quinta-feira, 30 de julho de 2015

PARTE IX - UM DIA EM ÉVORA

Uma arcada em Évora, pedras, branco e amarelo da cidade.
Évora é considerada uma Cidade-Museu, tem seu centro histórico muito bem preservado e é patrimônio mundial da UNESCO desde 1986. A vista da cidade, quando nos aproximamos de carro, é simplesmente deslumbrante como muitas dessas cidades antigas portuguesas são. À direita da estrada em vez da paisagem seca do Alentejo vemos um enorme vinhedo e o perfil branco da cidade com suas torres e muralhas. As vinhas são da Adega Cartuxa, fundação Eugênio de Almeida, uma das mais famosas do Alentejo que produz o vinho EA e o caro e raro Pêra Manca.



Vamos sempre de carro com Senhor Bolas que fala mais que o homem das cobras e que tem verdadeiro fascínio por silos. A cada silo na estrada ele reclama dos tempos de Salazar quando os silos estavam cheios de trigo para consumo interno e para exportação. Também fomos a Évora por razões não românticas ou turísticas mas para resolver nossa linha telefônica, TV por assinatura, telemóvel e internet. Isso resolvido tínhamos todo o tempo livre para perambular pelas ruas antigas de pedras medievais dessa cidade de sonho.

Para Jan o lugar preferido para sentar em Évora é o jardim público da cidade. Uma pausa para descanso e para tomar água nesse calor de sol inclemente.
Vista do lindo Jardim Público de Évora.
Eu queria andar pelas ruas e olhar todas as lojas de turistas, ver quinquilharias e azulejos e procurar coisas que me atraíssem para a decoração de nossa casa. Muitas das lojas já conhecia. Sabia onde estavam os azulejos mais bonitos onde a placa de volto já me deixou frustrada. Ao mesmo tempo andar pelos jardins e admirar a natureza ponteada por esse céu azul esplendoroso, de uma cor difícil de descrever de tão profunda, me dá felicidade nessa fase de viver e aproveitar os momentos simples.





Momentos que de repente nos fizeram sair de mãos dadas cantando de uma forma absolutamente espontânea e sem nenhuma combinação prévia ou nenhuma tradição oh my darling, oh my darling, oh my darling Clementine....Olhamos um para o outro e caímos na risada quase como no poema de Fernando Pessoa: se eu te olho e tu me olhas quem primeiro é que sorri? Sou capaz de jurar sem dedos cruzados para não jurar em falso que rimos mais do que sorrimos e ao mesmo tempo. Rimos de nós mesmos esses dois adolescentes tardios perdidos no tempo.
Passeando pelas aleias cantantes e salitantes.
















Queríamos visitar a exposição de Ingrid Simons que pensávamos estava no museu do jardim. Chegamos na porta do museu para ler a placa falando do horário. De 10 às 12 e de 14 às 18 horas. Tinha acabado de fechar. Esse museu fica no antigo Palácio de D. Manuel, um edifício alongado no centro do qual existe um torreão com três andares e todo caracterizado pelo chamado estilo híbrido alentejano, com influências mouriscas e do estilo manuelino. Gosto da abóbada de ogivas e dos arcos de volta perfeita. Da abóboda vemos o torreão com um varandim com arcos mainelados que abre para o primeiro andar por uma grande portada manuelina (estou usando a língua portuguesa local). No terceiro andar a luz entra através de janelas renascentistas. O Palácio sofreu reformas no século XIX e já não mantém suas características autênticas. E o que resta hoje desse enorme palácio é a galeria quinhentista chamada o Paço das Damas.

As ruínas fingidas e Jan Kremer, o observador.
Planejamos então almoçar e voltar depois de duas horas para a exposição. Na nossa visita ao jardim descobrimos ruínas estranhas sem pé nem cabeça, surpreendentes e lindas. São as "ruínas fingidas" construídas com materiais arquitetônicos de ruínas de vários monumentos de toda a cidade, especialmente restos de janelas geminadas sempre no estilo típico manuelino-mudéjar. Pareciam os restos de uma rica casa ou de um outro palácio porque tem uma torre, parte de uma muralha medieval e múltiplas janelas. Seria um cenário para a cena do balcão de Romeu e Julieta.




Janelas geminadas mouriscas.
Ali, nessas ruínas fingidas perfeitas para o estilo romântico do jardim hoje moram pavões que ficam a passear em torno impávidos colossos coloridos.

Esse é o grande segredo de Évora, visitar e descobrir seus recantos, suas ruas estreitas, seus arcos, suas lojas de artesanato, seus artistas e sua deliciosa parte turística. Deliciosa porque cheia de atraentes restaurantes.






A linda torre contra o céu azul.

Foto do azul através das ramas do jardim.
O jardim que cobre mais de três hectares do terreno foi idealizado e construído pelo arquiteto e coreógrafo italiano José Cinatti, no modelo dos jardins de outrora. Cheio de árvores exóticas e agrupadas, permeado por canteiros de flores coloridas e pequenos lagos.
Deslumbrada.

Como somos tradicionais, especialmente como Jan é tradicional, voltamos a uma das praças da cidade para um pequeno restaurante cujo dono com enormes bigodes de dono de mercearia reclama sempre do pequeno movimento mas onde os pastéis de bacalhau, os nossos bolinhos de bacalhau, são divinos. E as batatas fritas que são um maná em qualquer pequeno restaurante português em nada parecidas com as da McDonalds de qualquer lugar. Como essa famosa lanchonete condenada por Jamie Oliver pela péssima qualidade de seus produtos veio parar aqui nas minhas lembranças lindas de Évora não sei explicar.

Mas como estou escrevendo memórias ditadas pelo coração não vou modificar.

Andando na direção do restaurante conhecido passamos na porta do Museu de Artesanato e de Design de Évora que anunciava a nossa exposição até o dia 26 de julho. Era 28 de julho mas como estávamos no vagaroso Alentejo as peças ainda estavam lá expostas.

Ingrid Simons é uma excelente artista holandesa que vem a Portugal várias vezes por ano e se hospeda na pequena casa da fundação Obras onde Jan esteve muitas vezes e onde ambos se apaixonaram pelo Alentejo. Ingrid namora um rapaz de Angola e por isso fala um português quase fluente.

Num jantar na Herdade da Marmeleira onde fica a Obras sentamos juntas e conversamos em português. Ela vem ao Alentejo aprender a técnica dos azulejos e sua pintura em telas, cerâmica ou azulejos se inspira na linha do horizonte alentejano, no seu arvoredo às vezes escasso e nas cores da sua natureza onde o azul profundo sem máculas do céu se destaca ou o avermelhando dos poentes.
Selfie para Ingrid Simons.

Escrevemos no seu livro de visitas, fotogramos suas peças, fizemos um selfie para enviar a ela, provando que estávamos presentes.
Lindas placas azulejadas.

Azulejos no intenso tom azul de Portugal e de Delphi.

Adoro esse vaso, nosso sonho de consumo com o desenho do horizonte alentejano.
Provavelmente vamos encontrá-la de novo em setembro. Estamos desejando um de seus azulejos e um de seus vasos para compor nossa morada. Andando pela cidade lembramos de cada lugar de outro passeio no passado, dos bancos onde sentamos e onde fizemos selfies.

Um lindo recanto em Évora.

Sentar numa esplanada levá-nos a prestar atenção aos turistas indo e vindo e notar suas roupas coloridas, bermudas, sandálias e chapéus. Casais jovens e idosos, famílias lindas com crianças de diferentes idades. Uma especialmente chamou a atenção pelas duas meninas gêmas vestidas iguais e pela beleza dos pais. Quando me preparava para uma foto eles se moveram e o instante se perdeu num instante. Em casa falando do dia vimos que observamos as mesmas pessoas e os mesmos detalhes.

Pastéis de bacalhau e batatas fritas.

Ainda tínhamos meia hora para gastar no que mais gosto que é passear na rua das lojinhas de artesanato procurando alguma coisa interessante para nossa casa portuguesa o que não achamos nesse dia. Apenas dois imãs de geladeira com perfil e parte de poemas de Fernando Pessoa numa das pequenas livrarias mais encantadoras que já visitei e que já conhecia também.

Depois fomos à parte prática dessa vida rural que é fazer compras num mercado e comprar cestos para organizar nossos pertences. É interessante notar que dentro das cidades as compras são feitas em lojas chinesas e em pequenas mercearias e que os grandes mercados, aqui o Pingo Doce, o Intermarché ou o Continente ficam, com poucas exceções, na zona industrial nos arredores das cidades, onde também se encontram as grandes lojas de construção ou de materiais para bricolagem. Todo um universo a descobrir.
Senhor Bolas e Jan Kremer na saída do Pingo Doce.

Sempre à noite sentandos no alpendre da frente que para mim é o de trás o que gera um trocadilho interminável para qual alpendre vamos o da minha frente de trás de Jan ou vice-versa, tomando vinho do porto e ouvindo o algazar das cigarras nos perguntamos como foi o dia para lembrar nossa música preferida "a perfect day". Oh, it's such a perfect day I'm glad I spent it with you.

Felizes de termos passado mais um dia juntos.





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