Estivemos juntos em Serrambi na linda festa de casamento de Paulo e Aline, com toda a minha família, todos os filhos, noras e netos e com essa turma de amigos queridos que você aprendeu a conhecer.



Nós dois na festa.


















Com nosso querido Drummond no Rio.
















Sempre atrás dos poetas.


No Rio, a foto clássica.




















E estivemos uma semana em Lisboa seguindo os passos de Fernando Pessoa e aproveitando as delícias dessa cidade cosmopolita, antiga e nova, com surpresas a cada esquina.
E agora estou de volta à nossa casa no Monte da Fazenda.
Voltamos ao nosso cotidiano de dias quase sempre perfeitos ou quase mais-que-perfeitos.




segunda-feira, 9 de novembro de 2015

PARTE XXIII - DA NATUREZA E DA SAUDADE

Já escrevi sobre saudades porque a saudade está sempre em mim como um sentimento físico. Tentei explicar a Jan que aprendeu o que significa saudade em Portugal, mas que não entendeu como pode ser físico. Pode ser um sentimento lírico?
Face Time para amenizar a saudade.
Essa é a hora do dia em que esse sentimento é esquecido. Ou amenizado. Porque nesse encontro há a cumplicidade e o riso. Mas não há o toque das mãos. A hora é o nosso tempo online, em geral pelo Face Time, quando sabemos das rotinas de cada um.
"O meu olhar é nítido como um girassol." Para perceber os sentimentos na voz e no gestual.
Consigo perceber/ sentir amor e saudade misturados com felicidade. Porque o que adocica a saudade é saber que ela vai passar e que em breve estaremos juntos. Por isso essa saudade é boa.
Juntos temos o costume de andar pelas estradas e observar o que nunca tínhamos visto antes. Mesmo em lugares conhecidos e já visitados porque olhamos com o prazer cúmplice de descobrir a eterna novidade no mundo que já tínhamos descoberto. Vejo a cada momento o que nunca antes tinha visto.
Porque juntos não temos filosofia mas sim sentidos. Um andar de dedos entrelaçados. E uma risada fácil.
Pegados de surpresa em Zutphen por um amigo fotógrafo Willem.
"Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."

Andando no Kröller-Müller Museum
Sentimos isso ao andar nos caminhos alentejanos saindo ou voltando para nossa casa. Ou na Holanda. em Arnehm, Zutphen, Nijmegen, Amsterdam ou Laren. Ou Recife. Ou em Londres. Não interesssa o lugar. Amamos andar nas cidades ou em parques. Em qualquer cidade procuramos o contato com a natureza e isso não é um chavão. É quase uma regra tácita.








Escondida e divertida.


"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar..."

Aqui a natureza sofreu uma intervenção de arte e mesmo assim as árvores predominam.
A inserção artística é casual e no entanto é bela e fenomenal.



Kröller-Müller Museum: Jean Fabre.
A intervenção artística aqui são as cabeças em pedestal do escultor Jean Fabre, da Bélgica. Houve uma grande exposição das obras desse genial e múltiplo artista no verão de 2011 nesse museu holandês. Uma parte de seus trabalhos foi comprada pelo museu, essas cabeças estranhas, chamadas "Chapters", uma série de auto-retratos, parte de um trabalho maior de dezoito esculturas: Hoofdstukken, I - XVIII, 2010. Cada uma das cabeças tem uma excrescência que não se ajusta ao ser humano. Chifres, antenas, orelhas e dentes descomunais. O próprio Fabre disse acreditar que todos nós somos esquizofrênicos. Talvez em cada um de nós haja um ganster, um gênio, um palhaço ou um charlatão. Somos máscaras desses caracteres. São dezoito auto-retratos esculpidos, dos quais oito estão nesse jardim, entre árvores. São todos diferentes porque cada um veste diferentes personalidades. Em mim eu tenho escondida uma mulher romântica e sonhadora que aparece até demais nesses escritos. Acordo e visto minha roupa de sonhar que não tiro patra dormir.
Outono/ inverno e céu nublado.
"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..".
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...


Cirros-cúmulos.







Amo esse céu nublado de cirros acumulados, talvez cirros-cúmulos. mas que interessa o nome dado à essa formação de nuvens como uma rede tricotada contra o céu azul? E na borda desse tecido uma aplicação de renda, um matame para uma coberta de sonhar.

Lembro os vestidos de princesa de Narizinho de Monteiro Lobato, o hoje proclamado racista pela ignorância arrogante de um partido autoritário e incompetente. Pela não cultura do racismo. Ou pela instigação burra do racismo.

Nesses vestidos os peixes nadavam e as estrelas brilhavam. No meu céu de tricot e renda apenas o contemplar faz bem à alma.
As esculturas no gramado do Museu.

Falei do Kröller-Müller Museum e não expliquei porque esse museu é tão lindo e porque vale a pena visitá-lo. O museu é localizado em Otterlo, na Holanda, um museu de arte com um jardim de esculturas, no Hoge Veluwe National Park. De Beeldentuin.

Tem a segunda maior coleção de pinturas de Vincent van Gogh, sendo o mais rico e importante o Van Gogh Museum, em Amsterdam. "Café Terrace at Night" faz parte da coleção assim como uma versão de "The Potato Eaters".
O jardim de esculturas é um dos maiores da Europa e reflete o conceito da colecionadora e fundadora do museu Helene Kröller-Müller sobre a simbiose entre arte, arquitetura e natureza.

Essa escultura assim jogada, deitada no meio do gramado, chama-se Niobe, de Constant Permeke, uma artista belga (1886-1952). A escultura data de 1951. Ao fundo uma escultura francesa, "La grande Pénèlope", de 1012, de Émile-Antoine Bourdelle. Penélope, a que sempre esperou e foi fiel numa atitude contemplativa. A que nunca quis casar enquanto esperava Ulisses. 
Em Amsterdam. I amsterdam.
Andamos também mais de uma vez em Amsterdam, nessa foto num domingo chuvoso e frio, o clima típico holandês. Visitamos o Rijksmuseum e nos abraçamos na chuva para uma foto turística. Ver essas fotos hoje é como reviver nossa histórias e matar um pouco as saudades.






Asclepius, Teleaphorus, Hygieia e eu.
Gostamos de andar em Arnhem, especialmente no Sonsbeek Park, bem perto da casa onde Jan morava. Na Holanda fazemos tudo a pé. Em cada cidade que visitamos andamos a pé. Andarilhos do mundo. Andar nesse parque, parar e conversar, apreciar a bela vista nas diferentes estações do ano e perceber as gradações de cores do verde ao amarelo. No outono o chão coberto de folhas.
O parque é enorme e lindo e junto ao Zijpendaal. Essas fotos foram tiradas nesse segundo parque, prolongamento do Sonsbeek ao norte.



Foto com mais uma bela estátua no jardim do Zijpendaal representando Asclepius, Hygieia e Telesphoros. Todos da antiga religião grega, sendo Asclepius filho de Apolo, Telesphorus filho de Asclepius e Hygieia sua irmã. 
Sentados no Zijpendaal em frente à linda casa do parque.
Openluchtmuseum em Arnhem.
Andamos também durante horas num dos mais lindos museus que visitei, o Openluchtmuseum em Arnhem. Nesse museu podemos ver e participar da vida de uma antiga vila holandesa, com seus moinhos, suas fazendas, a fábrica de queijos, os campos, as pequenas casas. Um dia vou descrever melhor esse belo passeio. 
Um museu aberto, ao ar livre.


Em Zutphen.
Muitas vezes andamos em Zutphen, uma das mais belas cidades que visitei em detalhes, percorrendo suas ruas, as praças, os parques, as margens do rio Ijssel. Como Jan escreveu um livro sobre essa cidade e suas lendas conheço os pequenos recônditos dela. 
Jan, meu amor, em Zutphen. 
Comecei falando de saudade e natureza, porque estava lendo e relendo o poema de Alberto Caeiro, 
"O Guardador de Rebanhos". Gostei de suas frases e de seus conceitos. Especialmente essa: eu não tenho filosofia, tenho sentidos. O que é uma filosofia de vida. A filosofia de não ter filosofia e de não compreender o mundo mas apenas vivenciá-lo.
Descartes dizia: penso logo existo. Eu digo: vivo, logo existo. Não penso para viver. Claro que penso para trabalhar, para coisas racionais, para votar. 
Mas a vida é uma sequência de coisas que acontecem, de oportunidades que se abrem e que só são  vividas se estamos abertos a elas. Senão a vida passou na janela e Carolina não viu.

O amor é para ser vivido e não compreendido.

"Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

1 - O Guardador de Rebanhos II - Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa.

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

2 - Café Terrace at Night, Vincent van Gogh
Acervo do Kröller-Müller Museum.

 3- The Potato Eaters, Vincent van Gogh.
The Potato Eaters, no mesmo museu.

4 - La grande Pénèlope, Émile-Antoine Bourdelle
Contemplando e esperando. Falta o bordado.

















5 - Hoofdstukken, I - XVIII, Chapters, Jean Fabre.
Hoofgstukken completo I-XVIII, quando da exposição em 2011.

Sete das esculturas de Chapters, Jean Fabre.

Auto-retratos de jean Fabre. Dispensa legenda.











sábado, 10 de outubro de 2015

PARTE XXII - SAUDADES

Saudades de você, saudades de nossa vida portuguesa. Saudades. Como definir? Saudade é um sentimento bom, positivo, a falta de alguém ou de algo que deixamos ou definitivamente ou por um período, um sentimento feito só de lembranças boas. Mas saudade é também sofrimento. Uma palavra da língua portuguesa, um sentimento universal.
A falta de algo e a frustração de uma expectativa não realizada.
Saudade do cotidiano, saudade de pequenas coisa. Tudo faz lembrar e tudo falta. As lembranças geram um sorriso. Pequenos acontecimentos voltam à memória a cada instante.

Jan Kremer e sua moto em Évora Monte.
Como Drummond achei que a ausência é falta, mas essa ausência está em mim, aconchegada nos meus braços, transformada em risos silenciosos que surgem das memórias assim de repente e em qualquer situação, transformada na vontade de contar, de lembrar. Até de ser tão ridícula como quem escreve cartas de amor. Porque essa ausência, essa memória do ausente, ninguém rouba de mim. Está incorporada e seletivamente armazenada no palácio dos momentos mágicos. Esse palácio que construí ao longo da minha vida e no qual incorporamos alas e salões iluminados, eu e Jan.


Desde pequena aprendi uma maneira de diminuir o tempo entre encontros. Quando meu pai viajava colocava feijões num copo que me dava e cada dia eu jogava um fora. A sensação concreta da passagem do tempo ficava evidente na contagem de um dia a menos. Fazemos isso eu e Jan há vários anos. Às vezes brincamos que seria melhor contar batatas que são maiores e que então os dias passariam mais visíveis. Hoje dia 11 de outubro estou contando 60 dias para sua chegada em Recife, em 10 de dezembro.

Sigo minha vida de família e de trabalho com alegria e entusiasmo mas sua presença ausente é palpável e contínua. Falamos todos os dias na maravilha que é o Face Time, falamos como se estívessemos juntos. Mas o tocar, o dançar, os abraços, a cumplicidade, essa existe em pensamento mas na prática não andamos de mãos dadas em Estremoz ou não decidimos em conjunto o que vamos fazer a cada dia. A primeira pergunta de cada manhã. Hoje ou sem pressa nos próximos vinte anos?
I love you. Me too. Então você se ama e não a mim?



Sounds good?, a frase de "Inglorious Bastards" quando Brad Pitt, Lt. Aldo Raine diz à sua tropa: E uma vez em terreno inimigo nós vamos fazer uma coisa e uma única coisa. Matar Nazistas. Sounds good? Yes, sir. I want my scalps.


Essa entonação adoramos imitar, Jan principalmente que eu não sou boa nisso, em alto e bom som. Nossos vizinhos devem pensar que somos loucos. Não loucura desvairada mas loucura na medida de uma grande diversão.

Outra frase de filme que adoramos é do Apocalypse Now: I love the smell of napalm in the morning. Frase dita pelo tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) no filme dirigido por Francis Ford Coppola e escrito por John Milius, baseado no fantástico livro de Joseph Conrad "Heart of Darkness". Dizemos I love the smell of coffee in the morning. Não gostamos de napalm, mas gostamos de filmes.








Podemos nos divertir com os filmes mais idiotas de Hollywood ou com a série inglesa sobre Miss Marple. Essa especialmente estávamos assitindo no Monte da Fazenda em nossa velha televisão, série da Fox Crime, com sublegenda em português de Portugal.


O hábito está incorporado nele, meu gato doméstico afeito aos domínios da casa e à rotina. Saudades de sentar na nossa salinha, todo dia após o jantar para ver Miss Marple, com sotaque inglês, ambientes ingleses, histórias já lidas e conhecidas, reconhecidas.
Gostamos muito de Julia Mackenzie como a Miss Marple que assumiu o lugar de Geraldine McEwan, a partir da quarta série.
Antes, a Miss Marple magrinha, era Geraldine McEwan, que morreu esse ano, em fevereiro. Nos Brasil essa série é ou era exibida pela HBO. Preciso descobrir.

Geraldine McEwan, a Miss marple magrinha.
Julia Mcckenzie a nova Miss Marple.
Curioso que comecei a escrever sobre amor e saudade e estou aqui falando de frases de filmes (que usamos) e de séries de televisão (que pouco vemos). São estranhos os caminhos das lembranças quando elas estão presentes a qualquer horas estimuladas por qualquer cheiro, gesto ou frase.





Penso nos nossos gatos, Winnie e Molly e descubro que eles também amam a rotina que lembram perfeitamente. Costumava acordar cedo em torno de 8 horas e encontrava Winnie muitas vezes esperando e espreitando na janela. Muitas vezes durmo de janela aberta mesmo meu quarto sendo no térreo, algo que não se pode fazer nesse nosso país. Senão quando abro a porta os dois chegam, às vezes correndo, para um bom dia e para o café da manhã ou pequeno almoço como se chama essa refeição em Portugal.
Jan estando sozinho acorda mais tarde e segundo nossos vizinhos os gatos esperam por ele na porta desde 8 horas da manhã.

Hoje, chovendo em Évora Monte, Molly estava dormindo na minha cama e Winnie no sofá da sala, sob os olhos cuidadosos e afetuosos do meu grande gato doméstico holandês.

Mas a saudade tem algumas vantagens. Esse sentimento e o estar sozinho fez Jan retomar o livro que estava começado e segundo ele não suficientemente bom para publicar. Está sendo para ele uma tarefa diária e prazeirosa. Daqui estou acompanhando.  

E o melhor momento do dia chega quando conversamos no Face Time. Hoje está friozinho em Évora Monte e quente aqui e lá está ele com sua boina de Che Guevara que não comprou por admiração ou comunhão de ideias mas numa de suas viagens em Cuba pesquisando para um de seus livros e seguindo os passos de Hemingway.

No Face Time, Jan com o gorro comprado em Cuba.
























Distante mas felizes.
São estranhos os caminhos dessa vida para quem tem amor e essa frase, quase sem querer escrevi ao som da bela música de Vinicius são demais os perigos dessa vida.  Como é fabuloso derrapar completamente nesse amor adolescente na curva perigosa dos sessenta. Drummond, poeta sábio, como consigo lhe entender completamente. Amor na quinta-essência da palavra que me mata de saudade, sentimento ao qual resisto bravamente, contando os dias e em breve as horas, sonhando com o retorno à nossa casinha portuguesa com certeza e à nossa vida simples mas tão completamente plena. Nem nos mais remotos sonhos saberia que teria essa velhice aconchegante.


1 - http://www.citador.pt/poemas/ausencia-carlos-drummond-de-andrade

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo' 

2 - http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=13888&poeta_id=234


O quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade