segunda-feira, 9 de novembro de 2015

PARTE XXIII - DA NATUREZA E DA SAUDADE

Já escrevi sobre saudades porque a saudade está sempre em mim como um sentimento físico. Tentei explicar a Jan que aprendeu o que significa saudade em Portugal, mas que não entendeu como pode ser físico. Pode ser um sentimento lírico?
Face Time para amenizar a saudade.
Essa é a hora do dia em que esse sentimento é esquecido. Ou amenizado. Porque nesse encontro há a cumplicidade e o riso. Mas não há o toque das mãos. A hora é o nosso tempo online, em geral pelo Face Time, quando sabemos das rotinas de cada um.
"O meu olhar é nítido como um girassol." Para perceber os sentimentos na voz e no gestual.
Consigo perceber/ sentir amor e saudade misturados com felicidade. Porque o que adocica a saudade é saber que ela vai passar e que em breve estaremos juntos. Por isso essa saudade é boa.
Juntos temos o costume de andar pelas estradas e observar o que nunca tínhamos visto antes. Mesmo em lugares conhecidos e já visitados porque olhamos com o prazer cúmplice de descobrir a eterna novidade no mundo que já tínhamos descoberto. Vejo a cada momento o que nunca antes tinha visto.
Porque juntos não temos filosofia mas sim sentidos. Um andar de dedos entrelaçados. E uma risada fácil.
Pegados de surpresa em Zutphen por um amigo fotógrafo Willem.
"Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."

Andando no Kröller-Müller Museum
Sentimos isso ao andar nos caminhos alentejanos saindo ou voltando para nossa casa. Ou na Holanda. em Arnehm, Zutphen, Nijmegen, Amsterdam ou Laren. Ou Recife. Ou em Londres. Não interesssa o lugar. Amamos andar nas cidades ou em parques. Em qualquer cidade procuramos o contato com a natureza e isso não é um chavão. É quase uma regra tácita.








Escondida e divertida.


"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar..."

Aqui a natureza sofreu uma intervenção de arte e mesmo assim as árvores predominam.
A inserção artística é casual e no entanto é bela e fenomenal.



Kröller-Müller Museum: Jean Fabre.
A intervenção artística aqui são as cabeças em pedestal do escultor Jean Fabre, da Bélgica. Houve uma grande exposição das obras desse genial e múltiplo artista no verão de 2011 nesse museu holandês. Uma parte de seus trabalhos foi comprada pelo museu, essas cabeças estranhas, chamadas "Chapters", uma série de auto-retratos, parte de um trabalho maior de dezoito esculturas: Hoofdstukken, I - XVIII, 2010. Cada uma das cabeças tem uma excrescência que não se ajusta ao ser humano. Chifres, antenas, orelhas e dentes descomunais. O próprio Fabre disse acreditar que todos nós somos esquizofrênicos. Talvez em cada um de nós haja um ganster, um gênio, um palhaço ou um charlatão. Somos máscaras desses caracteres. São dezoito auto-retratos esculpidos, dos quais oito estão nesse jardim, entre árvores. São todos diferentes porque cada um veste diferentes personalidades. Em mim eu tenho escondida uma mulher romântica e sonhadora que aparece até demais nesses escritos. Acordo e visto minha roupa de sonhar que não tiro patra dormir.
Outono/ inverno e céu nublado.
"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..".
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...


Cirros-cúmulos.







Amo esse céu nublado de cirros acumulados, talvez cirros-cúmulos. mas que interessa o nome dado à essa formação de nuvens como uma rede tricotada contra o céu azul? E na borda desse tecido uma aplicação de renda, um matame para uma coberta de sonhar.

Lembro os vestidos de princesa de Narizinho de Monteiro Lobato, o hoje proclamado racista pela ignorância arrogante de um partido autoritário e incompetente. Pela não cultura do racismo. Ou pela instigação burra do racismo.

Nesses vestidos os peixes nadavam e as estrelas brilhavam. No meu céu de tricot e renda apenas o contemplar faz bem à alma.
As esculturas no gramado do Museu.

Falei do Kröller-Müller Museum e não expliquei porque esse museu é tão lindo e porque vale a pena visitá-lo. O museu é localizado em Otterlo, na Holanda, um museu de arte com um jardim de esculturas, no Hoge Veluwe National Park. De Beeldentuin.

Tem a segunda maior coleção de pinturas de Vincent van Gogh, sendo o mais rico e importante o Van Gogh Museum, em Amsterdam. "Café Terrace at Night" faz parte da coleção assim como uma versão de "The Potato Eaters".
O jardim de esculturas é um dos maiores da Europa e reflete o conceito da colecionadora e fundadora do museu Helene Kröller-Müller sobre a simbiose entre arte, arquitetura e natureza.

Essa escultura assim jogada, deitada no meio do gramado, chama-se Niobe, de Constant Permeke, uma artista belga (1886-1952). A escultura data de 1951. Ao fundo uma escultura francesa, "La grande Pénèlope", de 1012, de Émile-Antoine Bourdelle. Penélope, a que sempre esperou e foi fiel numa atitude contemplativa. A que nunca quis casar enquanto esperava Ulisses. 
Em Amsterdam. I amsterdam.
Andamos também mais de uma vez em Amsterdam, nessa foto num domingo chuvoso e frio, o clima típico holandês. Visitamos o Rijksmuseum e nos abraçamos na chuva para uma foto turística. Ver essas fotos hoje é como reviver nossa histórias e matar um pouco as saudades.






Asclepius, Teleaphorus, Hygieia e eu.
Gostamos de andar em Arnhem, especialmente no Sonsbeek Park, bem perto da casa onde Jan morava. Na Holanda fazemos tudo a pé. Em cada cidade que visitamos andamos a pé. Andarilhos do mundo. Andar nesse parque, parar e conversar, apreciar a bela vista nas diferentes estações do ano e perceber as gradações de cores do verde ao amarelo. No outono o chão coberto de folhas.
O parque é enorme e lindo e junto ao Zijpendaal. Essas fotos foram tiradas nesse segundo parque, prolongamento do Sonsbeek ao norte.



Foto com mais uma bela estátua no jardim do Zijpendaal representando Asclepius, Hygieia e Telesphoros. Todos da antiga religião grega, sendo Asclepius filho de Apolo, Telesphorus filho de Asclepius e Hygieia sua irmã. 
Sentados no Zijpendaal em frente à linda casa do parque.
Openluchtmuseum em Arnhem.
Andamos também durante horas num dos mais lindos museus que visitei, o Openluchtmuseum em Arnhem. Nesse museu podemos ver e participar da vida de uma antiga vila holandesa, com seus moinhos, suas fazendas, a fábrica de queijos, os campos, as pequenas casas. Um dia vou descrever melhor esse belo passeio. 
Um museu aberto, ao ar livre.


Em Zutphen.
Muitas vezes andamos em Zutphen, uma das mais belas cidades que visitei em detalhes, percorrendo suas ruas, as praças, os parques, as margens do rio Ijssel. Como Jan escreveu um livro sobre essa cidade e suas lendas conheço os pequenos recônditos dela. 
Jan, meu amor, em Zutphen. 
Comecei falando de saudade e natureza, porque estava lendo e relendo o poema de Alberto Caeiro, 
"O Guardador de Rebanhos". Gostei de suas frases e de seus conceitos. Especialmente essa: eu não tenho filosofia, tenho sentidos. O que é uma filosofia de vida. A filosofia de não ter filosofia e de não compreender o mundo mas apenas vivenciá-lo.
Descartes dizia: penso logo existo. Eu digo: vivo, logo existo. Não penso para viver. Claro que penso para trabalhar, para coisas racionais, para votar. 
Mas a vida é uma sequência de coisas que acontecem, de oportunidades que se abrem e que só são  vividas se estamos abertos a elas. Senão a vida passou na janela e Carolina não viu.

O amor é para ser vivido e não compreendido.

"Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

1 - O Guardador de Rebanhos II - Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa.

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

2 - Café Terrace at Night, Vincent van Gogh
Acervo do Kröller-Müller Museum.

 3- The Potato Eaters, Vincent van Gogh.
The Potato Eaters, no mesmo museu.

4 - La grande Pénèlope, Émile-Antoine Bourdelle
Contemplando e esperando. Falta o bordado.

















5 - Hoofdstukken, I - XVIII, Chapters, Jean Fabre.
Hoofgstukken completo I-XVIII, quando da exposição em 2011.

Sete das esculturas de Chapters, Jean Fabre.

Auto-retratos de jean Fabre. Dispensa legenda.











sábado, 10 de outubro de 2015

PARTE XXII - SAUDADES

Saudades de você, saudades de nossa vida portuguesa. Saudades. Como definir? Saudade é um sentimento bom, positivo, a falta de alguém ou de algo que deixamos ou definitivamente ou por um período, um sentimento feito só de lembranças boas. Mas saudade é também sofrimento. Uma palavra da língua portuguesa, um sentimento universal.
A falta de algo e a frustração de uma expectativa não realizada.
Saudade do cotidiano, saudade de pequenas coisa. Tudo faz lembrar e tudo falta. As lembranças geram um sorriso. Pequenos acontecimentos voltam à memória a cada instante.

Jan Kremer e sua moto em Évora Monte.
Como Drummond achei que a ausência é falta, mas essa ausência está em mim, aconchegada nos meus braços, transformada em risos silenciosos que surgem das memórias assim de repente e em qualquer situação, transformada na vontade de contar, de lembrar. Até de ser tão ridícula como quem escreve cartas de amor. Porque essa ausência, essa memória do ausente, ninguém rouba de mim. Está incorporada e seletivamente armazenada no palácio dos momentos mágicos. Esse palácio que construí ao longo da minha vida e no qual incorporamos alas e salões iluminados, eu e Jan.


Desde pequena aprendi uma maneira de diminuir o tempo entre encontros. Quando meu pai viajava colocava feijões num copo que me dava e cada dia eu jogava um fora. A sensação concreta da passagem do tempo ficava evidente na contagem de um dia a menos. Fazemos isso eu e Jan há vários anos. Às vezes brincamos que seria melhor contar batatas que são maiores e que então os dias passariam mais visíveis. Hoje dia 11 de outubro estou contando 60 dias para sua chegada em Recife, em 10 de dezembro.

Sigo minha vida de família e de trabalho com alegria e entusiasmo mas sua presença ausente é palpável e contínua. Falamos todos os dias na maravilha que é o Face Time, falamos como se estívessemos juntos. Mas o tocar, o dançar, os abraços, a cumplicidade, essa existe em pensamento mas na prática não andamos de mãos dadas em Estremoz ou não decidimos em conjunto o que vamos fazer a cada dia. A primeira pergunta de cada manhã. Hoje ou sem pressa nos próximos vinte anos?
I love you. Me too. Então você se ama e não a mim?



Sounds good?, a frase de "Inglorious Bastards" quando Brad Pitt, Lt. Aldo Raine diz à sua tropa: E uma vez em terreno inimigo nós vamos fazer uma coisa e uma única coisa. Matar Nazistas. Sounds good? Yes, sir. I want my scalps.


Essa entonação adoramos imitar, Jan principalmente que eu não sou boa nisso, em alto e bom som. Nossos vizinhos devem pensar que somos loucos. Não loucura desvairada mas loucura na medida de uma grande diversão.

Outra frase de filme que adoramos é do Apocalypse Now: I love the smell of napalm in the morning. Frase dita pelo tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) no filme dirigido por Francis Ford Coppola e escrito por John Milius, baseado no fantástico livro de Joseph Conrad "Heart of Darkness". Dizemos I love the smell of coffee in the morning. Não gostamos de napalm, mas gostamos de filmes.








Podemos nos divertir com os filmes mais idiotas de Hollywood ou com a série inglesa sobre Miss Marple. Essa especialmente estávamos assitindo no Monte da Fazenda em nossa velha televisão, série da Fox Crime, com sublegenda em português de Portugal.


O hábito está incorporado nele, meu gato doméstico afeito aos domínios da casa e à rotina. Saudades de sentar na nossa salinha, todo dia após o jantar para ver Miss Marple, com sotaque inglês, ambientes ingleses, histórias já lidas e conhecidas, reconhecidas.
Gostamos muito de Julia Mackenzie como a Miss Marple que assumiu o lugar de Geraldine McEwan, a partir da quarta série.
Antes, a Miss Marple magrinha, era Geraldine McEwan, que morreu esse ano, em fevereiro. Nos Brasil essa série é ou era exibida pela HBO. Preciso descobrir.

Geraldine McEwan, a Miss marple magrinha.
Julia Mcckenzie a nova Miss Marple.
Curioso que comecei a escrever sobre amor e saudade e estou aqui falando de frases de filmes (que usamos) e de séries de televisão (que pouco vemos). São estranhos os caminhos das lembranças quando elas estão presentes a qualquer horas estimuladas por qualquer cheiro, gesto ou frase.





Penso nos nossos gatos, Winnie e Molly e descubro que eles também amam a rotina que lembram perfeitamente. Costumava acordar cedo em torno de 8 horas e encontrava Winnie muitas vezes esperando e espreitando na janela. Muitas vezes durmo de janela aberta mesmo meu quarto sendo no térreo, algo que não se pode fazer nesse nosso país. Senão quando abro a porta os dois chegam, às vezes correndo, para um bom dia e para o café da manhã ou pequeno almoço como se chama essa refeição em Portugal.
Jan estando sozinho acorda mais tarde e segundo nossos vizinhos os gatos esperam por ele na porta desde 8 horas da manhã.

Hoje, chovendo em Évora Monte, Molly estava dormindo na minha cama e Winnie no sofá da sala, sob os olhos cuidadosos e afetuosos do meu grande gato doméstico holandês.

Mas a saudade tem algumas vantagens. Esse sentimento e o estar sozinho fez Jan retomar o livro que estava começado e segundo ele não suficientemente bom para publicar. Está sendo para ele uma tarefa diária e prazeirosa. Daqui estou acompanhando.  

E o melhor momento do dia chega quando conversamos no Face Time. Hoje está friozinho em Évora Monte e quente aqui e lá está ele com sua boina de Che Guevara que não comprou por admiração ou comunhão de ideias mas numa de suas viagens em Cuba pesquisando para um de seus livros e seguindo os passos de Hemingway.

No Face Time, Jan com o gorro comprado em Cuba.
























Distante mas felizes.
São estranhos os caminhos dessa vida para quem tem amor e essa frase, quase sem querer escrevi ao som da bela música de Vinicius são demais os perigos dessa vida.  Como é fabuloso derrapar completamente nesse amor adolescente na curva perigosa dos sessenta. Drummond, poeta sábio, como consigo lhe entender completamente. Amor na quinta-essência da palavra que me mata de saudade, sentimento ao qual resisto bravamente, contando os dias e em breve as horas, sonhando com o retorno à nossa casinha portuguesa com certeza e à nossa vida simples mas tão completamente plena. Nem nos mais remotos sonhos saberia que teria essa velhice aconchegante.


1 - http://www.citador.pt/poemas/ausencia-carlos-drummond-de-andrade

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo' 

2 - http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=13888&poeta_id=234


O quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade






terça-feira, 6 de outubro de 2015

PARTE XXI - UM DIA EM SINTRA EM 2012

DIA DE SINTRA

A linda cidade de Sintra: Palácio Real de Sintra.
Esse foi um dia combinado desde mesmo antes da viagem. Ambos queríamos ir e reservamos a terça para isso.
Estávamos usando um guia de Lisboa em holandês de alguns anos atrás e por ele seguimos para o metrô Santa Apolônia, perto de nossa casa, um dos poucos com menos subidas e uma caminhada ao longo do Tejo.
Não era lá a partida dos trens para Sintra. Fomos então para a estação indicada. Não era lá, mas soubemos de uma estação de trens perto ou relativamente perto.




Encontrei um guarda português, claro, e perguntei: sabe como ir para Sintra? 
E ele: sei sim. Daí calou-se.
Realmente é muito interessante uma enquete como essa. De repente alguém pergunta às pessoas próximas se elas sabem ir para Sintra, para Cascais, para Alice no país das Maravilhas, para Terra do Nunca. Fui para Lisboa imbuída dessa curiosidade de saber se as pessoas sabem se locomover.
Eu disse: E como se chega lá?
Ele fez um gesto de surpresa mas respondeu.
-        Saia por essa porta e atravesse a praça que a estação é um prédio antigo.
Saímos por aquela porta e tínhamos em frente somente prédios antigos. E não era nessa praça mas sim três praças depois, todas praças de prédios antigos. Sintra é uma referência quase lendária e obrigatória numa visita a Portugal. Conhecida como Suntria na mais antiga forma medieval, designada como Monte Sagrado, registrada por Ptolomeu como Serra da Lua e caracterizaca como a cidade permanentemene mergulhada numa bruma que nunca se dissipa. A paixão de Lord Byron por Sintra também estimulava nossa curiosidade e nossa visita. "A vila de Sintra na Estremadura é, talvez,  a mais bela do mundo", segundo esse romântico poeta inglês que a chamou também de "Glorious Eden". 
"Eis que em vários labirintos de montes e vales 
surge o glorioso Eden de Sintra. 
Ai de mim! Que pena ou que pincel 
logrará jamais dizer a metade sequer 
das belezas destas vistas (...)?"
(Lord Byron)

Sabíamos também que apaixonado por Sintra Lord Byron se instalou no Hotel Lawrence, o hotel mais antigo da península ibérica. Ainda vamos nos hospedar nesse hotel, pedindo o quarto com a atmosfera e presença simbólica desse poeta. Dizem que é lenda essa estadia e que ele teve por lá um palacete que se é verdadeiro vamos comprar. A fantasia é mais sugestiva do que a realidade e o sonho é o pretexto de uma vida feliz. 
Achamos a estação e pegamos logo o trem para Sintra. Trens e estradas em Portugal são sempre perfeitos.
A bucólica Sintra.
Em Sintra a pequena estação surpreende já com lindos painéis de azulejos antigos, azuis e brancos que são meus prediletos. As louças também, os galos, tudo em branco e azul encanta a vista.
Ficamos perdidos em Sintra! Mas paramos primeiro num restaurante simpático, muito bem servido por algumas jovens portuguesas sorridentes, amáveis e eficientes. Comemos lá o melhor panini que já experimentei. De linguiça e queijo. A linguiça aberta nessa massa crocante com queijo derretido. Delicioso. Amamos a refeição que era almoço. Mais suco de laranja e como sempre pastéis de nata.








Jan Kremer nesse pequeno restaurante.
As andorinhas na paredes, produtos da loja.
Havia uma loja de artesanato anexa linda, a mais bonita que encontrei nessa viagem e onde não comprei nada. Sempre fico arrependida quando vejo coisas que gosto e deixo para depois. 
Depois é sempre nunca. 
Bonecas portuguesas tristonhas, velhas camponesas em madeira, com roupas escuras, touca e mantos como elas mesmo são nas aldeias. Alguns bonecos no mesmo estilo. Lindos carneiros de lã verdadeira. Uma mistura de belas louças coloridas, de formas diferentes, pássaros para a parede e as bugigangas que quando trazidas para casa vão lembrar aquele lugar.
Andando nessa paisagem maravilhosa.
















Praça central de Sintra: a Câmara.















Jan Kremer, um holandês em Sintra.

Ficamos sem saber como andar. Escolhemos visitar o castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, as construções mais exuberantes e famosas. De ônibus? De táxi? Decidimos por táxi e tivemos como guia um jovem português falando inglês muito bem que ia explicando detalhes. O perfil da cidade é maravilhoso, numa colina, com palácios, castelos e mosteiros aparecendo em diferentes curvas da estrada e sempre no meio de lindos bosques de árvores. Ao castelo dos Mouros fomos andando até uma parte. Caminhos estreitos e subidas íngremes. 
O castelo está em ruinas e é o ponto mais alto da cidade. São duas partes de muralhas que contonam de forma irregular os blocos graníticos da serra entre penedos e penhascos. A vista deslumbrante ao longo do trajeto permite admirar a vila, o Paço de Sintra, o Palácio da Pena, a serra, uma extensa planície e o oceano Atlântico. Paramos em diversos pontos para apreciar a linda vista e tirar fotos que nisso sou definitivamente turista.



Muralhas e entradas.
A natureza exuberante em volta de antigas construções.
Pousando e pausando numa etapa da subida.

Os estreitos caminhos entre pedras.
Desde a época da construção o castelo sofreu várias intervenções arquitetônicas em diferentes reinados, especialmente no de D. Fernando II, no século XIX, que restaurou o castelo ao gosto romântico da época. 
Um projeto chamado "À Conquista do Castelo" planejou escavações arqueológicas, realizadas desde 2009 que permitiram compreender a ocupação do local ao longo dos séculos - e pensem quantos séculos - tendo sido possível identificar um cemitério medieval cristão, silos e alicerces de habitações muçulmanas, bem como artefatos bem mais antigos, incluindo um vaso cerâmico completo do 5º milênio A.C..

Entrada do Palácio da Pena.
Fazia um frio que não esperávamos, nessa cidade alta e histórica. Fomos então visitar em detalhes, por quase 50 minutos o Palácio da Pena. Esse castelo é um exemplar soberbo da arquitetura portuguesa do Romantismo, com suas grossas paredes pintadas em amarelo ocre ou vermelho siena. Com frisos rebuscados e ornamentos em pedra desde a entrada, fazendo pórticos e nichos impressionantes. A visita começa pelos lindos e bem cuidados jardins e tomamos uma espécie de bonde para fazer esse passeio.
No bonde lendo o folheto do castelo, um turista com prazer.
Jardins em torno. Lindos e bem cuidados.
Detalhes dos jardins.





















Vista do palácio com suas cores ocre e siena.
O palácio remonta a 1839, quando o rei consorte D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha adquiriu as ruinas do Mosteiro Jerónimo de Nossa Senhora da Pena e, adaptando o antigo mosteiro,  iniciou nesse local a construção de um palacete, decorando cada sala de uma forma inesperada e totalmente diferente uma da outra. Rebuscado demais, opulento demais, coisas belas demais que juntas davam a mim um ar pesado e uma sensação de luxo opressivo.

O palácio é um pastiche majestoso, inspirado nos castelos da Baviera, extremamente fantasioso na sua concepção, aliando motivos mouriscos, góticos  e manuelinos. Visitamos os aposentos do rei que também era pintor e deixou obras prontas e inacabadas, os aposentos da rainha e de sua corte, a capela anexa, salas árabe e indiana, vestidas a rigor, salão nobre, corredores e pequenos ambientes de espera. Acho que só faziam escrever porque em cada cômodo notamos lindas e enormes secretárias. Penso nelas agora com papel, pena e tinteiro. Imagino personagens escrevendo diários, cartas românticas ou apenas verificando contas ou assinando decretos. 
Outro ângulo do belo palácio.
Torres e pórticos, mistura arquitetônica notável.













Um dos vários e estranhos pórticos.



Havia alguém, um japonês estúpido, numa visita guiada fazendo perguntas tolas sobre o conforto daquela cama com dossel. As camas eram pequenas realmente impróprias para os homens atuais. Em visitas assim é estranho topar com guias e turistas, ouvir pedaços de histórias, descobrir os países de origem e ouvir o burburinho dessa mistura de línguas.
A visita se torna mais agradável e mais bonita quando se chega ao claustro, conservado da primeira construção, lembrando nossos claustros em Olinda. Nesse ambiente poderia ficar horas conversando ou contemplando. A sala de jantar com sua enorme mesa, louças, cristais e baixelas de prata. A cozinha é um salão notável com suas centenas de enormes panelas e tachos de cobre. Também visitei antes em Vila Viçosa um castelo assim, com uma cozinha semelhante.

Detalhes de um outro pórtico da parte antoga do castelo.
O mesmo pórtico com a figura de Tritão.
















O chamado pórtico de Tritão foi projetado pelo próprio D. Fernando que o desenhou como uma alegoria da criação do mundo. Uma figura de um ser híbrido, meio-peixe, meio-homem, saindo de uma concha com a cabeça coberta com cabelos que se transformam num tronco de videira, cujos ramos são sustentados pela personagem enigmática e algo mosntruosa, quase demoníaca.
Dá para imaginar os banquetes, os coelhos e galinhas preparados, os doces, um mundo de iguarias. Dá também para imaginar os cheiros, a gordura, o burburinho dos criados. A vida real tirando o encantamento dessa cozinha de fotografia. Depois da cozinha o terraço da cozinha e o pátio externo. Faltou falar dos lindos jardins e do arvoredo nessa paisagem de colina e de penedos.
Num dos nichos dos vários da construção.















Ponte extensão da área externa com a vista dos jardins.
Uma torre e o grande terraço.

















Jan deslumbrado.








Fachada principal da construção com azulejos.
Outra vista das torres e penhascos.




















Jan no colorido da paisage
Outra vista magnífica.
Paramos porque encontramos uma moto igual à de Jan.
Brincando na calçada estreitada pela árvore.

O não desmatamento em Sintra.

Hotel e restaurante Lawrence's, o de Lord Byron.
O castelo dos Mouros ao fundo.

Caminhos floridos.

Outra vista deslumbrante.

Belo palacete.

Na volta esse nicho meio árabe.
Decidimos voltar ao primeiro restaurante para mais pastéis. Fomos à estação pegar o trem de volta. Para encontrar por um breve instante uma velha senhora portuguesa sorridente com um único dente, inconsciente de sua estranha beleza.


Para a última noite nossa em Lisboa, em casa, na cozinha, conversando, sempre nos divertindo. Preparada para a partida de Jan no dia seguinte cedo, quando acordei pronta para acompanha-lo à estação onde pegaria o táxi para o aeroporto. Mas fiquei em casa, não fui à estação, não fui à janela para um adeus e um beijo jogado. Fizemos toda a rotina de uma despedida banal, como se não fosse um partir e uma saudade.