Uma rotina que não é rotina mas que parte da pergunta: que vamos fazer hoje? No início era fácil tantas eram as caixas e os móveis da Holanda estacionados na garagem. E também a limpeza pesada. O chão já estava muito limpo e as paredes internas pintadas de branco por Jan que chegou primeiro. Mesmo assim sobraram muitos recantos e muitas aranhas e suas teias que vem do teto sem forro na sala e do forro folgado, semiaberto, que vai ser trocado nos demais cômodos. Virei caçadora de aranhas e não é que elas quase desapareceram? Ainda assim surgem nas esquinas e cantos de toda a casa. Função importante porque prendem os insetos em suas teias e nessa época de calor convivemos com insetos no Alentejo. O que sempre lembra o quente e abafado mês de março nas lindas praias de Pernambuco.
Que vamos fazer? Às vezes nada.
Jan Kremer escrevendo contos sobre Portugal.
Nosso espelho reciclado num lindo recanto.
Cada um no seu lugar lendo, escrevendo, trabalhando, jogando. Muitas vezes arrumando. Decidimos por uma arrumação provisória na sala de estar onde só a metade onde fica a biblioteca está pronta. A estante foi a primeira coisa que compramos em Lisboa. Então a minha belíssima escrivaninha holandesa antiga que vai ficar no terceiro quarto, meu futuro gabinete e hoje um depósito de tudo, se alojou de forma quase perfeita na outra metade.
Essa primeira parte da sala foi composta com uma mesa antiga, um velho espelho de cristal reciclado com uma moldura nova, feita em Estremoz e antigos objetos de escrita para viajantes. Reciclar, uma palavra ecológica e moderna, verbo que precisamos aprender a usar mais.
O armário chinês que veio de Arnhem.
12 Romances, 12 hearts.
O lado oposto com o lindo e antigo armário chinês, que veio de Arnhem inteiro, pesado, carregado para dentro de casa por Jan e pelo Senhor Bolas, nosso motorista português baixinho, forte e arretado. Usamos uma mesa antiga, uma serigrafia (1/12) de A. Durand, (Anne-Marie Durand), pintora francesa, obra de 1986, cerâmicas de Brennand, castiçais e uma composição baseada em Picasso, presente de meu filho Paulo, comprada em Miami para nossa casa aqui no Alentejo.
Minha linda escrivaninha.
Estava falando do lado improvisado que no final ficou aconchegante. Primeiro a linda escrivaninha onde trabalho a maior parte do tempo. Uma pintura bela de flores de uma artista holandesa, Jessica Heijkoop. Uma mesa velha reciclada para preencher o recanto. Em seguida um antigo relógio alemão vindo também da Holanda, e um pequeno quadro português comprado no castelo de São Jorge, em Lisboa, feito por um artista que trabalha usando café como tinta. Com café e muito amor pinta as paisagens de Lisboa.
Relógio de parede, quadro pintado com café.
Sofá vermelho, De Connectie, louça Bordallo Pinheiro na mesa.
Depois nosso sofá vermelho Leolux, de design holandês e vindo da Holanda encimado por uma janela alta e pela capa do primeiro livro publicado de Jan Kremer: "De Connectie".
Livro que foi sucesso na Holanda e muito bem classificado pela crítica entre os livros de crime.
Esse livro traduzi para inglês e em seguida para português. Essa tradução estamos corrigindo aqui no Alentejo para, quem sabe, talvez publicar. O livro fala de uma máfia que eliminava criminosos não condenados pela justiça, investigados por um juiz chamado Alex De Winter. O suspense é incrível, a trama prende a atenção, o estilo é limpo, preciso e conciso. Acho que daria um excelente thriller.
De Connectie e pintura de Cuba, La Bodeguita del Medio.
A Bodeguita del Medio lembra os tempos de Jan Kremer em Cuba, um país que ele amou visitar, onde fez circuitos não turísticos e onde principalmente pesquisou sobre Ernest Hemingway, cujo estilo ele admira ao extremo. Eu também me sinto amante de sua vida aventurosa e de seus livros que li todos.
A Bodeguita é um bar e restaurante de comida típica de Havana Velha em Cuba frequentado por personagens célebres como Salvador Allende, Pablo Neruda, Errol Flynn e Ernest Hemingway que escreveu em suas paredes: "My mojito in La Bodeguita, My daiquiri en El Floridita".
Nossa tecnologia de som e imagem: do velho ao supernovo.
Depois na parede seguinte improvisamos um móvel para a televisão antiga e pequena, onde assistimos a série inglesa de Miss Marple, filmes de suspense, Kill Bill, horríveis, engraçados e velhos filmes de Hoolywood. Vemos muito pouca televisão aqui, apesar dos 210 canais que em geral não prestam. Mas planejamos uma enorme tela e um lindo móvel. O habitante mais importante dessa parede é o Zeppelin. Nossa casa começa e termina o dia com música através desse fantástico aparelho, de música brasileira, a jazz ou música clássica, dos i-phones, do computador ou de excelentes rádios de Portugal ou da Holanda. A noite termina com "A perfect Day"de Louis Reed, ele cantando e nós dançando às vezes.
O contraste, a velha TV e o Zeppelin.
O quadro à esquerda é também de Jessica Heijkoop, foi premiado na Holanda, é muito bonito e chama-se "Angst Punt" (Ponto do Medo).
O seguinte é também holandês, de Rob Lodder, e a mais, uma foto da nossa varanda no outono, tirada por amigos holandeses.
Angst Punt de Jessica Heijkoop e quadro de Rob Lodder.
Escrevo sobre rotina, banalidades, simplicidade, acho que coisas desinteressantes. Parece fácil mas foi difícil mudar meu estilo de vida consumista e perfeccionista do Brasil para uma vivência que significa existir. Cheguei cheia de planos de decoração, trouxe belas cortinas feitas no Brasil, tecidos escolhidos de acordo com meus sonhos de uma casa perfeitamente decorada. Aqui com os pés no chão aprendi a fazer tudo pouco a pouco, a fazer por nós mesmos. A esperar e aproveitar as oportunidades. Vou lixar e fazer uma pátina numa mesa e em duas cadeiras para a varanda. Jan faz um monte de coisas com madeira e pintura. Estou cuidando das plantas, colhendo uvas, limões e figos, cozinhando com o maior prazer.
Fazia muitas dessa coisas no Brasil. Sempre cuidei da casa, sempre gostei das artes dométicas, sempre vivi plenamente e com prazer. Mas a arte da simplicidade essa adquiri aqui e agora. Como viver aqui e agora saboreando os momentos e os pequenos acontecimentos.
Chegar no fim do dia, perguntar como foi o dia e concluir: um dia perfeito. A perfect day tocado a toda altura antes de dormir.
Prima: Mais um texto de tirar o fôlego. É que ficamos tão presos no desenrolar de sua vida e de suas proezas, que não conseguimos fazer nenhuma pausa. Essa simplicidade de vida a que você se refere, parece que contribui para um diferente que une mais e mais você e Jam. As ilustrações nos dão uma idéia concreta de tudo como se passa. Impressionante a sua Arte , os seus caprichos, tudo numa cumplicidade perfeita. Esses dias interrogados como irão fazer no começo de cada um, terminam mesmo numa perfeição. As músicas, parecem dar o toque especial e romântico. Que bom!!!!! Tudo tão mágico e tão real...bjs para vc e Jam!!!
Prima: Mais um texto de tirar o fôlego. É que ficamos tão presos no desenrolar de sua vida e de suas proezas, que não conseguimos fazer nenhuma pausa. Essa simplicidade de vida a que você se refere, parece que contribui para um diferente que une mais e mais você e Jam.
ResponderExcluirAs ilustrações nos dão uma idéia concreta de tudo como se passa. Impressionante a sua Arte , os seus caprichos, tudo numa cumplicidade perfeita.
Esses dias interrogados como irão fazer no começo de cada um, terminam mesmo numa perfeição. As músicas, parecem dar o toque especial e romântico. Que bom!!!!! Tudo tão mágico e tão real...bjs para vc e Jam!!!