DIA DE SINTRA
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| A linda cidade de Sintra: Palácio Real de Sintra. |
Esse foi um dia combinado desde mesmo antes
da viagem. Ambos queríamos ir e reservamos a terça para isso.
Estávamos usando um guia de Lisboa em
holandês de alguns anos atrás e por ele seguimos para o metrô Santa Apolônia,
perto de nossa casa, um dos poucos com menos subidas e uma caminhada ao longo
do Tejo.
Não era lá a partida dos trens para Sintra. Fomos então
para a estação indicada. Não era lá, mas soubemos de uma estação de trens
perto ou relativamente perto.
Encontrei um guarda português, claro, e perguntei: sabe como ir para Sintra?
E ele: sei sim. Daí calou-se.
Realmente é muito
interessante uma enquete como essa. De repente alguém pergunta às pessoas
próximas se elas sabem ir para Sintra, para Cascais, para Alice no país das
Maravilhas, para Terra do Nunca. Fui para Lisboa imbuída dessa curiosidade de
saber se as pessoas sabem se locomover.
Eu disse: E como se chega lá?
Ele fez um gesto de surpresa mas respondeu.
- Saia por essa porta e atravesse a praça que a estação é um prédio antigo.
Saímos por aquela porta e tínhamos em frente somente prédios antigos. E não era nessa praça mas sim três praças depois, todas praças de prédios antigos. Sintra é uma referência quase lendária e obrigatória numa visita a Portugal. Conhecida como Suntria na mais antiga forma medieval, designada como Monte Sagrado, registrada por Ptolomeu como Serra da Lua e caracterizaca como a cidade permanentemene mergulhada numa bruma que nunca se dissipa. A paixão de Lord Byron por Sintra também estimulava nossa curiosidade e nossa visita. "A vila de Sintra na Estremadura é, talvez, a mais bela do mundo", segundo esse romântico poeta inglês que a chamou também de "Glorious Eden".
"Eis que em vários labirintos de montes e vales
surge o glorioso Eden de Sintra.
Ai de mim! Que pena ou que pincel
logrará jamais dizer a metade sequer
das belezas destas vistas (...)?"
(Lord Byron)
Sabíamos também que apaixonado por Sintra Lord Byron se instalou no Hotel Lawrence, o hotel mais antigo da península ibérica. Ainda vamos nos hospedar nesse hotel, pedindo o quarto com a atmosfera e presença simbólica desse poeta. Dizem que é lenda essa estadia e que ele teve por lá um palacete que se é verdadeiro vamos comprar. A fantasia é mais sugestiva do que a realidade e o sonho é o pretexto de uma vida feliz.
Achamos a estação e pegamos logo o trem para Sintra. Trens e estradas em Portugal são sempre perfeitos.
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| A bucólica Sintra. |
Em Sintra a pequena estação surpreende já com lindos painéis de azulejos antigos, azuis e brancos que são meus prediletos. As louças também, os galos, tudo em branco e azul encanta a vista.
Ficamos perdidos em Sintra! Mas paramos primeiro num restaurante simpático, muito bem servido por algumas jovens portuguesas sorridentes, amáveis e eficientes. Comemos lá o melhor panini que já experimentei. De linguiça e queijo. A linguiça aberta nessa massa crocante com queijo derretido. Delicioso. Amamos a refeição que era almoço. Mais suco de laranja e como sempre pastéis de nata.
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| Jan Kremer nesse pequeno restaurante. |
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| As andorinhas na paredes, produtos da loja. |
Havia uma loja de artesanato anexa linda, a mais bonita que encontrei nessa viagem e onde não comprei nada. Sempre fico arrependida quando vejo coisas que gosto e deixo para depois.
Depois é sempre nunca.
Bonecas portuguesas tristonhas, velhas camponesas em madeira, com roupas escuras, touca e mantos como elas mesmo são nas aldeias. Alguns bonecos no mesmo estilo. Lindos carneiros de lã verdadeira. Uma mistura de belas louças coloridas, de formas diferentes, pássaros para a parede e as bugigangas que quando trazidas para casa vão lembrar aquele lugar.
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| Andando nessa paisagem maravilhosa. |
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| Praça central de Sintra: a Câmara. |
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| Jan Kremer, um holandês em Sintra. |
Ficamos sem saber como andar. Escolhemos visitar o castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, as construções mais exuberantes e famosas. De ônibus? De táxi? Decidimos por táxi e tivemos como guia um jovem português falando inglês muito bem que ia explicando detalhes. O perfil da cidade é maravilhoso, numa colina, com palácios, castelos e mosteiros aparecendo em diferentes curvas da estrada e sempre no meio de lindos bosques de árvores. Ao castelo dos Mouros fomos andando até uma
parte. Caminhos estreitos e subidas íngremes.
O castelo está em ruinas e é o ponto mais alto da cidade. São duas partes de muralhas que contonam de forma irregular os blocos graníticos da serra entre penedos e penhascos. A vista deslumbrante ao longo do trajeto permite admirar a vila, o Paço de Sintra, o Palácio da Pena, a serra, uma extensa planície e o oceano Atlântico. Paramos em diversos pontos para apreciar a linda vista e tirar fotos que nisso sou definitivamente turista.
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| Muralhas e entradas. |
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| A natureza exuberante em volta de antigas construções. |
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| Pousando e pausando numa etapa da subida. |
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| Os estreitos caminhos entre pedras. |
Desde a época da construção o castelo sofreu várias intervenções arquitetônicas em diferentes reinados, especialmente no de D. Fernando II, no século XIX, que restaurou o castelo ao gosto romântico da época.
Um projeto chamado "À Conquista do Castelo" planejou escavações arqueológicas, realizadas desde 2009 que permitiram compreender a ocupação do local ao longo dos séculos - e pensem quantos séculos - tendo sido possível identificar um cemitério medieval cristão, silos e alicerces de habitações muçulmanas, bem como artefatos bem mais antigos, incluindo um vaso cerâmico completo do 5º milênio A.C..
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| Entrada do Palácio da Pena. |
Fazia um frio que não esperávamos, nessa
cidade alta e histórica. Fomos então visitar em detalhes, por quase 50 minutos
o Palácio da Pena. Esse castelo é um exemplar soberbo da arquitetura portuguesa
do Romantismo, com suas grossas paredes pintadas em amarelo ocre ou vermelho
siena. Com frisos rebuscados e ornamentos em pedra desde a entrada, fazendo
pórticos e nichos impressionantes. A visita começa pelos lindos e bem cuidados jardins e tomamos uma espécie de bonde para fazer esse passeio.
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| No bonde lendo o folheto do castelo, um turista com prazer. |
O palácio é um pastiche majestoso,
inspirado nos castelos da Baviera, extremamente fantasioso na sua concepção,
aliando motivos mouriscos, góticos e
manuelinos. Visitamos os aposentos do rei que também era pintor e deixou obras
prontas e inacabadas, os aposentos da rainha e de sua corte, a capela anexa,
salas árabe e indiana, vestidas a rigor, salão nobre, corredores e pequenos
ambientes de espera. Acho que só faziam escrever porque em cada cômodo notamos
lindas e enormes secretárias. Penso nelas agora com papel, pena e tinteiro.
Imagino personagens escrevendo diários, cartas românticas ou apenas verificando
contas ou assinando decretos.
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| Outro ângulo do belo palácio. |
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| Torres e pórticos, mistura arquitetônica notável. |
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| Um dos vários e estranhos pórticos. |
Havia alguém, um japonês estúpido, numa visita
guiada fazendo perguntas tolas sobre o conforto daquela cama com dossel. As
camas eram pequenas realmente impróprias para os homens atuais. Em visitas
assim é estranho topar com guias e turistas, ouvir pedaços de histórias,
descobrir os países de origem e ouvir o burburinho dessa mistura de línguas.
A visita se torna mais agradável e mais bonita quando
se chega ao claustro, conservado da primeira construção, lembrando nossos
claustros em Olinda. Nesse ambiente poderia ficar horas conversando ou
contemplando. A sala de jantar com sua enorme mesa, louças, cristais e baixelas
de prata. A cozinha é um salão notável com suas centenas de enormes panelas e
tachos de cobre. Também visitei antes em Vila Viçosa um castelo assim, com uma
cozinha semelhante.
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| Detalhes de um outro pórtico da parte antoga do castelo. |
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| O mesmo pórtico com a figura de Tritão. |
O chamado pórtico de Tritão foi projetado pelo próprio D. Fernando que o desenhou como uma alegoria da criação do mundo. Uma figura de um ser híbrido, meio-peixe, meio-homem, saindo de uma concha com a cabeça coberta com cabelos que se transformam num tronco de videira, cujos ramos são sustentados pela personagem enigmática e algo mosntruosa, quase demoníaca.
Dá para imaginar os banquetes, os coelhos e
galinhas preparados, os doces, um mundo de iguarias. Dá também para imaginar os
cheiros, a gordura, o burburinho dos criados. A vida real tirando o
encantamento dessa cozinha de fotografia. Depois da cozinha o terraço da
cozinha e o pátio externo. Faltou falar dos lindos jardins e do arvoredo nessa
paisagem de colina e de penedos.
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| Num dos nichos dos vários da construção. |
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| Ponte extensão da área externa com a vista dos jardins. |
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| Uma torre e o grande terraço. |
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| Jan deslumbrado. |
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| Fachada principal da construção com azulejos. |
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| Outra vista das torres e penhascos. |
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| Jan no colorido da paisage |
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| Outra vista magnífica. |
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| Paramos porque encontramos uma moto igual à de Jan. |
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| Brincando na calçada estreitada pela árvore. |
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| O não desmatamento em Sintra. |
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| Hotel e restaurante Lawrence's, o de Lord Byron. |
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| O castelo dos Mouros ao fundo. |
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| Caminhos floridos. |
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| Outra vista deslumbrante. |
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| Belo palacete. |
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| Na volta esse nicho meio árabe. |
Decidimos voltar ao primeiro restaurante para mais pastéis. Fomos à estação pegar o trem de volta. Para encontrar por um breve instante uma velha senhora portuguesa sorridente com um único dente, inconsciente de sua estranha beleza.
Para a última noite nossa em Lisboa, em
casa, na cozinha, conversando, sempre nos divertindo. Preparada para a partida
de Jan no dia seguinte cedo, quando acordei pronta para acompanha-lo à estação
onde pegaria o táxi para o aeroporto. Mas fiquei em casa, não fui à estação,
não fui à janela para um adeus e um beijo jogado. Fizemos toda a rotina de uma
despedida banal, como se não fosse um partir e uma saudade.
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