A falta de algo e a frustração de uma expectativa não realizada.
Saudade do cotidiano, saudade de pequenas coisa. Tudo faz lembrar e tudo falta. As lembranças geram um sorriso. Pequenos acontecimentos voltam à memória a cada instante.
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| Jan Kremer e sua moto em Évora Monte. |
Desde pequena aprendi uma maneira de diminuir o tempo entre encontros. Quando meu pai viajava colocava feijões num copo que me dava e cada dia eu jogava um fora. A sensação concreta da passagem do tempo ficava evidente na contagem de um dia a menos. Fazemos isso eu e Jan há vários anos. Às vezes brincamos que seria melhor contar batatas que são maiores e que então os dias passariam mais visíveis. Hoje dia 11 de outubro estou contando 60 dias para sua chegada em Recife, em 10 de dezembro.
Sigo minha vida de família e de trabalho com alegria e entusiasmo mas sua presença ausente é palpável e contínua. Falamos todos os dias na maravilha que é o Face Time, falamos como se estívessemos juntos. Mas o tocar, o dançar, os abraços, a cumplicidade, essa existe em pensamento mas na prática não andamos de mãos dadas em Estremoz ou não decidimos em conjunto o que vamos fazer a cada dia. A primeira pergunta de cada manhã. Hoje ou sem pressa nos próximos vinte anos?
I love you. Me too. Então você se ama e não a mim?
Sounds good?, a frase de "Inglorious Bastards" quando Brad Pitt, Lt. Aldo Raine diz à sua tropa: E uma vez em terreno inimigo nós vamos fazer uma coisa e uma única coisa. Matar Nazistas. Sounds good? Yes, sir. I want my scalps.
Essa entonação adoramos imitar, Jan principalmente que eu não sou boa nisso, em alto e bom som. Nossos vizinhos devem pensar que somos loucos. Não loucura desvairada mas loucura na medida de uma grande diversão.
Outra frase de filme que adoramos é do Apocalypse Now: I love the smell of napalm in the morning. Frase dita pelo tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) no filme dirigido por Francis Ford Coppola e escrito por John Milius, baseado no fantástico livro de Joseph Conrad "Heart of Darkness". Dizemos I love the smell of coffee in the morning. Não gostamos de napalm, mas gostamos de filmes.
Podemos nos divertir com os filmes mais idiotas de Hollywood ou com a série inglesa sobre Miss Marple. Essa especialmente estávamos assitindo no Monte da Fazenda em nossa velha televisão, série da Fox Crime, com sublegenda em português de Portugal.
O hábito está incorporado nele, meu gato doméstico afeito aos domínios da casa e à rotina. Saudades de sentar na nossa salinha, todo dia após o jantar para ver Miss Marple, com sotaque inglês, ambientes ingleses, histórias já lidas e conhecidas, reconhecidas.
Gostamos muito de Julia Mackenzie como a Miss Marple que assumiu o lugar de Geraldine McEwan, a partir da quarta série.
Antes, a Miss Marple magrinha, era Geraldine McEwan, que morreu esse ano, em fevereiro. Nos Brasil essa série é ou era exibida pela HBO. Preciso descobrir.
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| Geraldine McEwan, a Miss marple magrinha. |
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| Julia Mcckenzie a nova Miss Marple. |
Penso nos nossos gatos, Winnie e Molly e descubro que eles também amam a rotina que lembram perfeitamente. Costumava acordar cedo em torno de 8 horas e encontrava Winnie muitas vezes esperando e espreitando na janela. Muitas vezes durmo de janela aberta mesmo meu quarto sendo no térreo, algo que não se pode fazer nesse nosso país. Senão quando abro a porta os dois chegam, às vezes correndo, para um bom dia e para o café da manhã ou pequeno almoço como se chama essa refeição em Portugal.
Jan estando sozinho acorda mais tarde e segundo nossos vizinhos os gatos esperam por ele na porta desde 8 horas da manhã.
Hoje, chovendo em Évora Monte, Molly estava dormindo na minha cama e Winnie no sofá da sala, sob os olhos cuidadosos e afetuosos do meu grande gato doméstico holandês.
Mas a saudade tem algumas vantagens. Esse sentimento e o estar sozinho fez Jan retomar o livro que estava começado e segundo ele não suficientemente bom para publicar. Está sendo para ele uma tarefa diária e prazeirosa. Daqui estou acompanhando.
E o melhor momento do dia chega quando conversamos no Face Time. Hoje está friozinho em Évora Monte e quente aqui e lá está ele com sua boina de Che Guevara que não comprou por admiração ou comunhão de ideias mas numa de suas viagens em Cuba pesquisando para um de seus livros e seguindo os passos de Hemingway.
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| No Face Time, Jan com o gorro comprado em Cuba. |
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| Distante mas felizes. |
1 - http://www.citador.pt/poemas/ausencia-carlos-drummond-de-andrade
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'
2 - http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=13888&poeta_id=234
O quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,
verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.
Carlos Drummond de Andrade










































