quinta-feira, 30 de julho de 2015

PARTE IX - UM DIA EM ÉVORA

Uma arcada em Évora, pedras, branco e amarelo da cidade.
Évora é considerada uma Cidade-Museu, tem seu centro histórico muito bem preservado e é patrimônio mundial da UNESCO desde 1986. A vista da cidade, quando nos aproximamos de carro, é simplesmente deslumbrante como muitas dessas cidades antigas portuguesas são. À direita da estrada em vez da paisagem seca do Alentejo vemos um enorme vinhedo e o perfil branco da cidade com suas torres e muralhas. As vinhas são da Adega Cartuxa, fundação Eugênio de Almeida, uma das mais famosas do Alentejo que produz o vinho EA e o caro e raro Pêra Manca.



Vamos sempre de carro com Senhor Bolas que fala mais que o homem das cobras e que tem verdadeiro fascínio por silos. A cada silo na estrada ele reclama dos tempos de Salazar quando os silos estavam cheios de trigo para consumo interno e para exportação. Também fomos a Évora por razões não românticas ou turísticas mas para resolver nossa linha telefônica, TV por assinatura, telemóvel e internet. Isso resolvido tínhamos todo o tempo livre para perambular pelas ruas antigas de pedras medievais dessa cidade de sonho.

Para Jan o lugar preferido para sentar em Évora é o jardim público da cidade. Uma pausa para descanso e para tomar água nesse calor de sol inclemente.
Vista do lindo Jardim Público de Évora.
Eu queria andar pelas ruas e olhar todas as lojas de turistas, ver quinquilharias e azulejos e procurar coisas que me atraíssem para a decoração de nossa casa. Muitas das lojas já conhecia. Sabia onde estavam os azulejos mais bonitos onde a placa de volto já me deixou frustrada. Ao mesmo tempo andar pelos jardins e admirar a natureza ponteada por esse céu azul esplendoroso, de uma cor difícil de descrever de tão profunda, me dá felicidade nessa fase de viver e aproveitar os momentos simples.





Momentos que de repente nos fizeram sair de mãos dadas cantando de uma forma absolutamente espontânea e sem nenhuma combinação prévia ou nenhuma tradição oh my darling, oh my darling, oh my darling Clementine....Olhamos um para o outro e caímos na risada quase como no poema de Fernando Pessoa: se eu te olho e tu me olhas quem primeiro é que sorri? Sou capaz de jurar sem dedos cruzados para não jurar em falso que rimos mais do que sorrimos e ao mesmo tempo. Rimos de nós mesmos esses dois adolescentes tardios perdidos no tempo.
Passeando pelas aleias cantantes e salitantes.
















Queríamos visitar a exposição de Ingrid Simons que pensávamos estava no museu do jardim. Chegamos na porta do museu para ler a placa falando do horário. De 10 às 12 e de 14 às 18 horas. Tinha acabado de fechar. Esse museu fica no antigo Palácio de D. Manuel, um edifício alongado no centro do qual existe um torreão com três andares e todo caracterizado pelo chamado estilo híbrido alentejano, com influências mouriscas e do estilo manuelino. Gosto da abóbada de ogivas e dos arcos de volta perfeita. Da abóboda vemos o torreão com um varandim com arcos mainelados que abre para o primeiro andar por uma grande portada manuelina (estou usando a língua portuguesa local). No terceiro andar a luz entra através de janelas renascentistas. O Palácio sofreu reformas no século XIX e já não mantém suas características autênticas. E o que resta hoje desse enorme palácio é a galeria quinhentista chamada o Paço das Damas.

As ruínas fingidas e Jan Kremer, o observador.
Planejamos então almoçar e voltar depois de duas horas para a exposição. Na nossa visita ao jardim descobrimos ruínas estranhas sem pé nem cabeça, surpreendentes e lindas. São as "ruínas fingidas" construídas com materiais arquitetônicos de ruínas de vários monumentos de toda a cidade, especialmente restos de janelas geminadas sempre no estilo típico manuelino-mudéjar. Pareciam os restos de uma rica casa ou de um outro palácio porque tem uma torre, parte de uma muralha medieval e múltiplas janelas. Seria um cenário para a cena do balcão de Romeu e Julieta.




Janelas geminadas mouriscas.
Ali, nessas ruínas fingidas perfeitas para o estilo romântico do jardim hoje moram pavões que ficam a passear em torno impávidos colossos coloridos.

Esse é o grande segredo de Évora, visitar e descobrir seus recantos, suas ruas estreitas, seus arcos, suas lojas de artesanato, seus artistas e sua deliciosa parte turística. Deliciosa porque cheia de atraentes restaurantes.






A linda torre contra o céu azul.

Foto do azul através das ramas do jardim.
O jardim que cobre mais de três hectares do terreno foi idealizado e construído pelo arquiteto e coreógrafo italiano José Cinatti, no modelo dos jardins de outrora. Cheio de árvores exóticas e agrupadas, permeado por canteiros de flores coloridas e pequenos lagos.
Deslumbrada.

Como somos tradicionais, especialmente como Jan é tradicional, voltamos a uma das praças da cidade para um pequeno restaurante cujo dono com enormes bigodes de dono de mercearia reclama sempre do pequeno movimento mas onde os pastéis de bacalhau, os nossos bolinhos de bacalhau, são divinos. E as batatas fritas que são um maná em qualquer pequeno restaurante português em nada parecidas com as da McDonalds de qualquer lugar. Como essa famosa lanchonete condenada por Jamie Oliver pela péssima qualidade de seus produtos veio parar aqui nas minhas lembranças lindas de Évora não sei explicar.

Mas como estou escrevendo memórias ditadas pelo coração não vou modificar.

Andando na direção do restaurante conhecido passamos na porta do Museu de Artesanato e de Design de Évora que anunciava a nossa exposição até o dia 26 de julho. Era 28 de julho mas como estávamos no vagaroso Alentejo as peças ainda estavam lá expostas.

Ingrid Simons é uma excelente artista holandesa que vem a Portugal várias vezes por ano e se hospeda na pequena casa da fundação Obras onde Jan esteve muitas vezes e onde ambos se apaixonaram pelo Alentejo. Ingrid namora um rapaz de Angola e por isso fala um português quase fluente.

Num jantar na Herdade da Marmeleira onde fica a Obras sentamos juntas e conversamos em português. Ela vem ao Alentejo aprender a técnica dos azulejos e sua pintura em telas, cerâmica ou azulejos se inspira na linha do horizonte alentejano, no seu arvoredo às vezes escasso e nas cores da sua natureza onde o azul profundo sem máculas do céu se destaca ou o avermelhando dos poentes.
Selfie para Ingrid Simons.

Escrevemos no seu livro de visitas, fotogramos suas peças, fizemos um selfie para enviar a ela, provando que estávamos presentes.
Lindas placas azulejadas.

Azulejos no intenso tom azul de Portugal e de Delphi.

Adoro esse vaso, nosso sonho de consumo com o desenho do horizonte alentejano.
Provavelmente vamos encontrá-la de novo em setembro. Estamos desejando um de seus azulejos e um de seus vasos para compor nossa morada. Andando pela cidade lembramos de cada lugar de outro passeio no passado, dos bancos onde sentamos e onde fizemos selfies.

Um lindo recanto em Évora.

Sentar numa esplanada levá-nos a prestar atenção aos turistas indo e vindo e notar suas roupas coloridas, bermudas, sandálias e chapéus. Casais jovens e idosos, famílias lindas com crianças de diferentes idades. Uma especialmente chamou a atenção pelas duas meninas gêmas vestidas iguais e pela beleza dos pais. Quando me preparava para uma foto eles se moveram e o instante se perdeu num instante. Em casa falando do dia vimos que observamos as mesmas pessoas e os mesmos detalhes.

Pastéis de bacalhau e batatas fritas.

Ainda tínhamos meia hora para gastar no que mais gosto que é passear na rua das lojinhas de artesanato procurando alguma coisa interessante para nossa casa portuguesa o que não achamos nesse dia. Apenas dois imãs de geladeira com perfil e parte de poemas de Fernando Pessoa numa das pequenas livrarias mais encantadoras que já visitei e que já conhecia também.

Depois fomos à parte prática dessa vida rural que é fazer compras num mercado e comprar cestos para organizar nossos pertences. É interessante notar que dentro das cidades as compras são feitas em lojas chinesas e em pequenas mercearias e que os grandes mercados, aqui o Pingo Doce, o Intermarché ou o Continente ficam, com poucas exceções, na zona industrial nos arredores das cidades, onde também se encontram as grandes lojas de construção ou de materiais para bricolagem. Todo um universo a descobrir.
Senhor Bolas e Jan Kremer na saída do Pingo Doce.

Sempre à noite sentandos no alpendre da frente que para mim é o de trás o que gera um trocadilho interminável para qual alpendre vamos o da minha frente de trás de Jan ou vice-versa, tomando vinho do porto e ouvindo o algazar das cigarras nos perguntamos como foi o dia para lembrar nossa música preferida "a perfect day". Oh, it's such a perfect day I'm glad I spent it with you.

Felizes de termos passado mais um dia juntos.





domingo, 26 de julho de 2015

PARTE VIII - E PORQUE HOJE É SÁBADO

Porque hoje é sábado, amanhã é domingo. Mas todos os dias aqui em Monte da Fazenda amanhecem como se domingos fossem. Como hoje é sábado poderíamos ter ido ao mercado em Estremoz percorrer as barracas de quinquilharias onde quero achar garrafas de vidro azul para colocar numa janela e observar a luz do sol passando por elas. Mas não fomos e decidi preparar uma torta de maçã. Porque hoje é sábado tenho esperanças que a torta dê certo. Nunca fui boa de sobremesas nem de fazê-las nem de comê-las, exceto pelos doces de ovos portugueses. Porque hoje é sábado tinha uma profunda discordância sobre que receita escolher e isso levou um certo tempo e algumas pesquisas na internet incluindo a torta de maçã da família enviada por minha irmã doceira exímia Luciana Altino, vulgo tia Lulu.

A torta como achei no cybercook.com.br
Aqui tenho prazer em cozinhar como sempre tive prazer em inventar receitas novas em casa. Só que aqui faço tudo e tenho que aprender as variedades das batatas, a temperatura do forno, o tempo que as coisas duram, a cor dos ovos de gemas mais amarelas, o rápido envelhecimento do ótimo pão local.









Comecei pela massa, dessa vez usando luvas cor de rosa de borracha para não meter a mão na massa no sentido mais literal do termo. Uso principalmente para não ter mãos cheirando a alho ou a cebolas. Depois o creme e por último o doce de maçã. Fiz a receita para uma forma de 33cm que não tinha. Daí usando a minha de 22cm, no forno a massa subiu e escorreu por todos os lados criando uma tensão inusitada e uma sensação angustiante. Porque hoje é sábado, lembrem-se.

Como saiu do forno e depois de cortar as bordas escorridas.
Quando pronta no tempo programado consegui resolver o difícl problema, cortando as bordas queimadas e aí restou uma bela torta. O que elevou o jantar à uma comemoração fantástica. Afinal tínhamos o maravilhoso boeuf à bourguignon da véspera, cujo sabor se acentua no dia seguinte que fez a festa junto com as batatas de forno também do dia anterior.








Prometi a receita à minha neta e aí vai a receita detalhada.
Massa:
- 125gr de manteiga na temperatura ambiente
- 3 xícaras de chá de farinha de trigo
- 2 ovos inteiros
- 1 colher de sopa de fermento em pó
- 1 xícara de chá de açúcar. 
Recheio:
- 3 copos de leite
- 3 colheres de sopa de maizena
- 2 gemas
- 4 colheres de sopa de açúcar
- gotas de baunilha (usei 1 pacotinho de açúcar com baunilha)
Cobertura:
- 4 a 6 maçãs fatiadas sem casca (depende do tamanho da maçã)
- açúcar e canela, o quanto baste para polvilhar
- gema de ovo para pincelar a massa da cobertura (se quiser).
Modo de preparo:
Massa:
Misture todos os ingredientes até obter uma massa bem homogênea e reserve.
Recheio:
Leve tudo ao fogo baixo mexendo até engrossar. Reserve. Cuidado com o acréscimo da maizena que pode formar bolotas. Dissolvo antes com um pouco de leite e passo por uma peneira anter de levar ao fogo. 
Cobertura:
Leve as fatias de maçã ao fogo baixo junto com uma colher de sopa de açúcar por uns 5 a 6 minutos.

Tenho que dizer que ficou bem bonita e apetitosa.
Montagem:
Divida a massa em duas partes iguais. Forre uma forma número 3 untada com manteiga. Espalhe o recheio por cima. Cubra o recheio com as fatias de maçã e polvilhe com açúcar e canela.
Com a outra parte da massa faça tiras para arrumar por cima das maçãs, formando um bonito quadriculado.
Se quiser pincele essa massa com uma gema e deixe assar no forno alto por 30 minutos ou até dourar. A minha ficou pronta em 25 minutos.





Um grande problema nessa época de calor no Alentejo, até melhor nesses últimos dias por causa de muito mais vento, são as moscas. Como sou nordestina e estive muitas vezes em casas de praias nos feriados do Carnaval e da Páscoa resolvi o problema cobrindo a torta da qual sentia muito orgulho com um pano de prato.
Uma apresentação típica das casas nordestinas quentes.


Depois desse jantar regado a vinho da Cartuxa e música de Ary Barroso e Elis Regina fomos aproveitar o dia entardecendo ainda claro, até a hora do ocaso. E porque é sábado deveria haver uma impassível lua cheia que era só uma meia lua anunciando as estrelas que chegam múltiplas ao escurecer.

Agradecimentos ao nosso poetinha Vinicius de Moraes, porque como é óbvio usei o seu poema como guia.

E dando os trâmites por findos porque hoje é sábado há a perspectiva do domingo.

Porque hoje é sábado e porque minha torta de maçã ficou deliciosa.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

PARTE VII - UM DIA EM ESTREMOZ

Um dia em Estremoz é uma aventura para quem leva essa vida pacata em Monte da Fazenda onde cada dia arrumamos um pouco, ouvimos música, eu trabalho, Jan escreve, tomamos cerveja e vinho depois das cinco e jantamos nossos deliciosos quitutes feitos em casa.

Estremoz é uma cidade no distrito de Évora, aqui no Alentejo, conhecida pelas suas jazidas de mármore branco que podemos ver ao longe no caminho ou andando na direção do Pingo Doce, nosso mercadinho favorito. A exploração desse mármore é antiga, desde o tempo dos romanos e da construção do templo de Diana em Évora. 

A vista da cidade na chegada é deslumbrante com a visão do castelo da Rainha Santa Isabel, hoje uma pousada no circuito histórico das pousadas portuguesas. E das muralhas da cidade antiga. Santa Isabel é a santa do milagre das rosas. Sendo uma mulher piedosa a rainha saiu do castelo numa manhã de inverno para distribuir pães aos pobres. Foi surpreendida pelo marido soberano Dom Dinis que lhe perguntou o que levava no regaço ao que a rainha respondeu: "São rosas, Senhor!". "Rosas em janeiro?", em pleno inverno. Dona Isabel mostrou então o conteúdo do seu vestido e nele havia rosas ao invés dos pães que escondera.
Assim está escrito na Crónica dos Frades Menores, de Frei Marcos de Lisboa, 1562: "levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres(...) Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,(...) ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas."
Na praça em frente ao castelo/ pousada há uma enorme estátua branca dessa santa dominando a linda paisagem sempre de céu azul, com colinas verdes à distância.


Estátua da rainha Santa Isabel.
Queria ir cuidar dos cabelos e fazer unhas que não devo me transformar numa camponesa descuidada (o calor ajuda mesmo). Tenho uma cabelereira em Estremoz, Fernanda, como tenho em cada cidade do mundo onde estou. Soa um pouco sofisticado mas dependo disso. Primeiro andamos pela praça, não a praça principal onde acontece o mercado nos sábados, mas numa linda praça lateral, perto de uma fonte, com arvoredo e muita sombra, com flores, um jardim cuidado e internet grátis. Adoramos andar em lugares assim onde a natureza é convidativa. E o que pode ser melhor do que num lugar desses simplesmente se deixar ficar num banco olhando o entorno ou o nada. E se deixar ficar vazia de pensamentos. 
O silêncio é uma parte importante da comunicação entre pessoas que se amam.
Andando descuidados pelas ruas estreitas e comerciais ainda vazias dos turistas, encontramos uma mercearia/ café/ restaurante: A Gadanha. Gadanha Mercearia. Esse restaurante é aparentemente modesto, com um garçon jovem e simpático, um menu na porta não tão barato como outros restaurantes da pequena cidade. Decidimos ficar lá, sentados na esplanada.
A esplanada extremamente tentadora.
Primeiro tivemos um couvert normal mas a manteiga de ervas era deliciosa e o pão vinha dentro de um saco bordado. Já começamos a gostar. Uma garrafa de água porque água é absolutamente necessária nesse sol e nesse calor. A água mineral aqui é muito boa.
Decidimos separadamente o mesmo prato: um carpaccio de vitela e  a surpresa foi maior do qualquer expectativa. Foi talvez o melhor carpaccio que comi. Queijo parmesão de verdade. O que é muito difícil de encontrar por aqui com caviar de pimenta. Nunca tinha ouvido falar mas estou tentando aprender na internet. Pimenta vermelha e verde, bolinhas gelatinosas deliciosas e lindas.
https://www.facebook.com/gadanhamercearia/


De modo que amamos a descoberta desse maravilhoso restaurante, o número 49 na lista dos melhores do mundo. Número 2 em Lisboa, de acordo com o Trip Advisor.
O que só sei agora depois de procurar pala receita de caviar.
Ainda pedimos café (bica) e pastel de nata diferente dos de Belém mas igualmente divino.




A linda entrada lateral desse agora nosso restaurante.

Jan Kremer na esplanada começando com cerveja.
Adorando o lugar (uma selfie).
O caviar de pimenta vermelha e verde.

Depois dessa comida maravilhosa andamos no sol, para o mercado Pingo Doce fazer nossas compras da semana e chamar o nosso motorista favorito, Mr. Balls, que sabe muito sobre tudo e fala o tempo inteiro no caminho mas é a pessoa mais incrível e prestável que conheço nesse lugar.
Saindo de Estremoz andando por esse túnel lindo.




Feliz (outra selfie).
A paisagem com o monte de mármore branco ao fundo.
Ele me ensinou mais uma árvore local, a amendoeira.

domingo, 19 de julho de 2015

PARTE VI - TANGOS, MILONGAS E ENFADOS

Nessa noite estávamos sentados no que vai ser nossa varanda mas que hoje é apenas um local de sombra, com uma coberta verde sobre a armação de metal e chão batido de areia e pedras. Duas portas de metal que vão sair. Duas cadeiras confortáveis de vime preto, com almofada preta no assento e de listas pretas e brancas como apoio para recostar. Uma pequena mesa de bar e um tapete redondo de palha compõem esse recanto. "For the time being", com ele sempre diz. Quase tudo é agradavelmente temporário.

Jan preparou esse cenário para nossa primeira ceia ao ar livre há duas noites atrás. Ele gosta de arrumar a mesa enquanto cozinho e me surpreendeu com esse romantismo improvisado. Eram quase nove horas da noite e o dia ainda estava claro. Para dar um toque de graça ao ambiente coloquei uma enorme cesta de vime completamente lotada de flores chinesas que vão ser descartadas. Pensamos em colocá-las plantadas no chão em pequenos molhos para aguá-las como se fossem flores de um jardim cultivado.    

Gabriela, nossa querida vizinha, sempre está de manhã e à tardinha às voltas com as flores de seu

Cesta de flores na paisagem árida.
quintal. Rimos pensando nela aguando essas flores, muitas presentes de amigos hóspedes a quem Jan pediu de lembrança as flores mais feias da enorme loja chinesa de Estremoz.

Os tangos vinham do fantástico som redondo do Zeppelin Air da Bowers & Wilkins, tocando nossa coleção de músicas de meio tera.
Astor Piazzola repetidamente plangente em Milonga del Angel. Uma vontade de voltar a Buenos Aires, dessa vez com meu amor tardio e andar por suas calçadas à noite parando nos cafés para tomar um porto.




Lembrei também do dia em que fomos, eu e meu grupo de amigos num congresso, a um clube de tango absolutamente decadente, onde velhos engomados e senhoras cheias de maquiagem ensinavam os visitantes a dançar.

Quando estamos juntos contamos histórias um ao outro. Velhas lembranças, velhas memórias.

Algumas num lugar especial, num castelo para os momentos mágicos, aqueles que não vamos nunca esquecer.

Ouvimos música o tempo todo. Muitas vezes Ary Barroso, paixão desse meu holandês. Música clássica, bossa nova, músicas de rádio vindas de Portugal ou da Holanda. Tudo passa pelo Zeppelin. Até a decoração da outra metade da sala, vai centrar na colocação dessa nossa paixão
comprada na celebração da aposentadoria de Jan.




Vida mansa essa de aposentados ou reformados como se diz aqui. Eu trabalho todas as manhãs pela Internet. Estou em três meses de licença sabática. Mas não temos maiores compromissos a não ser o de decidir o que fazer cada dia. Ou o que fazer para o jantar.

Continuamos nossa arrumação sempre um pouco em cada dia e ontem colocamos as cortinas do meu quarto, as que tinha trazido do Brasil. Brancas de um linho fino. Maravilhosas essas cortinas brancas de um romantismo tardio.

E no meio da arrumação subitamente descobri o sabor das cerejas frescas.
Cerejas, minhas jaboticabas em Portugal.

Da mesma forma que um dia andando pelos arredores senti o cheiro de figos e lá estavam os figos, maduros, esperando para serem colhidos e saboreados. Essas descobertas dos sentidos, sabores e cheiros, dão sentido à nossa vida no campo. Para Jan principalmente o som dos grilos ao entardecer, o murmurinho dos pássaros e o canto das cigarras à noite.
Para nós dois o brilho das estrelas no céu absolutamente limpo.





Nesse dia do jantar ao ar livre o maior pensamento foi: se isso não é qualidade de vida o que mais pode ser?

Tangos e milongas explicados faltou falar dos enfados. Enfados? Que enfados? Assim como os fados ausentes porque são principalmente nostalgia.
Nosso amigo o Zeppelin fotografado em Arnhem, Holanda, mas já  funcionando em Evoramonte.





quinta-feira, 16 de julho de 2015

PARTE V - SIMPLIFICANDO



Hoje arrumando o quarto penso no que significa simplificar, diminuir, consumir menos, ter menos e viver mais, usando mais nossos sentidos. No sentido de se ligar mais à natureza.

Tive que escolher roupas para Portugal e deixar roupas em Recife. As mais simples e para calor vieram, como se estivesse indo passar férias numa praia nordestina. As mais formais, condizentes com meu trabalho de médica em Recife ficaram. Algumas de festa e outras de frio vieram para algumas viagens que temos programadas, como em setembro, um casamento na Holanda.

Nesse processo, ainda em Recife, escolhi as roupas que usava, distribuí uma enorme parte das outras. Em casa reduzi minhas posses vestimentais de um closet duplo, dois guarda-roupas duplos e uma parede de prateleiras para apenas um closet duplo, um guarda-roupa e as mesmas prateleiras. Em Evoramonte tenho apenas um guarda-roupa de porta dupla e duas gavetas. Acabei de arrumar e está tudo organizado. Dá gosto ver.

Todas as minhas roupas para Evoramonte.
Não podemos comparar nosso padrão de consumo brasileiro, vindo do norteamericano, com o padrão de consumo europeu. Onde o supérfluo é uma palavra inexistente para a maioria das pessoas.

Todas as minhas bolsas, lenços e écharpes.

Não é fácil mudar de estilo de vida. Acho que passei um ano me preparando porque não queria chegar e desistir. Nunca desista de sonhos. Desista de coisas e sentimentos inúteis. Aqui nós dois arrumamos, cozinhamos, lavamos, fazemos coisas práticas. Fazemos ao sabor da vontade e do clima. Quando é hora de parar paramos, se queremos preguiçar, preguiçamos. Temos ainda uma vida pela frente. E no Alentejo não há pressa. Tudo pode ser adiado. As coisas são combinadas para terça quem sabe na quarta. Pode telefonar? Não é preciso, estarei aí num desses dois dias. Esse era o senhor Paulo que chamo dos bambus. Ele veio sim, na terça à noite. Mas não sabe nada sobre coberturas de bambus, o que queremos para nossa varanda de trás. Ficou de pesquisar e voltar a conversar.

O maior produtor de bambu da Europa está instalado em Portugal, no concelho alentejano de Odemira, o Bambu Parque, onde produz mais de 100 variedades dessa planta, a maioria para exportação.

Bambu Parque, a maior plantação desconhecida pelos alentejanos!
Provavelmente o bambu não é usado para telhados ou para construção. Apenas para jardins e para decoração. Tentei contato com eles que não sabem informar empresas que trabalhem com bambu tratado nem onde comprar.



Vamos ter que aprender devagar no rítmo local. O clima hoje vai de 19º a 35º. Consigo agora entender muito bem a "siesta". Um problema para o turista nessas pequenas, lindas e históricas cidades da região. Porque entre 13 e 15 horas quase todas as lojas fecham. Mesmo nos sábados, no dia do grande mercado de Estremoz. E o sol é forte. Por isso todos os velhos senhores da cidade estão sentados nas esplanadas tomando uma bica ou uma boa cerveja. Acho que as mulheres são donas de casa e não estão nesse cafés alentejanos. A não ser as que neles trabalham.

As moscas estão chegando, o que lembra de novo nossas praias na época da Páscoa. Calor abafado e moscas atraídas pelo cheiro de peixes e crustáceos da cozinha. Aqui elas são atraídas por qualquer cheiro, embora sejam em muito menor número. Temos que ter cuidado em não deixar restos de comida, ter os lixos fechados. E que venham os mosquitos à noite quando o calor diminui e vamos para nossa mesa de ferro embaixo da palmeira agora moribunda. Bichos da Índia atacaram as lindas palmeira altas desse local e acabaram com a nossa. Orgulho de Jan que gostava de se dizer o único holandês dono de uma palmeira.

Como era nossa palmeira!
Estamos pensando o que fazer para conservar esse local com sombra, onde sentamos ao entardecer para ouvir a natureza. O silêncio e o cantar dos grilos e dos pássaros. Onde tomamos vinho do porto e comemos queijo São Jorge dos Açores com marmelada. Onde damos risadas e damos boas vindas a nossos vizinhos de casa.

Já que falei de roupas e de moscas, descobri como me proteger sem sentir calor. Com um enorme lenço de algodão da Desigual. Então fora entender o sentido das "siestas" entendi também o porque dos xales portugueses.
Afora salientarem o feitiço e o encanto das doces portuguesas e das cantoras de fados.

Meu xale colorido campeão na luta contra os mosquitos.
Com xales e siestas, sombras e mosquitos, palmeiras e pertences compomos nossa história trivial cantando em sol maior a simplicidade e o acolhimento dessas paragens agora nosso lar.

Uma das frases mais bonitas sobre pessoas e coisas foi dita por Audrey Hepburn a linda Sabrina ou a Bonequinha de Luxo/ Breakfast at Tiffany's:
"People, even more that things, have to be restored, renewed, revived, reclaimed, and redeemed; never throw out anyone."
"As pessoas, muito mais que as coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas; Jamais jogue alguém fora"
Audrey Hepburn.

Morar nessa casa e me preparar para mudar o estilo de vida me fez pensar como coisas são dispensáveis mas pessoas não. Podemos nos livrar de coisas inúteis que serão úteis para outros. Mas nossas pessoas, nosso amor, família, nossos amigos esses temos que segurar, conservar, cuidar e amar Dessas pessoas que nos rodeiam e que nos amam dessas vamos sempre precisar e se possível ajudar.
O amor tem duas mãos. Damos carinho, recebemos carinho. Um pouco aquele provérbio de colher o que se planta.
Porque a felicidade vem de dentro de cada um e tem a capacidade de contaminar.

Nothing is impossible, the word itself says ‘I’m possible’!


terça-feira, 14 de julho de 2015

LISBOA LISBON LISSABON: UMA EXPERIÊNCIA VIVIDA EM 2012

LISBOA LISBON LISSABON

Tantos nomes porque usamos três línguas aqui nesse apartamento em Lisboa. Fora muita coisa escrita em alemão pelo dono da casa, um jovem português que nos surpreendeu. Esperava um senhor velho como senhorio. Mas é um jovem culto, morador dessa nossa residência interina cuja personalidade está escrita/ descrita em todos os detalhes da decoração e no conteúdo. Livros em várias línguas (português, inglês, francês, alemão). Música até em LP. Filmes em DVD. Fotos pessoais. Quarto da filha. Pequenos objetos colecionados em viagens ou catados em lojas daqui. Um bric-a-brac cheirando a lar. Um mistério para um conto. Porque ele aluga e sai da casa? Está divorciado, viúvo, precisa de dinheiro? Para onde vai quando não está aqui? Amanhã vai a escalar um monte e veio a buscar as cordas e equipamentos necessários para alpinismo, guardados aqui num baú.

Estante de livros e objetos na sala

Nossa casa, que já tivemos muitas, todas um lar que nunca teve um lugar. 
Dia calmo. Jan diz que hoje é o dia de aterrissar. Sentir a casa e os arredores. Bairro antigo, mas não histórico, lembra nossas velhas cidades brasileiras, como Olinda. Casarões de azulejos. Vida pacata de interior. Uma cidade sem pressa e sem azáfama. Sem lufalufa. Um giro!

A personalidade desse apartamento.








Fomos à esquerda ao Pingo Doce, o mesmo mercado de Estremoz, comprar alguma comida, cerveja, vinho e vinho do Porto. Fomos para o outro lado mais perto do Tejo. Descobrimos como nos locomover. Tem ônibus, metrô e taxi barato.

Ouvimos Tom Jobim e Ary Barroso. Lemos Fernando Pessoa.

Aliás estou encantada com o livro de Zé Paulo. 

Foi uma pesquisa de muito anos. Ele visitou cada lugar da vida de Pessoa como descrito nos poemas para deduzir a verdade de cada frase, fase, lugares, amigos. A Tabacaria? Acho que ele descobriu onde era, diferente de todos outros autores, porque conseguiu ver o local do quarto onde Pessoa escrevia. Por isso é quase uma autobiografia. A vida de Pessoa contada por ele através dos seus poemas. Entre aspas fala Pessoa, sem aspas, fala Zé Paulo. Acho que é uma leitura obrigatória para quem gosta dele Pessoa. 
Uma mesa de escritor e o livro perfeito de Zé Paulo.

Não sei quantos anos passou no rastro dos poemas, documentos e lugares para entender sua vida. Lembra Heinrich Schliemann que descobriu Tróia, porque era apaixonado pela história desde criança, aprendeu línguas incluindo grego para ler os antigos e com os livros Ilíada e Odisseia na mão, baseando-se apenas na descrição minuciosa do local, achou a cidade que era até então uma lenda e um sonho na sua imaginação.




Admiro essas pessoas que lutam por um sonho louco e por uma paixão.

O ambiente da sala onde estou agora escrevendo é um ambiente perfeito para um escritor. Mesmo dentro da cidade é tão calmo que dá para ouvir os pássaros. Tem um jardim com um recanto agradável onde vamos tomar café amanhã e uma rede. Jan vai também aguar o jardim. Como vocês percebem somos cidadãos do mundo com esses lares sem lugar mas também somos caseiros e adoramos esse não fazer ou deixar acontecer.

Nossa rede temporária em Lisboa.

Ele está tão bem, saudável, alegre, disposto, agradável e carinhoso. Fiquei tão feliz em vê-lo assim completamente recuperado. De uma pneumonia braba. Esse hoje já valeu minha viagem!
Saudades e muito carinho por todos vocês que torcem por minhas aventuras. Vocês e elas, as aventuras, fazem valer a pena viver!



Toque de personalidade e de vida.



Sapatos holandeses para o pequeno jardim.











segunda-feira, 13 de julho de 2015

PARTE IV - TEMPEROS E DESTEMPEROS

Primeiro quero dizer que o rítmo de vida aqui é totalmente diferente e que a energia para fazer qualquer coisa depende do calor ou do frio. Como num deserto ou no sertão pernambucano a tempertura vai de frio de manhã a muito quente como agora, cerca de 38º do lado de fora. Dentro é melhor por causa dessas grossas paredes isolantes. E na cozinha temos o climatizador primitivo mas eficiente de Jan inventor. Um ventilador soprando num grande pedaço de gelo colocado sobre uma grelha e um depósito plástico. De verdade faz uma diferença. Mas amanhã vamos à Évora comprar um ar condicionado, por incrível que pareça para a cozinha primeiro. O local dos temperos e dos destemperos.
O mata-moscas e o climatizador improvisado.

Não falei de temperos como de sal e pimenta mas como de momentos agradáveis e de brincadeiras. Destemperos são as pequenas brigas, as discussões necessárias para o ajuste de um casal de certa idade cada um do qual acostumado a morar só e a ter sua própria rotina. Rotina até no gosto pelas refeições ou no local onde colocar facas, tesouras ou papéis. No jeito de decorar, na arrumação dos livros, nos horários, até vi outro dia no facebook, na maneira de pendurar o papel higiênico.

O rolo desenrolando para que lado? Ridículo? Sim, mas isso se chama cotidiano. E também se chama construir uma maneira de viver.

Em geral temperamos mais do que destemperamos. Jan tem pavio curto. Eu sou distraída. Ele é organizado, eu deixo tudo aberto. Não fecho portas de armários, às vezes fecho bem a da geladeira. Não coloco tampas, não devolvo as coisas para o lugar correto.

Agora mesmo o cheiro é de temperos: cebolas para hambúrguer com batatas fritas. Jantar bem trivial. Jan é o cozinheiro. Pergunto quer ajuda, ele diz não, quero apenas o seu amor. Que ele já tem.

Algumas pessoas dizem que não é bom falar de felicidade. Eu não sou supersticiosa e adoro falar de coisas boas. Esquecer coisas ruins sempre.

Terminamos nosso jantar comum, fomos sentar embaixo da palmeira agora quase morta, fotografamos a paisagem, o castelo de Evoramonte ao longe, o dia ainda claro. Nove horas da noite e ainda muita luz.  Mandei mensagens para todos os meus queridos amigos do Brasil.
O castelo de Evormonte visto do terraço da frente. Não é lindo? Às nove horas da noite?



Feliz. "A perfect day" a canção de Lou Reed que é a nossa música. Porque ouvimos Ari Barroso o dia inteiro, cerca de 25 discos, toda a sua obra exceto por 16 músicas que ainda não foram gravadas e mais um repertório completo de Mozart, algumas músicas de Handel. Uma mistura de brega e de intelectualidade que parece eterna e diz um bocado sobre nossa vida aqui nessas paragens.

Amo tudo isso. Para sempre.

domingo, 12 de julho de 2015

PARTE III - NOSSA ESTANTE VERDE

Como planejar uma estante, escolher e mudar tudo por amor à primeira vista. Prioridade número um para nossa casa alentejana era uma estante, cobrindo toda uma parede de 4,85m de largura com todos os livros de Jan que vieram da Holanda. Eram cerca de 40 caixas de 50cm3 cada.
Escolhemos um grupo de cinco estantes da Ikea, brancas, de 90cm cada. Acho que dois metros de altura. Fizemos um caderno com todas as ideias que tivemos e todos os recortes de revistas que gostamos.

Tinha visto também um catálogo do "El Corte Inglés" com móveis, objetos e rouparia simples e linda. Decidimos ir lá primeiro e em seguida ir à Ikea. Lisboa, exceto pelas ladeiras andando é fácil de locomoção pelo seu sistema excelente de metrô.

Vimos nessa loja a estante. Verde patinada, já falei antes. Com escada para as últimas prateleiras, um velho sonho de Jan. Mais cara do que tínhamos planejado. Na realidade estávamos na loja para procurar uma cama box.

Nossa estante ainda na loja.
Conversamos, discutimos com as arquitetas da loja, perguntamos sobre transporte, decidimos pensar e voltar depois. Mas amor à primeira vista é amor à primeira vista. Não tem volta. Een liefde op de eerste gezicht.

Decidimos: vamos esquecer qualquer outro móvel e comprar essa estante. O que fizemos. Só que esquecemos de medir de tão entusiasmados. Era uma sexta e a estante chegaria na quinta. Nesse dia Jan esqueceu o celular no hotel. Nenhum problema se iríamos estar juntos. Mas eu sou um  problema. Me perco o tempo todo, distraída, esqueço do tempo passeando. Fui comprar algo e...estava perdida, sem passe e sem dinheiro para o metrô. Andei quilômetros atrás de Jan, pensando em tomar um táxi quando ele me ligou. Muito prático. Sem mim pensou que teria que voltar ao hotel para me telefonar.
E voltou para me encontrar como se faz com uma criança perdida na rua. Pensei que ele estava zangado, achei que estava zangada porque ele tinha também desaparecido. No fim rimos da situação e prometemos nunca andar sem celular e eu nunca mais desgarrar.

Montes de caixas para abrir, cerca de trinta.
As caixas estavam enchendo uma espécie de garagem. Junto com móveis e roupas, tudo vindo da Holanda, da 48 Leoninusstraat, Arnhem.

Na véspera da chegada da estante, quando estávamos desocupados aproveitando o ar fresco da noitinha pensamos juntos: a estante vai caber na altura da parede? A sala tem um telhado antigo, em formato de V. E a altura da parede fica baixa no local previsto. Quase entramos em pânico. Comprada sem as medidas exatas. Mas só peru morre de véspera.


A chegada da estante perto de uma da tarde.
Adoro essa cor de céu azul pura e a paisagem seca. Esse perfil verde das árvores locais. 
Em volta temos muitas árvores de cortiça e azinheiras. Perto de Estremoz e de Évora campos de uvas. Acho que essa pequena árvore baixa é uma azinheira. Vamos aprender e apreender a natureza. 
A estante já colocada na parede, ainda vazia.









Não demorou mais de uma hora para tudo ficar pronto e decidirmos se ia para o centro ou para a direita como terminou ficando. No nosso lugar em Recife a sala gira em torno do quadro a óleo de uma paisagem italiana com amarelos dos trigais, tons de verde e avermelhados. Mesmo as cores da decoração combinam com os tons dessa pintura que amo.








O verde combina com a escrivaninha, a secretaria como Jan chama à portuguesa, com seu tampo de couro lavrado e a cadeira verde de espaldar alto.
Entre livros a maior parte em holandês.
No dia seguinte, que aqui ninguém é de ferro começamos a arrumação. Trabalho braçal de Jan, eu limpando um a um todos os livros. Tentando classificar por tamanho e por autores, poesia ou prosa.

Adoro livros. O cheiro de livros. Estar entre livros. Adoro também sentar no chão. Gostamos os dois de livros. Não nos desfazemos deles. Aqui posso cheirar poeira, talvez porque o clima é tão seco que não há mofo. Há aranhas sim. E quantas. Elas me odeiam, a mim e a nosso aspirador de aranhas. Qualquer dia acordo metamorfoseada numa enorme aranha preta nojenta subindo pegajosa pelas paredes brancas caiadas.

No sábado já iniciada a arrumação.

Hoje domingo foi o dia de terminar a sala e vou mostrar os primeiros resultados. Os livros cada um no seu lugar. Um tapete, a secretária, a cadeira. Os livros mais belos na frente, outros menos lidos escondidos por trás. Quase não havia espaço para todos. E são só os deles. Os meus, em Recife,  ocupam uma parede no escritório. Com uma estante e uma escada também.

Trabalhamos um bocado. Tomando água que dá sede estar nessa paragem. 

   
Agora que terminamos de arrumar, por hoje, paramos para sentar à sombra de uma lona verde muito feia mas que dá sombra imaginando estarmos na mais linda varanda do Alentejo, embaixo de um teto de bambus descendo para formar uma meia parede à direita, em frente ao mais lindo jardim da região, tomando cerveja, esperando para jantar. Vivendo um dia de cada vez saboreando a divina experiência de estar completamente feliz.