sexta-feira, 25 de março de 2016

PARTE XXV - LISBOA NOVAMENTE À PROCURA DE FERNANDO PESSOA.


Lisboa, a vista da nossa varanda.
 Cheguei de novo em Lisboa dia primeiro de março e como sempre Jan estava me esperando no aeroporto. Nosso projeto totalmente realizado era lá passar alguns dias, no lindo apartamento de minha querida sobrinha Carol, na rua Yven no Baixa-Chiado, próximo de muitos dos encantos dessa cidade querida. O principal objetivo era o de seguir os caminhos de Fernando Pessoa conhecendo sua casa, a Tabacaria famosa, os bares mais frequentados. Alguns turísticos, outros meio desconhecidos. Afinal para viajar basta existir (Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego). 




E para amar Lisboa, com suas casas de várias cores, deve-se também amar esse poeta maior, solitário, imaginativo, genial, comum nos seus gostos e vestimentas, comum no seu trabalho de tradutor, único nos pensamentos e sentimentos do mundo.
Caminhando para a Praça do Comércio.
Nessa primeira tarde decidimos procurar seu café predileto na Praça do Comércio, o Café Restaurante Martinho da Arcada, que não fica circundando a praça, mas a seu lado. Sempre disse que adoramos caminhar em Lisboa dentro da paisagem dos belos edifícios clássicos, pisando as calçadas de pedras típicas. E como não poderia deixar de ser, subindo suas ladeiras. Lisboa cheirando ao Tejo e colorida pelos telhados vermelhos das casas ancestrais.
O arco da Augusta, a mais bela entrada para a praça.





Escolhemos chegar à praça pelo arco da Augusta, portanto caminhando ao longo da rua do mesmo nome sob céu azul e vento frio e um sol tímido aquecendo as emoções.




O Arco da Augusta, a praça e o Martinho da Arcada.
O Martinho da Arcada, praça do Comércio número 3, é o café mais antigo da cidade, com mais de dois séculos de história, inaugurado pelo Marquês de Pombal em 1782. Teve vários nomes desde seu início até o nome atual que data de 1842. Esse café da Martinho da Arcada para se diferenciar de um outro Café Martinho sempre foi ligado às artes e letras portuguesas frequentado por importantes políticos, escritores e intelectuais incluindo Bocage, Almada Negreiros e mais recentemente José Saramago. Fernando Pessoa era um de seus clientes mais assíduos, tendo lá uma mesa permanentemente reservada. Até hoje. Alí ele tomou café com Almada Negreiros três dias antes de falecer, em 1935. Almada Negreiros, o pintor português que tem um dos mais conhecidos retratos do poeta.
O Martinho da Arcada.
Como visitantes de primeira viagem não sabíamos a princípio o local do café, mas os guardas e as pessoas que encontramos na praça também não o sabem. Não sabem que café o poeta frequentava, mas um finalmente apontou o local do Martinho.
Lembro de como estávamos contentes e excitados nessa primeira visita a um de seus locais preferidos.
Sentados na mesa reservada ao poeta.
Primeiro sentamos numa mesa no terraço e perguntamos timidamente onde estava a mesa do poeta. Lá todo mundo sabe e tem o maior prazer de nos conduzir à mesa e às lembranças. Jan lembra sempre da emoção e do arrepio que sentiu sentado nessa mesa que se não era realmente a sua mesa verdadeira era a mesa fingida, como fingida pode ser a dor de um poeta.

Outra foto da mesa.


Um chapéu (cópia) e várias fotos. Poemas também.

A foto mais famosa de todas estava lá, Fernando Pessoa em Flagrante Delitro, oferecida com essas palavras a sua ou quase sua Ofélia. O poeta em pé tomando um copo de vinho.  
Pessoa fala do Café Arcada no Terreiro do Paço (nome antigo da praça do Comércio), como o local onde se despediu de Aleister Crowley às dez horas e meia de um dia 23 de setembro de 1930. Último encontro dos dois narrado em entrevista de outubro do mesmo ano.
Quem era Alesteir Crowley, escritor e mago tão admirado por Pessoa? Os dois tinham duas coisas em comum: o amor por heterônimos e pela astrologia e horóscopos. Os dois trocaram cartas e Crowley foi à Lisboa com o intuito de conhecer Pessoa. Se Pessoa afirma que se despediu do amigo nesse dia diz também que o viu no dia 24 de manhã.
"Quero crer que ainda o vi. No dia 24, de manhã, vi Crowley ou o seu fantasma dobrar a esquina do Café La Gare para a Rua 1° de Dezembro. Nesse mesmo dia, ao atravessar a Praça Duque da Terceira, vi Crowley ou o seu fantasma, entrar com outro indivíduo na Tabacaria. Inglesa."
O mistério maior é que o inglês desapareceu nesse dia do encontro deixando uma carta num local, um penhasco chamado Boca do Inferno e a dúvida da imprensa e da polícia era se o desaparecimento fora um suicídio (no que Pessoa acreditava), um assassinato ou uma mentira para deixar o hotel sem pagar a conta. Parece que a terceira opção é a verdade. Qual a razão para introduzir um assunto tão prosaico ou policialesco nas minhas lembranças poéticas de Fernando Pessoa? Pesquisando sobre sua presença no Arcada dei com essa estória, seu depoimento à polícia e sua entrevista aos jornais e descobri uma faceta especial desse homem também especial. O amor pelos mistérios (já sabia), sua capacidade de atrair pessoas (Crowley, um viajante compulsivo vai a Portugal conhecer Pessoa) e sua inclinação pela imaginação romântica do suicídio causado pelo abandono da amante. Uma outra farsa porque essa amante, que chegou à Lisboa com o inglês, viajou para a Alemanha num navio e portanto não desapareceu mas apenas viajou. A pergunta é: Pessoa saberia das mentiras e estava se divertindo com as invencionices do além? Ou ele realmente acreditava em fantasmas? Sua entrevista parece irônica quando fala do fantasma do amigo que ele teria visto após a suposta morte.

Outra foto de Fernando Pessoa.

Jan Kremer e uma parede de lembranças.
O recanto de Pessoa e a vista da entrada do café.


















O Martinho da Arcada foi quase uma segunda casa para Fernando Pessoa nos seus últimos dez anos de vida. Era seu escritório. Nessa mesa sempre reservada e nunca ocupada por turistas a não ser pelo breve instante de uma foto ele escreveu muitos dos belos poemas de "Mensagem" e muitas páginas do "Livro do Desassossego". Do livro que é também dos nossos desassossegos e questionamentos da natureza da vida, do sentido do viver, do sonhar e do morrer. Como disse antes ele estava tomando café no Martinho da Arcada, aos 47 anos de idade, já com a saúde frágil,  dois dias antes de ser internado no Hospital de São Luis dos Franceses em Lisboa, três dias antes de sua morte no dia 30 de novembro de 1935.


Na esplanada do restaurante onde lanchamos.


Feliz nesse primeiro encontro com o mundo do poeta.
Mas esse restaurante também é conhecido pela sua mesa típica da culinária portuguesa. Seu cardápio inclui os pasteis de bacalhau (nossos bolinhos de bacalhau), os deliciosos peixinho da horta (na realidade vagens empanadas e fritas), as amêijoas à Bulhão Pato (Raimundo António de Bulhão Pato, poeta, ensaísta e memorialista português), arroz de pato (o de Celinha da Arcádia em Recife é muito saboroso), bacalhau à lagareiro e os fantásticos doces conventuais feitos sempre com as gemas dos ovos e nascidos nos conventos de freiras portuguesas. Nessas épocas antigas grande parte da clara era exportada e usada como purificador na produção de vinho branco ou usada para engomar as roupas elegantes dos homens mais ricos nas cidades do mundo ocidental. Nos conventos as claras eram usadas para engomar os hábitos das freiras e o chamado cocar, a touca rígica que emoldura o rosto e os véus.
Não gosto de doces mas adoro os doces de gemas que lembram os fios de ovos que comia quando morei em São Paulo, feitos por Tia Joanita. Os fios de ovos que acompanham o presunto de Natal, o toucinho do céu (doce preferido de meu filho Paulo) e tudo mais que compõe a doceria de Portugal.
Por isso fizemos um lanche, tomamos vinho, comemos doces e conversamos com os simpáticos garçons. Um lugar para se voltar sempre.


Uma foto inesquecível.
E de novo lembrando Fernando Pessoa, guia de nossos passos lisboetas "a vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."
Podem ler e reler esse conceito de sossego no contínuo desassossego de Pessoa que fez dele um viajante exímio dos caminhos da vida interior.

1 - Fernando Pessoa, Livro do Desassossego - "Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são."
2 - Fernando Pessoa, Livro do Desassossego - "A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."

3 - Lisboa (Álvaro de Campos, in Poemas):
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.






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