sábado, 11 de julho de 2015

PARTE II - COZINHAR NO ALENTEJO

Uma das coisas importantes aqui gira em torno do comer. Todo dia pensamos no jantar e tenho experimentado receitas novas que conheço mas nunca fiz. Primeiro é difícil comprar. Por exemplo,
couve para caldo verde. Achei diferentes espécies de couve, couve portuguesa, couve galega, couve lombardo ou qualquer coisa assim. Escolhi a mais parecida com a nossa, verde escura por fora mas em camadas como se fosse um repolho. Verde clara cor de alface por dentro quando cortei em tiras me sentindo a própria “chef de cuisine”. Será que vai ficar bom?
Couve lombardo: só parecia com nossa couve por fora.



Essa descobri agora é a couve Lombardo, a que comprei. A que usamos no Brasil é chamada de couve de cortar e é vendida já cortada em tiras em sacos plásticos. Afinal a vida aqui também se moderniza. Outras couves são couve pão-de açúcar, troncha, penca sempre variando nelas a cor e textura das folhas. Algumas  são ornamentais o que vou aprender quando começar a preparar nosso jardim.









O chouriço é diferente assim como o que chamamos paio. Usei chouriço. O tempo é sempre experimental, porque os produtos são mais duros em geral e o fogão a gás tenho que conhecer melhor em relação ao tempo de cozimento.  As receitas portuguesas usam o chouriço cru colocado no fim. Preferi a nossa brasileira em que o chouriço cortado é cozido no azeite extra-virgem. Sabia que estava ficando bom pelo cheiro reconhecido.

Nosso caldo verde nessa linda louça da feira de Estremoz.
Na realidade o caldo verde ficou mais-que-perfeito. Cheiro, sabor e aspecto. Com torradas finas de
pão pesado português e nosso vinho em caixa de 5 litros, barato e bom como bolo-de-goma.
Serviu para duas noites (o caldo verde, não o vinho que não bebemos tanto). Apesar de ter casa aqui há sete anos Jan provou (e adorou) o caldo verde pela primeira vez.

Outra noite fiz camarões grandes ao óleo e alho, com brócolis na manteiga e um creme de batatas delicioso, com molho bechamel (também feito pela primeira vez) e queijo tipo "ementhal". Não parecia uma boa combinação que no entanto ficou deliciosa. 

Atenção Paulinho Mansuino meu neto "gourmet". Posso mandar a receita.

No primeiro dia fiz arroz à brasileira para acompanhar uma carne de filé de porco vinda da Holanda com couve de bruxelas. 

E no segundo dia do caldo verde um croque monsieur perfeito. Dá para me considerar uma boa cozinheira e nem preguiça tenho que à noite estou sempre com fome. De dia belisco um pouco, pão com queijo, pão com patê de atum. Jan toma café e seguindo um ritual holandês toma cerveja a partir de cinco horas da tarde.

Não trabalho sozinha porque quando cozinho ele lava a louça. Jan é metódico e mais arrumado. Quando ele cozinhar certamente vou eu lavar a louça.

Adoramos depois do jantar, quando a temperatura cai, sentar à meia sombra da palmeira na frente da casa, numa mesa de ferro verde inglês, com cadeiras confortáveis de vime. Nessa hora o sol começa a se por no horizonte e o ocaso é avermelhado como todos os ocasos sem nenhum drama. Um ocaso discreto de todos os dias ao som de grilos e da passarada. Aí servimos vinho do porto com queijo São Jorge e marmelada. Essa é a única hora em que não precisamos de música porque a natureza sozinha é o bastante. Falamos de coisas comuns e damos muitas risadas. Por que o humor de Jan é agudo e preciso e de qualquer coisa ele faz uma anedota. 
Agora mesmo está perguntando o que estou fazendo e sabendo da minha escrita está brincando que vou ser mais famosa que ele que vai escrever aqui, nesse quase paraíso, o melhor livro do mundo, como ele diz, que só nós dois vamos ler.

Depois dessa hora crepuscular, romântica e trivial voltamos à nossa mesa na cozinha para esperarmos a hora do sono chegar e com ele além do repouso os sonhos que embalam nosso futuro.
























































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