domingo, 27 de setembro de 2015

PARTE XX - A ROTINA NUMA CASA NO CAMPO.

Uma rotina que não é rotina mas que parte da pergunta: que vamos fazer hoje? No início era fácil tantas eram as caixas e os móveis da Holanda estacionados na garagem. E também a limpeza pesada. O chão já estava muito limpo e as paredes internas pintadas de branco por Jan que chegou primeiro. Mesmo assim sobraram muitos recantos e muitas aranhas e suas teias que vem do teto sem forro na sala e do forro folgado, semiaberto, que vai ser trocado nos demais cômodos. Virei caçadora de aranhas e não é que elas quase desapareceram? Ainda assim surgem nas esquinas e cantos de toda a casa. Função importante porque prendem os insetos em suas teias e nessa época de calor convivemos com insetos no Alentejo. O que sempre lembra o quente e abafado mês de março nas lindas praias de Pernambuco.
Que vamos fazer? Às vezes nada.
Jan Kremer escrevendo contos sobre Portugal.
Nosso espelho reciclado num lindo recanto.
















Cada um no seu lugar lendo, escrevendo, trabalhando, jogando. Muitas vezes arrumando. Decidimos por uma arrumação provisória na sala de estar onde só a metade onde fica a biblioteca está pronta. A estante foi a primeira coisa que compramos em Lisboa. Então a minha belíssima escrivaninha holandesa antiga que vai ficar no terceiro quarto, meu futuro gabinete e hoje um depósito de tudo, se alojou de forma quase perfeita na outra metade.
Essa primeira parte da sala foi composta com uma mesa antiga, um velho espelho de cristal reciclado com uma moldura nova, feita em Estremoz e antigos objetos de escrita para viajantes. Reciclar, uma palavra ecológica e moderna, verbo que precisamos aprender a usar mais.

O armário chinês que veio de Arnhem.
12 Romances, 12 hearts.


O lado oposto com o lindo e antigo armário chinês, que veio de Arnhem inteiro, pesado, carregado para dentro de casa por Jan e pelo Senhor Bolas, nosso motorista português baixinho, forte e arretado. Usamos uma mesa antiga, uma serigrafia (1/12) de A. Durand, (Anne-Marie Durand), pintora francesa, obra de 1986, cerâmicas de Brennand, castiçais e uma composição baseada em Picasso, presente de meu filho Paulo, comprada em Miami para nossa casa aqui no Alentejo.
Minha linda escrivaninha.
Estava falando do lado improvisado que no final ficou aconchegante. Primeiro a linda escrivaninha onde trabalho a maior parte do tempo. Uma pintura bela de flores de uma artista holandesa, Jessica Heijkoop. Uma mesa velha reciclada para preencher o recanto. Em seguida um antigo relógio alemão vindo também da Holanda, e um pequeno quadro português comprado no castelo de São Jorge, em Lisboa, feito por um artista que trabalha usando café como tinta. Com café e muito amor pinta as paisagens de Lisboa.
Relógio de parede, quadro pintado com café.

Sofá vermelho, De Connectie, louça Bordallo Pinheiro na mesa.
Depois nosso sofá vermelho Leolux, de design holandês e vindo da Holanda encimado por uma janela alta e pela capa do primeiro livro publicado de Jan Kremer: "De Connectie".
Livro que foi sucesso na Holanda e muito bem classificado pela crítica entre os livros de crime.
Esse livro traduzi para inglês e em seguida para português. Essa tradução estamos corrigindo aqui no Alentejo para, quem sabe, talvez publicar. O livro fala de uma máfia que eliminava criminosos não condenados pela justiça, investigados por um juiz chamado Alex De Winter. O suspense é incrível, a trama prende a atenção, o estilo é limpo, preciso e conciso. Acho que daria um excelente thriller.
De Connectie e pintura de Cuba, La Bodeguita del Medio.
A Bodeguita del Medio lembra os tempos de Jan Kremer em Cuba, um país que ele amou visitar, onde fez circuitos não turísticos e onde principalmente pesquisou sobre Ernest Hemingway, cujo estilo ele admira ao extremo. Eu também me sinto amante de sua vida aventurosa e de seus livros que li todos.
A Bodeguita é um bar e restaurante de comida típica de Havana Velha em Cuba frequentado por personagens célebres como Salvador Allende, Pablo Neruda, Errol Flynn e Ernest Hemingway que escreveu em suas paredes: "My mojito in La Bodeguita, My daiquiri en El Floridita".
Nossa tecnologia de som e imagem: do velho ao supernovo.
Depois na parede seguinte improvisamos um móvel para a televisão antiga e pequena, onde assistimos a série inglesa de Miss Marple, filmes de suspense, Kill Bill, horríveis, engraçados e velhos filmes de Hoolywood. Vemos muito pouca televisão aqui, apesar dos 210 canais que em geral não prestam. Mas planejamos uma enorme tela e um lindo móvel. O habitante mais importante dessa parede é o Zeppelin. Nossa casa começa e termina o dia com música através desse fantástico aparelho, de música brasileira, a jazz ou música clássica, dos i-phones, do computador ou de excelentes rádios de Portugal ou da Holanda. A noite termina com "A perfect Day"de Louis Reed, ele cantando e nós dançando às vezes.
O contraste, a velha TV e o Zeppelin.
 O quadro à esquerda é também de Jessica Heijkoop, foi premiado na Holanda, é muito bonito e chama-se "Angst Punt" (Ponto do Medo).
O seguinte é também holandês, de Rob Lodder, e a mais, uma foto da nossa varanda no outono, tirada por amigos holandeses.
Angst Punt de Jessica Heijkoop e quadro de Rob Lodder.

Escrevo sobre rotina, banalidades, simplicidade, acho que coisas desinteressantes. Parece fácil mas foi difícil mudar meu estilo de vida consumista e perfeccionista do Brasil para uma vivência que significa existir. Cheguei cheia de planos de decoração, trouxe belas cortinas feitas no Brasil, tecidos escolhidos de acordo com meus sonhos de uma casa perfeitamente decorada. Aqui com os pés no chão aprendi a fazer tudo pouco a pouco, a fazer por nós mesmos. A esperar e aproveitar as oportunidades. Vou lixar e fazer uma pátina numa mesa e em duas cadeiras para a varanda. Jan faz um monte de coisas com madeira e pintura. Estou cuidando das plantas, colhendo uvas, limões e figos, cozinhando com o maior prazer.
Fazia muitas dessa coisas no Brasil. Sempre cuidei da casa, sempre gostei das artes dométicas, sempre vivi plenamente e com prazer. Mas a arte da simplicidade essa adquiri aqui e agora. Como viver aqui e agora saboreando os momentos e os pequenos acontecimentos.
Chegar no fim do dia, perguntar como foi o dia e concluir: um dia perfeito. A perfect day tocado a toda altura antes de dormir.

1 - Jan Kremer - http://crime.nl/oud/index.html?auteurs/kremer.html
2 - Francisco Brennand - http://www.brennand.com.br
3 - Leolux - http://www.leolux.com
4 - Jessica Heijkoop - https://sites.google.com/site/schilderijenenworkshop/
5 - Bordallo Pinheiro - http://pt.bordallopinheiro.com/

sábado, 5 de setembro de 2015

PARTE XIX - UMA CAMINHADA DE TIRAR O FÔLEGO


Hoje decidimos andar até a cidade de Évora Monte para ir aos correios pegar nosso segundo cartão de telefone. Tem amanhecido frio todos os dias e bastante nublado o que é convidativo a uma caminhada. São 2,5 quilômetros só que de uma subida contínua e íngreme, literalmente por dentro da mata. A autoestrada é muito pior porque a subida é mais difícil. Uma aventura que já fiz uma vez há cinco anos atrás. Saímos sem chapéu pela falta de sol e abrigados porque fazia menos de 15º Celsius. Não preciso dizer que a vista é sempre deslumbrante, que cada curva traz uma subida e uma surpresa, que é atraente ver novas árvores, nova vegetação, as casas brancas ao longe e o castelo imponente como sempre.
Casa Kremer na parede caiada de branco.
Saímos da Casa Kremer pela estrada de pedrinhas brancas rodeada de figueiras, amoreiras e marmeleiras. De árvores típicas e grama seca, a tal da aveia brava que invadia os trigais quando eles ainda existiam. Essa estação do ano é seca e sem chuvas formando essa paisagem árida onde só as plantas fortes resistem. Caminhamos com cuidado porque a estrada é de areia e pedras, escorregadiça e quase sempre subindo. A cada 10 minutos fazemos uma pausa, eu principalmente que não estou acostumada a andar tanto.
Uma caminhada de tirar o fôlego é literal.
Paramos para respirar a cada subida e então aproveito para tirar fotos.
Saindo do Monte da Fazenda.

Jan Kremer na paisagem árida.
 O céu nublado é raro no Alentejo dos céus azuis puros. A vegetação natural da Serra d'Ossa, onde estamos, pertence ao macrobioclima do tipo mediterrânico, em muitas áreas escassa pelas intervenções do homem: fogos, pastoreio, cortes e desbastes. Espécies abundantes de folha pequena, dura, às vezes espinhosa adaptadas à falta d'água e às altas temperaturas. Árvores de folhas persistentes como o sobreiro (a árvore da cortiça ou da rolha como chama meu primo Renato Cunha Bueno Marques), a azinheira, alguns tipos de pinheiro (bravo e manso), o zambujeiro e o eucalipto. O pinheiro manso é a árvore dos pinhões. O zambujeiro é uma olivira brava que produz pequenas azeitonas que só os animais comem.
Arbustos tipo medronheiro, urze, rosmaninho e alecrim. Portanto ervas usadas na culinária que crescem de forma selvagem ou são cultivadas nas casas portuguesas. O contraste do amarelo das searas com a moldura do verde da vegetação causa também a respiração entrecortada por tanta beleza. Nessa região vemos passar muitos turistas, às vezes munidos com todos os apetrechos para hiking, porque o turismo ecológico existe por aqui. A Serra d'Ossa tem 653 metros de altitude e fora toda essa flora é ainda abundante numa planta insectívora chamada orvalho-do-sol (Drosophyllum lusitanicum).
Encruzilha para Monte da Fazenda e Quinta do Serafim.
O caminho bifurca na placa da Quinta do Serafim quando então passamos a andar numa trilha no meio da mata. A Quinta do Serafim pertence a um casal de holandeses que nunca está aqui.
Descobri que as cores dos portais e das molduras das janelas tem um simbolismo interessante. Amarelo representa riqueza indicando a morada de famílias ricas, azul é da nobreza, o preto abolido nos tempo atuais mostrava viuvez e o cinza, também abolido, uma casa de pessoas idosas e doentes.
A curva indica sempre o topo de uma parte da estrada.
Quinta do Serafim.

Estava frio mas principalmente o vento estava frio.  Pensava que não ia conseguir andar tanto sempre escalando, mas não sou de desistir e depois de retomar o ar continuava na mesma animação.
Lembrei de Ana Catarina Delgado treinando para fazer o caminho de Santiago de Compostela de bicicleta. Treinou pesado e conseguiu.
Eu nem faço exercício habitualmente. Aqui é mais divertido e muito bonito. 
A estradinha e a vegetação da margem numa selfie.

Jan Kremer fotografando.

A secura, falta d'água, aridez convidativa.
Nas paradas conversamos, respiramos, tiramos fotos, fazemos selfies. E olhamos a paisagem em torno. Poderíamos ter ido de taxi. Andando é uma aventura e um programa. Impressionante como plantas sobrevivem nessa secura e aridez. Não está chovendo aqui por cerca de 180 dias. Os rios e riachos estão secos, completamente. Inclusive o riacho em frente de nossa casa que nunca tive o prazer de conhecer.
Na região tem pequenas cobras venenosas, por isso não pisamos no mato. Pisei um dia para colher amoras pretas mas protegida com meias por cima da calça comprida e nenhum milímetro de pele de fora.
Tem raposas e javalis e agora em setembro começou a temporada de caça.
Nessa foto à esquerda dá para ver o tipo do solo, as pedrinhas escorregadias e a subida.
Encontramos muito pedaços de muros de pedra no caminho, aparentemente abandonados. E em todo o caminho apenas um sapo grande tomando sol que nem se mexeu à nossa aproximação.
O arvoredo raro.

Muros antigos  de pedras. 
É linda a visão das árvores escassas que não formam uma floresta fechada. As copas não se encontram o que permite passar a luz. Ao longe, na encosta, as árvores organizadas são as de cortiça, uma espécie de carvalho, chamadas em inglês de "cork oak". Aqui é chamada de sobreiro. São pelo menos nove anos para tirar a cortiça. A árvore demora cerca de 25 anos para a primeira retirada. Por isso as rolhas estão sendo substituídas infelizmente por rolhas sintéticas. Mas o plantio é de verdade de pai para filho, nunca para a mesma geração. Elas são marcadas no tronco com a data da próxima coleta.
Muita estrada pela frente e a silhueta de árvores baixas e verdes.
Casas brancas na aproximação de Évora Monte.
Aveia brava a erva daninha do Alentejo que foi arte na OBRAS.
Num trecho da estrada as margens estavam cheias dessa gramínia chamada aqui de aveia brava que foi usada como obra de arte, num happening no Castelo de Évora Monte, como exposição de um residente da Fundação OBRAS, Jonathan Roson.
Era imenso esse campo de capim seco.

O Castelo de Évora Monte visto na ida.
Cansada, respirando. O castelo por trás.
Nessa foto à esquerda eu estou na frente da vista do castelo, ainda com frio, agasalhada, o que não é normal no Alentejo pela manhã. Cansada, respirando mas amando a caminhada e a natureza. Com meu cardigan de listas amarelas e marinho o que fez Jan passar o dia me chamando de "my little bee".

Jan pisando na demarcação mato/ civilização.
A cidade se avista em algumas curvas, uma pequena vila, onde todo mundo se conhece e onde todas as casas são pintadas de branco. Na realidade Évora Monte não é uma cidade, mas uma freguesia do concelho de Estremoz. Pode ser chamada também de Evoramonte.
Uso constantemente as duas grafias porque ambas são permitidas embora a oficial seja Évora Monte. Tem 722 habitantes e agora 723 comigo. Já foi maior e bem mais importante no século XIX.
Concelho de Estremoz é a grafia correta portuguesa. Não foi erro de digitação.
Finalmente chegamos à autoestrada, já perto da vila e em descida. Jan está pisando exatamente nessa passagem do mato para a civilização campesina. Ainda andamos um bocado nessa estrada até a chegada à vila.
Então a vista se alarga e é completamente impactante. O Castelo de Evoramonte num ângulo diferente do que sempre vemos da nossa varanda de casa. Essa foto mostra o portão de entrada, suas torres e as escassas árvores na areia.



Chegando em Evoramonte a bela vista do Castelo.
Na época das guerras constantes de Portugal com os espanhóis e os mouros o castelo, construído como uma fortaleza, tinha uma importância estratégica que foi perdida.
O castelo em alvenaria de pedra e cantaria de granito é feio, pesado e realmente mais apropriado para fortaleza. Não imagino festas ou damas nos seus salões dançando minuetos ou casais trocando de quartos à noite nas suas alas. Imagino mais soldados em luta evitando a entrada de inimigos com arietes e banhos de azeite fervente. Setas e lanças com bolas de fogo.

O castelo na colina dominando a paisagem.
Entrando na freguesia.
A freguesia tem uma praça como todas as cidades do mundo, um pequeno mercado, o de Kika, uma padaria, um correio, um café, um restaurante, um taxista, o nosso conhecido Senhor Bolas. E tem uma pequena mercearia que também vende peças usadas de madeira, louças ou azulejos. O senhor Prudêncio é o dono dessa loja e vendeu muitos dos móveis que Jan comprou aqui em Portugal. Vem entregar no Monte da Fazenda com toda a família, mãe, filhos. Uma festa.
O que fizemos lá. Sexta é dia de mercado mas só tinha um carro vendendo sapatos baratos demais e ótimos para o campo. Não tinha o número de Jan mas o gajo prometeu trazer no próximo. Estou arrenpendida de não ter comprado uma alpargata de lona para o quintal. Depois fomos ao correio pegar o cartão de nosso telefone. Visitamos a loja do senhor Prudêncio que é muito engraçado. Quando pergunto o preço ele escreve num bloco de notas. E diz: é o mínimo que posso fazer. Compramos um prato azul e branco português para nossa parede azul e branca e oito azulejos lindos. Reservamos um tacho de cobre, uma mesa aparador rústica, que quero pintar com pátina para nossa varanda nova e um cadeirão de madeira com braços, daqueles antigos que havia nas casas de alguns avôs. Para Jan ele escreve um preço, risca e coloca embaixo o que ele diz ser um preço de amigo.
Senhor Prudêncio com a camisa de xadrez e a boina típica.
Pagamos dezoito euros por nossas compras e fomos tomar um café no Imigrantes, o único restaurante local. E lá estava seu Prudêncio comemorando a venda. É fácil aqui fechar a loja e encontrar os amigos. Vida pacata.
Adega da Herdade da Madeira Velha.
Todo mundo se conhece e já nos sentimos familiarizados com as pessoas. Tudo que acontece todo mundo sabe. Nosso carpinteiro é casado com a senhora da padaria que contou a André nosso vizinho quando ele, senhor Paulo Bambu, começaria o trabalho. Não sei se falou mais, tipo dos acertos financeiros.



Máquinas modernas na fabricação dos vinhos.
Na volta paramos na vinícola local, na adega. A fábrica do vinho, o local de distribuição e a loja para vendas. A adega é chamada de Herdade da Madeira Velha (HMV) cujo projeto começou em 2010 com a ambição de tornar-se um símbolo do Alentejo no mundo. Nesse ano o proprietário comprou três marcas de vinho já existentes e muito apreciadas nos mercados inglês e suiço: Canto X, Canto V e Zéfyro. O nome da herdade e dos vinhos é uma referência ao poeta Luis de Camões que segundo a lenda teria vivido no local em 1548.



Segundo a página da empresa foi do silêncio da paisagem alentejana, dos mistérios dos seus terrenos e do empenho das suas gentes que nasceu esse novo projeto vinícola, a Herdade da Madeira Velha.
A madeira é velha mas a fabricação parece totalmente moderna. Em pleno trabalho a rua estava interditada para carros com uma grande mangueira atravessada de um local ao outro. Acho que uma mangueira cheia de vinho.




Tonéis modernos para o vinho.
E como tudo na cidade é branco uma foto das lindas pedras brancas de alguns pátios de entrada das casas. Fotografei porque queremos usar essas pedras no nosso pequeno quintal.










Indicação para o Monte da Fazenda.
No silêncio da paisagem alentejana, recuperados da caminhada íngreme por duas bicas para Jan e um folhado doce para mim voltamos à natureza para um trajeto muito mais rápido e suave, sem tantas paradas e com raras subidas, de volta a nosso recanto predileto, a Casa Kremer.
De volta à natureza lembrei de Albero Caeiro. Minha sobrinha Yvette, porfessora de português e amante da literatura perguntou se já tinha encontrado por aqui o guardador de rebanhos ao que respondi que sempre o encontrava ao pé do monte. Isso me fez reler o belo poema de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.

Toda a paz da Natureza sem gente com a gente.
Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela mão das Estações a seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente vem sentar-se a meu lado.
A paz dessa natureza sem gente nessas caminhadas faz da vida uma doçura saudável. Tem o poder de abolir pensamentos negativos. Enche de energia e recupera o corpo e a alma dos estresses da cidade e das indignações com a leitura do que acontece nesse mundo cruel de corrupção, guerra e desumanidade.



Uma marmeleira na chegada de nossa casa.

Referências:
Freguesia de Evoramonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Évora_Monte
Castelo de Evoramonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Évora_Monte
Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro: http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u38.jhtm

Aveia brava num happening de Jonathan Roson: uma instlação com essa gramínia e o som da balouçar ao vento quando as janelas do castelo eram abertas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

PARTE XVIII - UM DIA NADA COMUM NO MONTE DA FAZENDA

Primeiro o dia amanheceu frio. Acordei com meu gato Winnie dormindo nos meus pés na mesma posição que escolheu quando veio dormir. Ele se escondia para ficar dentro de casa e só no terceiro dia descobri que entrava dentro da fronha de um travesseiro. Descobri quando vi a fronha se mexendo. Não voltei para dormir porque tinha um almoço para preparar e porque esperávamos o senhor Paulo Ventaneira que vinha fazer o telhado de nossa varanda. Queríamos usar bambus, que ele não sabia onde achar. Depois de decidida a madeira da coberta descobri nas suas fotos que ele sabe usar bambu sim, só que o nome aqui é caniço. Bambu é a planta que se compra para jarros com água ou para plantar no chão. Caniços são usados em construção. Chamamos ele de Paulo Bambu. Um homem grande, gordo, forte, de fala mansa e fina. Casado com a senhora da única padaria em Évora Monte.
Jan Kremer, pintor contra um céu nublado raro.
Antes do dia combinado Jan passou dois dias pintando com protetor de ferrugem a estrutura de ferro que já existia e era apenas coberta com uma espécie de lona. E caiando a fachada de trás da casa. Fazemos tudo aqui em casa! verdade que ele sempre fez tudo na Holanda.
Fui a Estremoz fazer as compras com Gabriela, nossa amável vizinha, fomos juntas ao cabelereiro, almoçamos no Gadanha e meu holandês perdeu o sempre ótimo passeio para preparar os ferros.

A vista do castelo de Évora Monte e Jan.




Um raro dia nublado, muito mais frio que o habitual e a vista do castelo que faz parte de nosso horizonte.












Senhor Paulo e seu ajudante mirim Pedro.
Paulo Bambu que não sabe nada de bambus e que não se chama Bambu, chegou às 8:30 em ponto na sua van branca da Citroen, trazendo todo o material. Vem muitas vezes acompanhado de seu filho Pedro, que tem um cinto com ferramentas de brinquedo, uma protação de solda para os olhos, também de brinquedo, e que ajuda o pai o tempo todo. Bonito de ver a cumplicidade e a admiração do filho pelo pai. Mas Pedro quer ser policial.
Paulo Bambu condenou parte da velha estrutura pintada por Jan, feita com gambiarra (esse nome Jan adorou para coisas mal feitas), foi à Évora, comprou novas traves de ferro, parou o trabalho no sol a pino e voltou até o sol desaparecer e o manto da noite descer. Que lugar comum e expressão poética barata e descabida, só para animação.

Tinha também um almoço para fazer marcado para 12 horas. Os convidados holandeses são absolutamente pontuais. O menu já sabia e o prato forte tinha começado na véspera. Lombinho de porco. Aqui eles são pequenos, finos, macios e deliciosos, provavelmente porque são de porco preto, a variedade típica do Alentejo. Tinha colocado eles na vinha, cozinhado com acréscimo de vinho e da calda do doce de abacaxi em calda de modo que só precisava colocar no forno para corar.
A sobremesa, ora a sobremesa. Decidi usar os limões sicilianos que temos em abundância e que se transformaram numa mousse perfeita. E tinha comprado um abacaxi dos Açores, muito amarelo e doce, que oco serviu de prato para as fatias de abacaxi cortadas e geladas o que além de ser um sucesso foi também uma companhia excelente para a mousse.
Flores amarelas em vaso de cerâmica local.
Às 11 horas preparei a mesa com capricho. A toalha veio da Holanda, as travessas e jogos americanos trouxe do Brasil. O saco de linho para pão bordado "Casa Kremer", o nome dessa casa portuguesa no Monte da Fazenda é uma cópia do Gadanha. Os laços deram muito charme, que acham?
Quando Jan convidou Ludger e Carolien perguntou que tipo de comida queriam e Ludger respondeu: "com um toque brasileiro". Fiz então uma farofa de mandioca moreninha que eles amaram para acompanhar os lombinhos de porco.

Mesa decorada em tons de azul com o "couvert".

O saco de pão bordado por mim que adoro bordar.
Ludger van de Eerden e Carolien van der Laan são holandeses que decidiram morar no Alentejo e criaram numa herdade chamada herdade da Marmeleira, do outro lado do castelo, um local aberto para artistas do mundo inteiro que trabalham no silêncio e na paz do Alentejo. Muitos procuram a vista local, os escultores os mármores abundantes em Estremoz, alguns as técnicas de azulejos, como nossa amiga holandes Ingrid Simons. Desde 2004 OBRAS teve 500 artistas como residentes de 42 diferentes países, por períodos de 3 a 10 semanas. O objetivo da fundação é de oferecer residência para artistas professionais e talentos emergentes, no campo da arte visual, música, dança e escrita. Numa atmosfera inspiradora que proporciona um trabalho eficiente e livre. Já estive lá num dia de jantar coletivo e senti esse ambiente agradável.
Ludger, nosso querido amigo mio vizinho.
Ludger é um holandês alto e magro, formado em ambientalismo na Holanda e que fala com um enorme entusiasmo do seu trabalho com artistas. Conhece cada um dos que passaram lá, sua arte e características sendo aberto a qualquer tipo de inovação. Promove reuniões e apresentações entre elas, concertos e exposições. Mantém sempre uma conversa interessante, é observador e extremamente polido. Cada vez que falavam em holandês num time de três contra um, ele traduzia a conversa para mim que só entendo partes.





Sua mulher Carolien é um amor de pessoa, alegre, comunicativa, entusiasta da arte, acho que promove esse ambiente social e comunicativo da herdade. Formada em Artes e lê meu blog. Poderia ser mais amável?
Conversamos muito, tomamos vinho que eles trouxeram, comemos devagar, demoramos na mesa distraídos, tiramos fotos, ela experimentando meu chapéu panamá amarelo. Carolien e as flores da mesa formavam uma pintura decorativa. Com um vestido colorido de flores amarelas, um casaco de linho amarelo, o chapéu da mesma cor das flores. Adora gatos e tem dois assim como temos dois gatos visitantes que adoram morar aqui.
Ambos estiveram no Brasil visitando o Rio de Janeiro, uma de suas praias que não conhecia e Foz de Iguaçu. Gostaram e não tiveram medo da nossa violência anunciada em cada jornal, panfleto de turismo ou em cada esquina.
Ludger com o chapéu alentejano de Jan.
Sei que o almoço foi bom e divertido. Amaram a mousse de limão caseiro tirado da árvore na hora. Trouxeram de presente um enorme pacote de pêssegos também colhidos no quintal. Essa parece ser a tônica dos presentes no Aletejo: uma garrafa de vinho e legumes ou frutas do quintal, retrato de uma vida saudável. Vou colher nossas uvas mais tarde e perguntei o que fazer com tantas. Fora da resposta brincalhona de Jan de pisoteá-las como numa vindima para fazer vinho ele disse: damos de presente aos vizinhos e a Paulo Bambu que desde cedo trabalha e numa velocidade. Vou fazer também um sorvete de uva e fazer polpa para suco.
Outra foto de Carolien com o chapéu de Jan.

Jan Kremer observando e se divertindo.
O menu e minha cara lavada mas risonha.

Os pêssegos da Herdade da Marmeleira.
Fim do dia. Primeiro nossos hóspedes se despediram às quatro da tarde porque ainda tinham trabalho. Marcamos um encontro na propriedade deles para conhecer os artistas hospedados alguns dos quais encontramos na exposição no Castelo de Évora Monte.
Depois, quando a luz se foi, Paulo e Pedro também foram embora. E o trabalho adiantado, num rítmo impressionante para um homem só. Admiro a capacidade de trabalho dos portugueses. Trabalham pesado e muito.
Ficamos nós dois mastigando as impressões do dia, comentando, conversando. Tomamos nosso cálic de vinho do porto habitual e boa noite, que era tarde, fomos dormir. Nós dois, a paisagem e o gato.
Recolhendo o material e Pedro ajudando.








Jan tomando conta e gostando.























Referências:
1 - Fundação OBRAS: Email: http://www.obras-art.org
Email: obrasart@hotmail.com    Telefone: 00 351 268959007/ 00 351 968 5467 771
Youtube: PtOBRAS
Facebook: Foundation OBRAS
2 - Porco preto ibérico ou alentejano: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porco_preto_ibérico