Primeiro o dia amanheceu frio. Acordei com meu gato Winnie dormindo nos meus pés na mesma posição que escolheu quando veio dormir. Ele se escondia para ficar dentro de casa e só no terceiro dia descobri que entrava dentro da fronha de um travesseiro. Descobri quando vi a fronha se mexendo. Não voltei para dormir porque tinha um almoço para preparar e porque esperávamos o senhor Paulo Ventaneira que vinha fazer o telhado de nossa varanda. Queríamos usar bambus, que ele não sabia onde achar. Depois de decidida a madeira da coberta descobri nas suas fotos que ele sabe usar bambu sim, só que o nome aqui é caniço. Bambu é a planta que se compra para jarros com água ou para plantar no chão. Caniços são usados em construção. Chamamos ele de Paulo Bambu. Um homem grande, gordo, forte, de fala mansa e fina. Casado com a senhora da única padaria em Évora Monte.
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| Jan Kremer, pintor contra um céu nublado raro. |
Antes do dia combinado Jan passou dois dias pintando com protetor de ferrugem a estrutura de ferro que já existia e era apenas coberta com uma espécie de lona. E caiando a fachada de trás da casa. Fazemos tudo aqui em casa! verdade que ele sempre fez tudo na Holanda.
Fui a Estremoz fazer as compras com Gabriela, nossa amável vizinha, fomos juntas ao cabelereiro, almoçamos no Gadanha e meu holandês perdeu o sempre ótimo passeio para preparar os ferros.
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| A vista do castelo de Évora Monte e Jan. |
Um raro dia nublado, muito mais frio que o habitual e a vista do castelo que faz parte de nosso horizonte.
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| Senhor Paulo e seu ajudante mirim Pedro. |
Paulo Bambu que não sabe nada de bambus e que não se chama Bambu, chegou às 8:30 em ponto na sua van branca da Citroen, trazendo todo o material. Vem muitas vezes acompanhado de seu filho Pedro, que tem um cinto com ferramentas de brinquedo, uma protação de solda para os olhos, também de brinquedo, e que ajuda o pai o tempo todo. Bonito de ver a cumplicidade e a admiração do filho pelo pai. Mas Pedro quer ser policial.
Paulo Bambu condenou parte da velha estrutura pintada por Jan, feita com gambiarra (esse nome Jan adorou para coisas mal feitas), foi à Évora, comprou novas traves de ferro, parou o trabalho no sol a pino e voltou até o sol desaparecer e o manto da noite descer. Que lugar comum e expressão poética barata e descabida, só para animação.
Tinha também um almoço para fazer marcado para 12 horas. Os convidados holandeses são absolutamente pontuais. O menu já sabia e o prato forte tinha começado na véspera. Lombinho de porco. Aqui eles são pequenos, finos, macios e deliciosos, provavelmente porque são de porco preto, a variedade típica do Alentejo. Tinha colocado eles na vinha, cozinhado com acréscimo de vinho e da calda do doce de abacaxi em calda de modo que só precisava colocar no forno para corar.
A sobremesa, ora a sobremesa. Decidi usar os limões sicilianos que temos em abundância e que se transformaram numa mousse perfeita. E tinha comprado um abacaxi dos Açores, muito amarelo e doce, que oco serviu de prato para as fatias de abacaxi cortadas e geladas o que além de ser um sucesso foi também uma companhia excelente para a mousse.
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| Flores amarelas em vaso de cerâmica local. |
Às 11 horas preparei a mesa com capricho. A toalha veio da Holanda, as travessas e jogos americanos trouxe do Brasil. O saco de linho para pão bordado "Casa Kremer", o nome dessa casa portuguesa no Monte da Fazenda é uma cópia do Gadanha. Os laços deram muito charme, que acham?
Quando Jan convidou Ludger e Carolien perguntou que tipo de comida queriam e Ludger respondeu: "com um toque brasileiro". Fiz então uma farofa de mandioca moreninha que eles amaram para acompanhar os lombinhos de porco.
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| Mesa decorada em tons de azul com o "couvert". |
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| O saco de pão bordado por mim que adoro bordar. |
Ludger van de Eerden e Carolien van der Laan são holandeses que decidiram morar no Alentejo e criaram numa herdade chamada herdade da Marmeleira, do outro lado do castelo, um local aberto para artistas do mundo inteiro que trabalham no silêncio e na paz do Alentejo. Muitos procuram a vista local, os escultores os mármores abundantes em Estremoz, alguns as técnicas de azulejos, como nossa amiga holandes Ingrid Simons. Desde 2004 OBRAS teve 500 artistas como residentes de 42 diferentes países, por períodos de 3 a 10 semanas. O objetivo da fundação é de oferecer residência para artistas professionais e talentos emergentes, no campo da arte visual, música, dança e escrita. Numa atmosfera inspiradora que proporciona um trabalho eficiente e livre. Já estive lá num dia de jantar coletivo e senti esse ambiente agradável.
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| Ludger, nosso querido amigo mio vizinho. |
Ludger é um holandês alto e magro, formado em ambientalismo na Holanda e que fala com um enorme entusiasmo do seu trabalho com artistas. Conhece cada um dos que passaram lá, sua arte e características sendo aberto a qualquer tipo de inovação. Promove reuniões e apresentações entre elas, concertos e exposições. Mantém sempre uma conversa interessante, é observador e extremamente polido. Cada vez que falavam em holandês num time de três contra um, ele traduzia a conversa para mim que só entendo partes.

Sua mulher Carolien é um amor de pessoa, alegre, comunicativa, entusiasta da arte, acho que promove esse ambiente social e comunicativo da herdade. Formada em Artes e lê meu blog. Poderia ser mais amável?
Conversamos muito, tomamos vinho que eles trouxeram, comemos devagar, demoramos na mesa distraídos, tiramos fotos, ela experimentando meu chapéu panamá amarelo. Carolien e as flores da mesa formavam uma pintura decorativa. Com um vestido colorido de flores amarelas, um casaco de linho amarelo, o chapéu da mesma cor das flores. Adora gatos e tem dois assim como temos dois gatos visitantes que adoram morar aqui.
Ambos estiveram no Brasil visitando o Rio de Janeiro, uma de suas praias que não conhecia e Foz de Iguaçu. Gostaram e não tiveram medo da nossa violência anunciada em cada jornal, panfleto de turismo ou em cada esquina.
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| Ludger com o chapéu alentejano de Jan. |
Sei que o almoço foi bom e divertido. Amaram a mousse de limão caseiro tirado da árvore na hora. Trouxeram de presente um enorme pacote de pêssegos também colhidos no quintal. Essa parece ser a tônica dos presentes no Aletejo: uma garrafa de vinho e legumes ou frutas do quintal, retrato de uma vida saudável. Vou colher nossas uvas mais tarde e perguntei o que fazer com tantas. Fora da resposta brincalhona de Jan de pisoteá-las como numa vindima para fazer vinho ele disse: damos de presente aos vizinhos e a Paulo Bambu que desde cedo trabalha e numa velocidade. Vou fazer também um sorvete de uva e fazer polpa para suco.
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| Outra foto de Carolien com o chapéu de Jan. |
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| Jan Kremer observando e se divertindo. |
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| O menu e minha cara lavada mas risonha. |
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| Os pêssegos da Herdade da Marmeleira. |
Fim do dia. Primeiro nossos hóspedes se despediram às quatro da tarde porque ainda tinham trabalho. Marcamos um encontro na propriedade deles para conhecer os artistas hospedados alguns dos quais encontramos na exposição no Castelo de Évora Monte.
Depois, quando a luz se foi, Paulo e Pedro também foram embora. E o trabalho adiantado, num rítmo impressionante para um homem só. Admiro a capacidade de trabalho dos portugueses. Trabalham pesado e muito.
Ficamos nós dois mastigando as impressões do dia, comentando, conversando. Tomamos nosso cálic de vinho do porto habitual e boa noite, que era tarde, fomos dormir. Nós dois, a paisagem e o gato.
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| Recolhendo o material e Pedro ajudando. |
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| Jan tomando conta e gostando. |
Referências:
1 - Fundação OBRAS: Email:
http://www.obras-art.org
Email: obrasart@hotmail.com Telefone: 00 351 268959007/ 00 351 968 5467 771
Youtube: PtOBRAS
Facebook: Foundation OBRAS
2 - Porco preto ibérico ou alentejano: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porco_preto_ibérico
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