sábado, 10 de outubro de 2015

PARTE XXII - SAUDADES

Saudades de você, saudades de nossa vida portuguesa. Saudades. Como definir? Saudade é um sentimento bom, positivo, a falta de alguém ou de algo que deixamos ou definitivamente ou por um período, um sentimento feito só de lembranças boas. Mas saudade é também sofrimento. Uma palavra da língua portuguesa, um sentimento universal.
A falta de algo e a frustração de uma expectativa não realizada.
Saudade do cotidiano, saudade de pequenas coisa. Tudo faz lembrar e tudo falta. As lembranças geram um sorriso. Pequenos acontecimentos voltam à memória a cada instante.

Jan Kremer e sua moto em Évora Monte.
Como Drummond achei que a ausência é falta, mas essa ausência está em mim, aconchegada nos meus braços, transformada em risos silenciosos que surgem das memórias assim de repente e em qualquer situação, transformada na vontade de contar, de lembrar. Até de ser tão ridícula como quem escreve cartas de amor. Porque essa ausência, essa memória do ausente, ninguém rouba de mim. Está incorporada e seletivamente armazenada no palácio dos momentos mágicos. Esse palácio que construí ao longo da minha vida e no qual incorporamos alas e salões iluminados, eu e Jan.


Desde pequena aprendi uma maneira de diminuir o tempo entre encontros. Quando meu pai viajava colocava feijões num copo que me dava e cada dia eu jogava um fora. A sensação concreta da passagem do tempo ficava evidente na contagem de um dia a menos. Fazemos isso eu e Jan há vários anos. Às vezes brincamos que seria melhor contar batatas que são maiores e que então os dias passariam mais visíveis. Hoje dia 11 de outubro estou contando 60 dias para sua chegada em Recife, em 10 de dezembro.

Sigo minha vida de família e de trabalho com alegria e entusiasmo mas sua presença ausente é palpável e contínua. Falamos todos os dias na maravilha que é o Face Time, falamos como se estívessemos juntos. Mas o tocar, o dançar, os abraços, a cumplicidade, essa existe em pensamento mas na prática não andamos de mãos dadas em Estremoz ou não decidimos em conjunto o que vamos fazer a cada dia. A primeira pergunta de cada manhã. Hoje ou sem pressa nos próximos vinte anos?
I love you. Me too. Então você se ama e não a mim?



Sounds good?, a frase de "Inglorious Bastards" quando Brad Pitt, Lt. Aldo Raine diz à sua tropa: E uma vez em terreno inimigo nós vamos fazer uma coisa e uma única coisa. Matar Nazistas. Sounds good? Yes, sir. I want my scalps.


Essa entonação adoramos imitar, Jan principalmente que eu não sou boa nisso, em alto e bom som. Nossos vizinhos devem pensar que somos loucos. Não loucura desvairada mas loucura na medida de uma grande diversão.

Outra frase de filme que adoramos é do Apocalypse Now: I love the smell of napalm in the morning. Frase dita pelo tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) no filme dirigido por Francis Ford Coppola e escrito por John Milius, baseado no fantástico livro de Joseph Conrad "Heart of Darkness". Dizemos I love the smell of coffee in the morning. Não gostamos de napalm, mas gostamos de filmes.








Podemos nos divertir com os filmes mais idiotas de Hollywood ou com a série inglesa sobre Miss Marple. Essa especialmente estávamos assitindo no Monte da Fazenda em nossa velha televisão, série da Fox Crime, com sublegenda em português de Portugal.


O hábito está incorporado nele, meu gato doméstico afeito aos domínios da casa e à rotina. Saudades de sentar na nossa salinha, todo dia após o jantar para ver Miss Marple, com sotaque inglês, ambientes ingleses, histórias já lidas e conhecidas, reconhecidas.
Gostamos muito de Julia Mackenzie como a Miss Marple que assumiu o lugar de Geraldine McEwan, a partir da quarta série.
Antes, a Miss Marple magrinha, era Geraldine McEwan, que morreu esse ano, em fevereiro. Nos Brasil essa série é ou era exibida pela HBO. Preciso descobrir.

Geraldine McEwan, a Miss marple magrinha.
Julia Mcckenzie a nova Miss Marple.
Curioso que comecei a escrever sobre amor e saudade e estou aqui falando de frases de filmes (que usamos) e de séries de televisão (que pouco vemos). São estranhos os caminhos das lembranças quando elas estão presentes a qualquer horas estimuladas por qualquer cheiro, gesto ou frase.





Penso nos nossos gatos, Winnie e Molly e descubro que eles também amam a rotina que lembram perfeitamente. Costumava acordar cedo em torno de 8 horas e encontrava Winnie muitas vezes esperando e espreitando na janela. Muitas vezes durmo de janela aberta mesmo meu quarto sendo no térreo, algo que não se pode fazer nesse nosso país. Senão quando abro a porta os dois chegam, às vezes correndo, para um bom dia e para o café da manhã ou pequeno almoço como se chama essa refeição em Portugal.
Jan estando sozinho acorda mais tarde e segundo nossos vizinhos os gatos esperam por ele na porta desde 8 horas da manhã.

Hoje, chovendo em Évora Monte, Molly estava dormindo na minha cama e Winnie no sofá da sala, sob os olhos cuidadosos e afetuosos do meu grande gato doméstico holandês.

Mas a saudade tem algumas vantagens. Esse sentimento e o estar sozinho fez Jan retomar o livro que estava começado e segundo ele não suficientemente bom para publicar. Está sendo para ele uma tarefa diária e prazeirosa. Daqui estou acompanhando.  

E o melhor momento do dia chega quando conversamos no Face Time. Hoje está friozinho em Évora Monte e quente aqui e lá está ele com sua boina de Che Guevara que não comprou por admiração ou comunhão de ideias mas numa de suas viagens em Cuba pesquisando para um de seus livros e seguindo os passos de Hemingway.

No Face Time, Jan com o gorro comprado em Cuba.
























Distante mas felizes.
São estranhos os caminhos dessa vida para quem tem amor e essa frase, quase sem querer escrevi ao som da bela música de Vinicius são demais os perigos dessa vida.  Como é fabuloso derrapar completamente nesse amor adolescente na curva perigosa dos sessenta. Drummond, poeta sábio, como consigo lhe entender completamente. Amor na quinta-essência da palavra que me mata de saudade, sentimento ao qual resisto bravamente, contando os dias e em breve as horas, sonhando com o retorno à nossa casinha portuguesa com certeza e à nossa vida simples mas tão completamente plena. Nem nos mais remotos sonhos saberia que teria essa velhice aconchegante.


1 - http://www.citador.pt/poemas/ausencia-carlos-drummond-de-andrade

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo' 

2 - http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=13888&poeta_id=234


O quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade






4 comentários:

  1. Adoro os seus artigos! Adoro o seu jeito de descrever as coisas e as suas experiências!

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  2. Prima,
    Você escreve e descreve de uma forma ímpar. Impossível não imaginar que o amor e a saudade são motivações que, guardadas no armário de nossos corações, eclodem numa forma de escrever que é esplendidamente emoção. Que tanto amor, que "loucura" na forma de lembrar, de esperar, de recordar.
    Amo os seus escritos tão sentidos, tão palpáveis, tão amor na sua forma mais verdadeira.
    O tempo passa, prima. Faça dessa saudade uma companheira sua. É uma saudade boa que vai ter aquele final feliz: o reencontro!!!!
    Beijos, Eliana

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