domingo, 19 de julho de 2015

PARTE VI - TANGOS, MILONGAS E ENFADOS

Nessa noite estávamos sentados no que vai ser nossa varanda mas que hoje é apenas um local de sombra, com uma coberta verde sobre a armação de metal e chão batido de areia e pedras. Duas portas de metal que vão sair. Duas cadeiras confortáveis de vime preto, com almofada preta no assento e de listas pretas e brancas como apoio para recostar. Uma pequena mesa de bar e um tapete redondo de palha compõem esse recanto. "For the time being", com ele sempre diz. Quase tudo é agradavelmente temporário.

Jan preparou esse cenário para nossa primeira ceia ao ar livre há duas noites atrás. Ele gosta de arrumar a mesa enquanto cozinho e me surpreendeu com esse romantismo improvisado. Eram quase nove horas da noite e o dia ainda estava claro. Para dar um toque de graça ao ambiente coloquei uma enorme cesta de vime completamente lotada de flores chinesas que vão ser descartadas. Pensamos em colocá-las plantadas no chão em pequenos molhos para aguá-las como se fossem flores de um jardim cultivado.    

Gabriela, nossa querida vizinha, sempre está de manhã e à tardinha às voltas com as flores de seu

Cesta de flores na paisagem árida.
quintal. Rimos pensando nela aguando essas flores, muitas presentes de amigos hóspedes a quem Jan pediu de lembrança as flores mais feias da enorme loja chinesa de Estremoz.

Os tangos vinham do fantástico som redondo do Zeppelin Air da Bowers & Wilkins, tocando nossa coleção de músicas de meio tera.
Astor Piazzola repetidamente plangente em Milonga del Angel. Uma vontade de voltar a Buenos Aires, dessa vez com meu amor tardio e andar por suas calçadas à noite parando nos cafés para tomar um porto.




Lembrei também do dia em que fomos, eu e meu grupo de amigos num congresso, a um clube de tango absolutamente decadente, onde velhos engomados e senhoras cheias de maquiagem ensinavam os visitantes a dançar.

Quando estamos juntos contamos histórias um ao outro. Velhas lembranças, velhas memórias.

Algumas num lugar especial, num castelo para os momentos mágicos, aqueles que não vamos nunca esquecer.

Ouvimos música o tempo todo. Muitas vezes Ary Barroso, paixão desse meu holandês. Música clássica, bossa nova, músicas de rádio vindas de Portugal ou da Holanda. Tudo passa pelo Zeppelin. Até a decoração da outra metade da sala, vai centrar na colocação dessa nossa paixão
comprada na celebração da aposentadoria de Jan.




Vida mansa essa de aposentados ou reformados como se diz aqui. Eu trabalho todas as manhãs pela Internet. Estou em três meses de licença sabática. Mas não temos maiores compromissos a não ser o de decidir o que fazer cada dia. Ou o que fazer para o jantar.

Continuamos nossa arrumação sempre um pouco em cada dia e ontem colocamos as cortinas do meu quarto, as que tinha trazido do Brasil. Brancas de um linho fino. Maravilhosas essas cortinas brancas de um romantismo tardio.

E no meio da arrumação subitamente descobri o sabor das cerejas frescas.
Cerejas, minhas jaboticabas em Portugal.

Da mesma forma que um dia andando pelos arredores senti o cheiro de figos e lá estavam os figos, maduros, esperando para serem colhidos e saboreados. Essas descobertas dos sentidos, sabores e cheiros, dão sentido à nossa vida no campo. Para Jan principalmente o som dos grilos ao entardecer, o murmurinho dos pássaros e o canto das cigarras à noite.
Para nós dois o brilho das estrelas no céu absolutamente limpo.





Nesse dia do jantar ao ar livre o maior pensamento foi: se isso não é qualidade de vida o que mais pode ser?

Tangos e milongas explicados faltou falar dos enfados. Enfados? Que enfados? Assim como os fados ausentes porque são principalmente nostalgia.
Nosso amigo o Zeppelin fotografado em Arnhem, Holanda, mas já  funcionando em Evoramonte.





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