sexta-feira, 10 de julho de 2015

PARTE I - A CHEGADA



No aeroporto de Lisboa - pronta para a aventura.
Chegar em Lisboa – sozinha – com quatro malas pesadas e mais duas mochilas de mão (uma de por nas costas) é quase que absolutamente impossível. Duas malas de quase 32kg e duas de 23kg. Não tinha forças para colocar uma em cima da outra e nem achei pessoas para ajudar. Assim tinha três carros cheios e pesados para percorrer uns 300 metros até a saída. Andava com um 50 metros, voltava, pegava o segundo e por aí fui levando. Num momento estava lá um guarda me esperando – bagagem desacompanhada. Tinha soado um alerta. Passei na alfândega na porta do nada a declarar. Com as primeiras duas malas. Voltei para pegar a terceira. Quando passei de novo pela terceira vez o guarda perguntou: Tanta bagagem? De onde vens. De Recife, para a casa do meu noivo em Evoramonte. Estou trazendo todas as cortinas. Ele sorriu simpático e acenou tudo bem.
Já tinha visto a carinha de Ana Cláudia me esperando. Que alívio. Ela e a cunhada entraram para me ajudar. Aí um segundo guarda me disse: “não faça mais isso de deixar bagagem desacompanhada.” Eu falei: “primeira e última vez.”
Estava jovial, de calça jeans destruída – um bom apelido para rasgada – jaqueta idem e panamá amarelo. Disse que chegaria assim, símbolo de aventura ou de uma juventude tardia.
Jan estava chegando e fui ao seu encontro. Ana Cláudia e sua cunhada cuidaram de levar as malas para o carro onde Júnior esperava. Quanta amabilidade e calor brasileiro em Lisboa. Ainda nos levaram no hotel. Hotel Borges no Chiado. Talvez o melhor endereço de Lisboa. Junto de “A Brasileira”, o café com a estátua de Fernando Pessoa. Onde todos os turistas param para tirar fotos. Esperando para entrar no hotel, apenas com nossas malas normais (Ana Cláudia levou as outras para um depósito) começamos logo com uma bica, sangria, pastéis de Belém e trouxinha de ovos. Para sentirmos o sabor lisboeta. O garçom era o mesmo de outros carnavais ou de outras visitas.
Jan Kremer e eu no saguão do Hotel Borges, em Lisboa.
Adoramos o Chiado. O contínuo passar de turistas e lisboetas, as roupas leves de verão dos viajantes, os casais, as famílias. Os trabalhadores de ternos. Os homens são sempre aqui mais elegantes e bem vestidos que as mulheres nativas.











O Hotel Borges é um hotel tradicional, antigo com os balcões estreitos típicos de Lisboa, um balcão em cada quarto.
Jan no balcão de nosso quarto.
Fizeram uma reforma e destruíram a beleza da entrada agora com péssimo gosto modernista e um abuso de mármores e espelhos. Talvez a melhor localização de Lisboa entre “A Brasileira” e um outro excelente bar/restaurante. Com tendas na calçada (esplanada) para dar sombra e ventiladores de pé para melhorar o calor. De dia vai a 41º mas de noite cai para 20º.  Não queríamos ser turistas mas fomos. Falando inglês e deslumbrados. A cidade sempre encanta. Adoro as ruas estreitas, as ladeiras que só sobem e nunca descem. Os telhados, o casario, a vista do Tejo. Compramos cerveja, vinho, vinho do porto, pão, queijo, presunto serrano para lanches no hotel. De noite comi um filé a Cordon Bleu. Nesse local, chamado Benard, o empanado era uma mistura forte com alho. Não esqueci o R, o nome é mesmo Benard. Passei dois dias cheirando a alho pelo hálito e pelos poros. Sangria é algo da minha infância e de todas as festas. Em lindas poncheiras de cristal, servidas em conchas de cristal. Todos os dias senti o gosto da sangria e da infância, saboreando os pedaços de maçã e de laranja para chupar o vinho.

Na frente do Benard com a placa Bastardô!
Na vitrine do Benard tinha uma placa onde estava escrito em letras garrafais: Bastardô. Estava curiosa e soube quando tomamos o vinho da casa. Era o nome do vinho, que você tem que pronunciar come se gritasse: bastardoooo.....

Todos os outros dias se misturam na memória com as andanças sem turismo, o estar no meio do burburinho das esplanadas em frente ao hotel. Havia uma banda tocando músicas portuguesas, brasileiras ou cubanas. Começavam sempre às 7 da noite e iam até tarde. Havia uma moça estranha, magra, quase feia, sem graça, com o cabelo preso num coque mal feito, vestida com um “legging” cor de jeans manchado que vi na HM por dez euros, uma camiseta rosa claro por cima de uma azul bebê. Tênis enormes brancos com azul e rosa para combinar. Dançava de uma maneira estranha, rodopiando, saltando, movimentando o corpo mais uma malabarista que uma dançarina, rindo para o público, vendendo CD do grupo e coletando dinheiro. O grupo se chama “Mestiçu”, assim mesmo, não está errado e no domingo tinha uma linda cantora de fado que dançava e às vezes tirava os sapatos e ficava descalça na rua.
O grupo Mestiçu e a cantora de fado.
Estávamos jantando em 2 de julho celebrando o aniversário de Jan exatos 30 dias após. Pedi que tocassem parabéns e eles o fizeram. Uma trela brasileira e uma risada pelo inesperado de um holandês absolutamente surpreso. Rimos e nos divertimos animados por uma garrafa de vinho.
Surpreso com a festa improvisada.
Andamos de “tuk-tuk” uma invenção que tem enfurecido os taxistas lisboetas. Sem razão, já que não se anda nesse carrinho pequeno puro sacolejo mais de uma vez. Além de que é caro. Mas estávamos adolescentes e fomos do Chiado a Belém. Em geram são jovens mulheres estrangeiras que se apaixonaram por Lisboa. A nossa motorista era italiana. Os homens também são assim jovens de outros países. Eles cantam a beleza da aventura e a destreza da direção. É uma maneira de ver melhor a cidade. 
Delícia esse tuk-tuk.
A motorista fotografando o deslumbramento nosso.
Não visitamos os locais lindos da área que já conhecíamos mas andamos pela praça em frente ao mosteiro de São Jerônimo e ao longo do caís, ao longo do Tejo, embaixo da ponte 25 de abril. Aquela que era Ponte Oliveira Salazar e que perdeu o nome e a ditadura nessa noite há um bom tempo atrás.







Parques lindos em nossas andanças.
Estava já avistando a cidade e seu casario, achando que íamos chegar ao Chiado numa andada só.

Uma bela marina.
Antes da ponte chegamos a um clube de veleiros e a um cais de restaurantes enfileirados com seus turistas, velejadores, menus afixados na entrada. Não escolhemos. Por instinto sentamos no mais vazio e menos sofisticado para montes de batatas fritas, camarões e hambúrguer. Dá para adivinhar para quem? Não sou eu a que gosta de hambúrgueres.





A ponte 25 de abril.


















No sábado tínhamos um casamento às 4 da tarde em Palmela, numa quinta chamada dos Corvos. Primeiro os preparativos de festa, depois a mudança. Terno, gravata, vestido preto, cabelos presos e maquiagem.  Queríamos também fora prestigiar nossos amigos conhecer as tradições de uma boda portuguesa. Uma agradável surpresa pelo clima de alegria, pela abundância de bebidas e comidas típicas, pela sabedoria de trocar milhares de flores pela natureza e pela recepção em si. O altar para o civil no jardim. Noivos felizes, famílias felizes. Mesas de torresmo, chouriços, favas brancas, bolinhos de bacalhau e pataniscas. Jantar em grandes mesas redondas reservadas com os nomes dos convidados e nominadas por datas especiais do casal de noivos.
Anuska, Pedro e nós.
Bolo, fogos de artifício, música e dança. Interessante ver a mistura de trajes de gala e de roupas extremamente simples. Sem código de vestimenta para as mulheres. Mas sim para os homens. Na nossa mesa os pais da noiva e atuais vizinhos de Evoramonte.  Um deles livreiro agora aposentado especializado em encadernação de livros. Esse queremos visitar e conhecer seu trabalho.
Uma coisa muito estranha foi que os noivos passaram todo o tempo do jantar sentados numa mesa retangular coberta de branco, com algumas flores rosa na frente, em duas cadeiras altas e muito feias, também brancas. Olhando a festa como se fossem rei e rainha num salão medieval. O jantar tinha menu especial, começando com um creme francês de alho-porró, peixe delicioso com batatas, um sorbet de lima para tirar o gosto dos primeiros pratos, carne de porco preto do Alentejo. E uma sobremesa de chocolate que não provei.

Falando em livros e livreiros, escritores e leitores, nossa primeira compra foi uma bela estante no “El Corte Inglés”. Nosso plano que era uma estante simples e branca da Ikea formando uma parede de livros foi facilmente trocado por essa estante imponente de 2,30m de altura com escada para as prateleiras mais altas.
Acho que a sala agora vai girar em torno da estante que estamos esperando. Só com ela montada podemos arrumar os livros, esvaziar a garagem cheia de caixas e trazer os móveis para começar a decoração. Mas como sempre começo  de uma forma inusitada já tenho dois lindos vasos com lindas plantas para dar vida à casa.

Falando em decoração visitamos o belo apartamento de Carol e Sérgio, minha sobrinha prima bonita. Acho que Sérgio e Jan se deram muito bem e conversaram horas diante da paisagem mais linda da cidade. Da sala e da varanda a vista do Tejo, do castelo de São Jorge, dos telhados e das praças, dos prédios e das varandas-balcões que dão identidade a essa área antiga. O apartamento deles é um sonho de lindo. Muito branco, muito claro, quase minimalista. Pensado nos mínimos detalhes.

Nosso taxista predileto, o único da pequena vila de Evoramonte nos pegou no aeroporto trazendo minhas quatro malas, uma de Jan, sacolas, revistas, livro roteiro de Fernando Pessoa em Lisboa, guardado para outra visita a essa linda cidade. De novo Ana Cláudia e Júnior nos encontraram com nossas bagagens extra e com elas enchemos a mala do carro e partimos. Estrada afora.

Senhor Bolas tem saudades de Salazar e da prosperidade no campo naquela época em que havia trigais e produção de pão no Alentejo. Hoje o campo é árido na maior parte da estrada. Mas é o local das vinícolas e dos roteiros históricos com suas cidades antigas, pousadas e castelos.

Chegamos em casa, acolhedora, limpa e ainda vazia. O coração da casa está na cozinha, o bem estar nas suas paredes grossas que isolam do calor enorme e do frio no inverno. Os costumes são um aprendizado. Não abrimos as janelas na hora do calor para que a temperatura fique de fora. Abrimos as portas e janelas à noite para que o frio se acomode. Passamos de 35 a 40 graus com sol a pino a cerca de 16 a 20 graus à noite. Um céu azul lindo, a vista dos campos, algumas flores brotando do solo seco, árvores, o riacho que não tem água e por isso não canta, o tempo que passa devagar, a música o tempo todo, o ficar do lado de fora à noitinha, vendo o sol se por, esse ocaso avermelhado que se vai devagar acompanhado pelos grilos, cigarras e trinado de pássaros.

Adoramos essa casa. Todo dia um perfeito dia. Cozinhar e comer o que você desejou e fez. Ontem fiz meu primeiro caldo verde com a couve que não era a portuguesa certa mas a que parecia ser a certa, o chouriço que ficou macio, o fogo que é sempre lento. Ficou delicioso e me senti um pouco portuguesa e camponesa. Mas pedi a Jan hoje que quando me visse ficando feia sem a vaidade própria da cidade me avisasse que pretendo continuar a que sou, feliz, saudosa do Brasil mas sempre arrumada para sair.

Acordamos de manhã com um fresquinho que me lembra o Sítio do Picapau Amarelo. Molly está sempre na porta esperando para ter comida. Molly é nossa gata meio siamesa, com olhos azuis e uma cor entre um branco e um bege amarelado com manchas marrom. Ela acorda Jan miando baixinho no parapeito da janela. O café é feito à brasileira e por Jan. Às vezes como alguma coisa, outras vezes só tomo café. De manhã é a melhor hora para trabalhar arrumando coisas o que não tem progredido muito até agora. Esperando as estantes que chegaram e são mais altas que a parede. Acho que vai ter uma boa solução. Nós dois tão entusiasmados com as estantes esquecemos de ver as medidas exatas. Ontem à noite começamos a ficar preocupados. Mas sempre há um jeitinho para dar. Deixar afastada da parede que o telhado é em declínio. Cortar um pouco em cima diminuindo a última prateleira. É tão linda que não importa, num tom verde escuro meio inglês, com puxadores de latão bronze e local para fichas também em latão em cada prateleira.

A solução já foi dada: uma espécie de capitel que nem era tão bonito não vai ser colocado e a estante vai ficar a 10 cm da parede o que permite limpar melhor. Estou feliz de ser tão otimista. Jan estava sem querer olhar, com medo de ter que devolver a estante mais linda que já tivemos.

Por enquanto a casa está ainda uma bagunça exceto a cozinha e as camas. Mas já descobri uma sombra no que vai ser um terraço com bambus. Lá o celular funciona. O banheiro é limpo e o chuveiro muito bom. Água quentinha e abundante. Mas ainda não achei minhas coisas de mulher vaidosa. Nem minha escova de cabelo sei onde está. Repito que já pedi a Jan que quando começasse a parecer com uma camponesa alentejana me avisasse porque não quero perder minha vaidade e meu vestir.



2 comentários:

  1. Prima,
    Que aventura a sua chegada e a sua acomodação, ainda em andamento. Verdadeira odisséia e um exemplo do bom viver. Estou deslumbrada com tantos detalhes. Você descreveu tão bem que até parece estarmos vivenciando.
    Achei ótimo você não querer perder seu jeito de mulher vaidosa, linda sempre. Tudo parece maravilhoso. Estão vivendo uma fase de juventude, quase adolescência. Isso é bom, muito bom. Fiquei encantada e compreendi o quanto a vida é bela. Sejam muito felizes!!!!
    Beijos, sua prima Eliana

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  2. Vamos ter não só o livro de Jan mas o de minha. querida coleguinha ;seu texto e de leitura muito agradável descreve cenas e até sentimentos de forma muito próxima da realidade vivida de modo q prende o leitor! Sgestao de título. Memórias Alentejanas- um sonho feito de realidade!!!! Bj para os dois! Selma

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