sábado, 5 de setembro de 2015

PARTE XIX - UMA CAMINHADA DE TIRAR O FÔLEGO


Hoje decidimos andar até a cidade de Évora Monte para ir aos correios pegar nosso segundo cartão de telefone. Tem amanhecido frio todos os dias e bastante nublado o que é convidativo a uma caminhada. São 2,5 quilômetros só que de uma subida contínua e íngreme, literalmente por dentro da mata. A autoestrada é muito pior porque a subida é mais difícil. Uma aventura que já fiz uma vez há cinco anos atrás. Saímos sem chapéu pela falta de sol e abrigados porque fazia menos de 15º Celsius. Não preciso dizer que a vista é sempre deslumbrante, que cada curva traz uma subida e uma surpresa, que é atraente ver novas árvores, nova vegetação, as casas brancas ao longe e o castelo imponente como sempre.
Casa Kremer na parede caiada de branco.
Saímos da Casa Kremer pela estrada de pedrinhas brancas rodeada de figueiras, amoreiras e marmeleiras. De árvores típicas e grama seca, a tal da aveia brava que invadia os trigais quando eles ainda existiam. Essa estação do ano é seca e sem chuvas formando essa paisagem árida onde só as plantas fortes resistem. Caminhamos com cuidado porque a estrada é de areia e pedras, escorregadiça e quase sempre subindo. A cada 10 minutos fazemos uma pausa, eu principalmente que não estou acostumada a andar tanto.
Uma caminhada de tirar o fôlego é literal.
Paramos para respirar a cada subida e então aproveito para tirar fotos.
Saindo do Monte da Fazenda.

Jan Kremer na paisagem árida.
 O céu nublado é raro no Alentejo dos céus azuis puros. A vegetação natural da Serra d'Ossa, onde estamos, pertence ao macrobioclima do tipo mediterrânico, em muitas áreas escassa pelas intervenções do homem: fogos, pastoreio, cortes e desbastes. Espécies abundantes de folha pequena, dura, às vezes espinhosa adaptadas à falta d'água e às altas temperaturas. Árvores de folhas persistentes como o sobreiro (a árvore da cortiça ou da rolha como chama meu primo Renato Cunha Bueno Marques), a azinheira, alguns tipos de pinheiro (bravo e manso), o zambujeiro e o eucalipto. O pinheiro manso é a árvore dos pinhões. O zambujeiro é uma olivira brava que produz pequenas azeitonas que só os animais comem.
Arbustos tipo medronheiro, urze, rosmaninho e alecrim. Portanto ervas usadas na culinária que crescem de forma selvagem ou são cultivadas nas casas portuguesas. O contraste do amarelo das searas com a moldura do verde da vegetação causa também a respiração entrecortada por tanta beleza. Nessa região vemos passar muitos turistas, às vezes munidos com todos os apetrechos para hiking, porque o turismo ecológico existe por aqui. A Serra d'Ossa tem 653 metros de altitude e fora toda essa flora é ainda abundante numa planta insectívora chamada orvalho-do-sol (Drosophyllum lusitanicum).
Encruzilha para Monte da Fazenda e Quinta do Serafim.
O caminho bifurca na placa da Quinta do Serafim quando então passamos a andar numa trilha no meio da mata. A Quinta do Serafim pertence a um casal de holandeses que nunca está aqui.
Descobri que as cores dos portais e das molduras das janelas tem um simbolismo interessante. Amarelo representa riqueza indicando a morada de famílias ricas, azul é da nobreza, o preto abolido nos tempo atuais mostrava viuvez e o cinza, também abolido, uma casa de pessoas idosas e doentes.
A curva indica sempre o topo de uma parte da estrada.
Quinta do Serafim.

Estava frio mas principalmente o vento estava frio.  Pensava que não ia conseguir andar tanto sempre escalando, mas não sou de desistir e depois de retomar o ar continuava na mesma animação.
Lembrei de Ana Catarina Delgado treinando para fazer o caminho de Santiago de Compostela de bicicleta. Treinou pesado e conseguiu.
Eu nem faço exercício habitualmente. Aqui é mais divertido e muito bonito. 
A estradinha e a vegetação da margem numa selfie.

Jan Kremer fotografando.

A secura, falta d'água, aridez convidativa.
Nas paradas conversamos, respiramos, tiramos fotos, fazemos selfies. E olhamos a paisagem em torno. Poderíamos ter ido de taxi. Andando é uma aventura e um programa. Impressionante como plantas sobrevivem nessa secura e aridez. Não está chovendo aqui por cerca de 180 dias. Os rios e riachos estão secos, completamente. Inclusive o riacho em frente de nossa casa que nunca tive o prazer de conhecer.
Na região tem pequenas cobras venenosas, por isso não pisamos no mato. Pisei um dia para colher amoras pretas mas protegida com meias por cima da calça comprida e nenhum milímetro de pele de fora.
Tem raposas e javalis e agora em setembro começou a temporada de caça.
Nessa foto à esquerda dá para ver o tipo do solo, as pedrinhas escorregadias e a subida.
Encontramos muito pedaços de muros de pedra no caminho, aparentemente abandonados. E em todo o caminho apenas um sapo grande tomando sol que nem se mexeu à nossa aproximação.
O arvoredo raro.

Muros antigos  de pedras. 
É linda a visão das árvores escassas que não formam uma floresta fechada. As copas não se encontram o que permite passar a luz. Ao longe, na encosta, as árvores organizadas são as de cortiça, uma espécie de carvalho, chamadas em inglês de "cork oak". Aqui é chamada de sobreiro. São pelo menos nove anos para tirar a cortiça. A árvore demora cerca de 25 anos para a primeira retirada. Por isso as rolhas estão sendo substituídas infelizmente por rolhas sintéticas. Mas o plantio é de verdade de pai para filho, nunca para a mesma geração. Elas são marcadas no tronco com a data da próxima coleta.
Muita estrada pela frente e a silhueta de árvores baixas e verdes.
Casas brancas na aproximação de Évora Monte.
Aveia brava a erva daninha do Alentejo que foi arte na OBRAS.
Num trecho da estrada as margens estavam cheias dessa gramínia chamada aqui de aveia brava que foi usada como obra de arte, num happening no Castelo de Évora Monte, como exposição de um residente da Fundação OBRAS, Jonathan Roson.
Era imenso esse campo de capim seco.

O Castelo de Évora Monte visto na ida.
Cansada, respirando. O castelo por trás.
Nessa foto à esquerda eu estou na frente da vista do castelo, ainda com frio, agasalhada, o que não é normal no Alentejo pela manhã. Cansada, respirando mas amando a caminhada e a natureza. Com meu cardigan de listas amarelas e marinho o que fez Jan passar o dia me chamando de "my little bee".

Jan pisando na demarcação mato/ civilização.
A cidade se avista em algumas curvas, uma pequena vila, onde todo mundo se conhece e onde todas as casas são pintadas de branco. Na realidade Évora Monte não é uma cidade, mas uma freguesia do concelho de Estremoz. Pode ser chamada também de Evoramonte.
Uso constantemente as duas grafias porque ambas são permitidas embora a oficial seja Évora Monte. Tem 722 habitantes e agora 723 comigo. Já foi maior e bem mais importante no século XIX.
Concelho de Estremoz é a grafia correta portuguesa. Não foi erro de digitação.
Finalmente chegamos à autoestrada, já perto da vila e em descida. Jan está pisando exatamente nessa passagem do mato para a civilização campesina. Ainda andamos um bocado nessa estrada até a chegada à vila.
Então a vista se alarga e é completamente impactante. O Castelo de Evoramonte num ângulo diferente do que sempre vemos da nossa varanda de casa. Essa foto mostra o portão de entrada, suas torres e as escassas árvores na areia.



Chegando em Evoramonte a bela vista do Castelo.
Na época das guerras constantes de Portugal com os espanhóis e os mouros o castelo, construído como uma fortaleza, tinha uma importância estratégica que foi perdida.
O castelo em alvenaria de pedra e cantaria de granito é feio, pesado e realmente mais apropriado para fortaleza. Não imagino festas ou damas nos seus salões dançando minuetos ou casais trocando de quartos à noite nas suas alas. Imagino mais soldados em luta evitando a entrada de inimigos com arietes e banhos de azeite fervente. Setas e lanças com bolas de fogo.

O castelo na colina dominando a paisagem.
Entrando na freguesia.
A freguesia tem uma praça como todas as cidades do mundo, um pequeno mercado, o de Kika, uma padaria, um correio, um café, um restaurante, um taxista, o nosso conhecido Senhor Bolas. E tem uma pequena mercearia que também vende peças usadas de madeira, louças ou azulejos. O senhor Prudêncio é o dono dessa loja e vendeu muitos dos móveis que Jan comprou aqui em Portugal. Vem entregar no Monte da Fazenda com toda a família, mãe, filhos. Uma festa.
O que fizemos lá. Sexta é dia de mercado mas só tinha um carro vendendo sapatos baratos demais e ótimos para o campo. Não tinha o número de Jan mas o gajo prometeu trazer no próximo. Estou arrenpendida de não ter comprado uma alpargata de lona para o quintal. Depois fomos ao correio pegar o cartão de nosso telefone. Visitamos a loja do senhor Prudêncio que é muito engraçado. Quando pergunto o preço ele escreve num bloco de notas. E diz: é o mínimo que posso fazer. Compramos um prato azul e branco português para nossa parede azul e branca e oito azulejos lindos. Reservamos um tacho de cobre, uma mesa aparador rústica, que quero pintar com pátina para nossa varanda nova e um cadeirão de madeira com braços, daqueles antigos que havia nas casas de alguns avôs. Para Jan ele escreve um preço, risca e coloca embaixo o que ele diz ser um preço de amigo.
Senhor Prudêncio com a camisa de xadrez e a boina típica.
Pagamos dezoito euros por nossas compras e fomos tomar um café no Imigrantes, o único restaurante local. E lá estava seu Prudêncio comemorando a venda. É fácil aqui fechar a loja e encontrar os amigos. Vida pacata.
Adega da Herdade da Madeira Velha.
Todo mundo se conhece e já nos sentimos familiarizados com as pessoas. Tudo que acontece todo mundo sabe. Nosso carpinteiro é casado com a senhora da padaria que contou a André nosso vizinho quando ele, senhor Paulo Bambu, começaria o trabalho. Não sei se falou mais, tipo dos acertos financeiros.



Máquinas modernas na fabricação dos vinhos.
Na volta paramos na vinícola local, na adega. A fábrica do vinho, o local de distribuição e a loja para vendas. A adega é chamada de Herdade da Madeira Velha (HMV) cujo projeto começou em 2010 com a ambição de tornar-se um símbolo do Alentejo no mundo. Nesse ano o proprietário comprou três marcas de vinho já existentes e muito apreciadas nos mercados inglês e suiço: Canto X, Canto V e Zéfyro. O nome da herdade e dos vinhos é uma referência ao poeta Luis de Camões que segundo a lenda teria vivido no local em 1548.



Segundo a página da empresa foi do silêncio da paisagem alentejana, dos mistérios dos seus terrenos e do empenho das suas gentes que nasceu esse novo projeto vinícola, a Herdade da Madeira Velha.
A madeira é velha mas a fabricação parece totalmente moderna. Em pleno trabalho a rua estava interditada para carros com uma grande mangueira atravessada de um local ao outro. Acho que uma mangueira cheia de vinho.




Tonéis modernos para o vinho.
E como tudo na cidade é branco uma foto das lindas pedras brancas de alguns pátios de entrada das casas. Fotografei porque queremos usar essas pedras no nosso pequeno quintal.










Indicação para o Monte da Fazenda.
No silêncio da paisagem alentejana, recuperados da caminhada íngreme por duas bicas para Jan e um folhado doce para mim voltamos à natureza para um trajeto muito mais rápido e suave, sem tantas paradas e com raras subidas, de volta a nosso recanto predileto, a Casa Kremer.
De volta à natureza lembrei de Albero Caeiro. Minha sobrinha Yvette, porfessora de português e amante da literatura perguntou se já tinha encontrado por aqui o guardador de rebanhos ao que respondi que sempre o encontrava ao pé do monte. Isso me fez reler o belo poema de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.

Toda a paz da Natureza sem gente com a gente.
Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela mão das Estações a seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente vem sentar-se a meu lado.
A paz dessa natureza sem gente nessas caminhadas faz da vida uma doçura saudável. Tem o poder de abolir pensamentos negativos. Enche de energia e recupera o corpo e a alma dos estresses da cidade e das indignações com a leitura do que acontece nesse mundo cruel de corrupção, guerra e desumanidade.



Uma marmeleira na chegada de nossa casa.

Referências:
Freguesia de Evoramonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Évora_Monte
Castelo de Evoramonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Évora_Monte
Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro: http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u38.jhtm

Aveia brava num happening de Jonathan Roson: uma instlação com essa gramínia e o som da balouçar ao vento quando as janelas do castelo eram abertas.

Um comentário:

  1. Prima, a sua descrição da caminhada foi maravilhosa. Estou impressionada com tamanha aventura de tirar mesmo o fôlego. A natureza deve fazer muito bem e energizar as pessoas. Sinto, também, que o amor e a cumplicidade dão motivos especiais para vivenciarem tantos momentos, tantas descobertas e tanta felicidade.
    O texto está ótimo. A vc , nada escapa. Ao leitor, tão concentrado, também...
    Tudo de maravilhoso para o casal. Espero mais...bjssss e saudades!!!

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