Hoje decidimos andar até a cidade de Évora Monte para ir aos correios pegar nosso segundo cartão de telefone. Tem amanhecido frio todos os dias e bastante nublado o que é convidativo a uma caminhada. São 2,5 quilômetros só que de uma subida contínua e íngreme, literalmente por dentro da mata. A autoestrada é muito pior porque a subida é mais difícil. Uma aventura que já fiz uma vez há cinco anos atrás. Saímos sem chapéu pela falta de sol e abrigados porque fazia menos de 15º Celsius. Não preciso dizer que a vista é sempre deslumbrante, que cada curva traz uma subida e uma surpresa, que é atraente ver novas árvores, nova vegetação, as casas brancas ao longe e o castelo imponente como sempre.
| Casa Kremer na parede caiada de branco. |
Uma caminhada de tirar o fôlego é literal.
Paramos para respirar a cada subida e então aproveito para tirar fotos.
| Saindo do Monte da Fazenda. |
| Jan Kremer na paisagem árida. |
Arbustos tipo medronheiro, urze, rosmaninho e alecrim. Portanto ervas usadas na culinária que crescem de forma selvagem ou são cultivadas nas casas portuguesas. O contraste do amarelo das searas com a moldura do verde da vegetação causa também a respiração entrecortada por tanta beleza. Nessa região vemos passar muitos turistas, às vezes munidos com todos os apetrechos para hiking, porque o turismo ecológico existe por aqui. A Serra d'Ossa tem 653 metros de altitude e fora toda essa flora é ainda abundante numa planta insectívora chamada orvalho-do-sol (Drosophyllum lusitanicum).
| Encruzilha para Monte da Fazenda e Quinta do Serafim. |
Descobri que as cores dos portais e das molduras das janelas tem um simbolismo interessante. Amarelo representa riqueza indicando a morada de famílias ricas, azul é da nobreza, o preto abolido nos tempo atuais mostrava viuvez e o cinza, também abolido, uma casa de pessoas idosas e doentes.
A curva indica sempre o topo de uma parte da estrada.
| Quinta do Serafim. |
Estava frio mas principalmente o vento estava frio. Pensava que não ia conseguir andar tanto sempre escalando, mas não sou de desistir e depois de retomar o ar continuava na mesma animação.
Lembrei de Ana Catarina Delgado treinando para fazer o caminho de Santiago de Compostela de bicicleta. Treinou pesado e conseguiu.
Eu nem faço exercício habitualmente. Aqui é mais divertido e muito bonito.
| A estradinha e a vegetação da margem numa selfie. |
| Jan Kremer fotografando. |
| A secura, falta d'água, aridez convidativa. |
Na região tem pequenas cobras venenosas, por isso não pisamos no mato. Pisei um dia para colher amoras pretas mas protegida com meias por cima da calça comprida e nenhum milímetro de pele de fora.
Tem raposas e javalis e agora em setembro começou a temporada de caça.
Nessa foto à esquerda dá para ver o tipo do solo, as pedrinhas escorregadias e a subida.
Encontramos muito pedaços de muros de pedra no caminho, aparentemente abandonados. E em todo o caminho apenas um sapo grande tomando sol que nem se mexeu à nossa aproximação.
| O arvoredo raro. |
| Muros antigos de pedras. |
| Muita estrada pela frente e a silhueta de árvores baixas e verdes. |
| Casas brancas na aproximação de Évora Monte. |
| Aveia brava a erva daninha do Alentejo que foi arte na OBRAS. |
Era imenso esse campo de capim seco.
| O Castelo de Évora Monte visto na ida. |
| Cansada, respirando. O castelo por trás. |
| Jan pisando na demarcação mato/ civilização. |
Uso constantemente as duas grafias porque ambas são permitidas embora a oficial seja Évora Monte. Tem 722 habitantes e agora 723 comigo. Já foi maior e bem mais importante no século XIX.
Concelho de Estremoz é a grafia correta portuguesa. Não foi erro de digitação.
Então a vista se alarga e é completamente impactante. O Castelo de Evoramonte num ângulo diferente do que sempre vemos da nossa varanda de casa. Essa foto mostra o portão de entrada, suas torres e as escassas árvores na areia.
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| Chegando em Evoramonte a bela vista do Castelo. |
O castelo em alvenaria de pedra e cantaria de granito é feio, pesado e realmente mais apropriado para fortaleza. Não imagino festas ou damas nos seus salões dançando minuetos ou casais trocando de quartos à noite nas suas alas. Imagino mais soldados em luta evitando a entrada de inimigos com arietes e banhos de azeite fervente. Setas e lanças com bolas de fogo.
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| O castelo na colina dominando a paisagem. |
| Entrando na freguesia. |
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| Senhor Prudêncio com a camisa de xadrez e a boina típica. |
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| Adega da Herdade da Madeira Velha. |
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| Máquinas modernas na fabricação dos vinhos. |
Segundo a página da empresa foi do silêncio da paisagem alentejana, dos mistérios dos seus terrenos e do empenho das suas gentes que nasceu esse novo projeto vinícola, a Herdade da Madeira Velha.
A madeira é velha mas a fabricação parece totalmente moderna. Em pleno trabalho a rua estava interditada para carros com uma grande mangueira atravessada de um local ao outro. Acho que uma mangueira cheia de vinho.
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| Tonéis modernos para o vinho. |
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| Indicação para o Monte da Fazenda. |
De volta à natureza lembrei de Albero Caeiro. Minha sobrinha Yvette, porfessora de português e amante da literatura perguntou se já tinha encontrado por aqui o guardador de rebanhos ao que respondi que sempre o encontrava ao pé do monte. Isso me fez reler o belo poema de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
| Toda a paz da Natureza sem gente com a gente. |
A paz dessa natureza sem gente nessas caminhadas faz da vida uma doçura saudável. Tem o poder de abolir pensamentos negativos. Enche de energia e recupera o corpo e a alma dos estresses da cidade e das indignações com a leitura do que acontece nesse mundo cruel de corrupção, guerra e desumanidade.
| Uma marmeleira na chegada de nossa casa. |
Referências:
Freguesia de Evoramonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Évora_Monte
Castelo de Evoramonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Évora_Monte
Herdade da Madeira Velha: http://www.vinhosdoalentejo.pt/produtores.php?id=2&produtor=894
Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro: http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u38.jhtm
Aveia brava num happening de Jonathan Roson: uma instlação com essa gramínia e o som da balouçar ao vento quando as janelas do castelo eram abertas.
Aveia brava num happening de Jonathan Roson: uma instlação com essa gramínia e o som da balouçar ao vento quando as janelas do castelo eram abertas.








Prima, a sua descrição da caminhada foi maravilhosa. Estou impressionada com tamanha aventura de tirar mesmo o fôlego. A natureza deve fazer muito bem e energizar as pessoas. Sinto, também, que o amor e a cumplicidade dão motivos especiais para vivenciarem tantos momentos, tantas descobertas e tanta felicidade.
ResponderExcluirO texto está ótimo. A vc , nada escapa. Ao leitor, tão concentrado, também...
Tudo de maravilhoso para o casal. Espero mais...bjssss e saudades!!!