| No aeroporto de Lisboa - pronta para a aventura. |
Já tinha visto a carinha de Ana Cláudia me
esperando. Que alívio. Ela e a cunhada entraram para me ajudar. Aí um segundo
guarda me disse: “não faça mais isso de deixar bagagem desacompanhada.” Eu
falei: “primeira e última vez.”
Estava jovial, de calça jeans destruída –
um bom apelido para rasgada – jaqueta idem e panamá amarelo. Disse que chegaria
assim, símbolo de aventura ou de uma juventude tardia.
Jan estava chegando e fui ao seu encontro.
Ana Cláudia e sua cunhada cuidaram de levar as malas para o carro onde Júnior
esperava. Quanta amabilidade e calor brasileiro em Lisboa. Ainda nos levaram no
hotel. Hotel Borges no Chiado. Talvez o melhor endereço de Lisboa. Junto de “A
Brasileira”, o café com a estátua de Fernando Pessoa. Onde todos os turistas
param para tirar fotos. Esperando para entrar no hotel, apenas com nossas malas
normais (Ana Cláudia levou as outras para um depósito) começamos logo com uma
bica, sangria, pastéis de Belém e trouxinha de ovos. Para sentirmos o sabor
lisboeta. O garçom era o mesmo de outros carnavais ou de outras visitas.
| Jan Kremer e eu no saguão do Hotel Borges, em Lisboa. |
O Hotel Borges é um hotel tradicional, antigo com os balcões estreitos típicos de Lisboa, um balcão em cada quarto.
| Jan no balcão de nosso quarto. |
| Na frente do Benard com a placa Bastardô! |
Todos os outros dias se misturam na memória
com as andanças sem turismo, o estar no meio do burburinho das esplanadas em
frente ao hotel. Havia uma banda tocando músicas portuguesas, brasileiras ou
cubanas. Começavam sempre às 7 da noite e iam até tarde. Havia uma moça
estranha, magra, quase feia, sem graça, com o cabelo preso num coque mal feito,
vestida com um “legging” cor de jeans manchado que vi na HM por dez euros, uma
camiseta rosa claro por cima de uma azul bebê. Tênis enormes brancos com azul e
rosa para combinar. Dançava de uma maneira estranha, rodopiando, saltando,
movimentando o corpo mais uma malabarista que uma dançarina, rindo para o
público, vendendo CD do grupo e coletando dinheiro. O grupo se chama “Mestiçu”,
assim mesmo, não está errado e no domingo tinha uma linda cantora de fado que
dançava e às vezes tirava os sapatos e ficava descalça na rua.
| O grupo Mestiçu e a cantora de fado. |
Estávamos jantando em 2 de julho celebrando
o aniversário de Jan exatos 30 dias após. Pedi que tocassem parabéns e eles o
fizeram. Uma trela brasileira e uma risada pelo inesperado de um holandês
absolutamente surpreso. Rimos e nos divertimos animados por uma garrafa de
vinho.
| Surpreso com a festa improvisada. |
Andamos de “tuk-tuk” uma invenção que tem
enfurecido os taxistas lisboetas. Sem razão, já que não se anda nesse carrinho
pequeno puro sacolejo mais de uma vez. Além de que é caro. Mas estávamos
adolescentes e fomos do Chiado a Belém. Em geram são jovens mulheres
estrangeiras que se apaixonaram por Lisboa. A nossa motorista era italiana. Os
homens também são assim jovens de outros países. Eles cantam a beleza da
aventura e a destreza da direção. É uma maneira de ver melhor a cidade.
Não
visitamos os locais lindos da área que já conhecíamos mas andamos pela praça em
frente ao mosteiro de São Jerônimo e ao longo do caís, ao longo do Tejo,
embaixo da ponte 25 de abril. Aquela que era Ponte Oliveira Salazar e que
perdeu o nome e a ditadura nessa noite há um bom tempo atrás.
![]() |
| Delícia esse tuk-tuk. |
![]() |
| A motorista fotografando o deslumbramento nosso. |
![]() |
| Parques lindos em nossas andanças. |
| Uma bela marina. |
![]() |
| A ponte 25 de abril. |
No sábado tínhamos um casamento às 4 da tarde em Palmela, numa quinta chamada dos Corvos. Primeiro os preparativos de festa, depois a mudança. Terno, gravata, vestido preto, cabelos presos e maquiagem. Queríamos também fora prestigiar nossos amigos conhecer as tradições de uma boda portuguesa. Uma agradável surpresa pelo clima de alegria, pela abundância de bebidas e comidas típicas, pela sabedoria de trocar milhares de flores pela natureza e pela recepção em si. O altar para o civil no jardim. Noivos felizes, famílias felizes. Mesas de torresmo, chouriços, favas brancas, bolinhos de bacalhau e pataniscas. Jantar em grandes mesas redondas reservadas com os nomes dos convidados e nominadas por datas especiais do casal de noivos.
![]() |
| Anuska, Pedro e nós. |
Uma coisa muito estranha foi que os noivos
passaram todo o tempo do jantar sentados numa mesa retangular coberta de
branco, com algumas flores rosa na frente, em duas cadeiras altas e muito
feias, também brancas. Olhando a festa como se fossem rei e rainha num salão
medieval. O jantar tinha menu especial, começando com um creme francês de
alho-porró, peixe delicioso com batatas, um sorbet de lima para tirar o gosto
dos primeiros pratos, carne de porco preto do Alentejo. E uma sobremesa de
chocolate que não provei.
Falando em livros e livreiros, escritores e
leitores, nossa primeira compra foi uma bela estante no “El Corte Inglés”.
Nosso plano que era uma estante simples e branca da Ikea formando uma parede de
livros foi facilmente trocado por essa estante imponente de 2,30m de altura com
escada para as prateleiras mais altas.
Acho que a sala agora vai girar em torno da
estante que estamos esperando. Só com ela montada podemos arrumar os livros,
esvaziar a garagem cheia de caixas e trazer os móveis para começar a decoração.
Mas como sempre começo de uma forma inusitada já tenho dois lindos vasos com lindas plantas para dar vida à casa.
Falando em decoração visitamos o belo
apartamento de Carol e Sérgio, minha sobrinha prima bonita. Acho que Sérgio e
Jan se deram muito bem e conversaram horas diante da paisagem mais linda da
cidade. Da sala e da varanda a vista do Tejo, do castelo de São Jorge, dos
telhados e das praças, dos prédios e das varandas-balcões que dão identidade a
essa área antiga. O apartamento deles é um sonho de lindo. Muito branco, muito
claro, quase minimalista. Pensado nos mínimos detalhes.
Nosso taxista predileto, o único da pequena
vila de Evoramonte nos pegou no aeroporto trazendo minhas quatro malas, uma de
Jan, sacolas, revistas, livro roteiro de Fernando Pessoa em Lisboa, guardado
para outra visita a essa linda cidade. De novo Ana Cláudia e Júnior nos
encontraram com nossas bagagens extra e com elas enchemos a mala do carro e
partimos. Estrada afora.
Senhor Bolas tem saudades de Salazar e da
prosperidade no campo naquela época em que havia trigais e produção de pão no
Alentejo. Hoje o campo é árido na maior parte da estrada. Mas é o local das
vinícolas e dos roteiros históricos com suas cidades antigas, pousadas e
castelos.
Chegamos em casa, acolhedora, limpa e ainda
vazia. O coração da casa está na cozinha, o bem estar nas suas paredes grossas
que isolam do calor enorme e do frio no inverno. Os costumes são um
aprendizado. Não abrimos as janelas na hora do calor para que a temperatura
fique de fora. Abrimos as portas e janelas à noite para que o frio se acomode.
Passamos de 35 a 40 graus com sol a pino a cerca de 16 a 20 graus à noite. Um céu
azul lindo, a vista dos campos, algumas flores brotando do solo seco, árvores, o
riacho que não tem água e por isso não canta, o tempo que passa devagar, a
música o tempo todo, o ficar do lado de fora à noitinha, vendo o sol se por,
esse ocaso avermelhado que se vai devagar acompanhado pelos grilos, cigarras e trinado de
pássaros.
Adoramos essa casa. Todo dia um perfeito
dia. Cozinhar e comer o que você desejou e fez. Ontem fiz meu primeiro caldo
verde com a couve que não era a portuguesa certa mas a que parecia ser a certa,
o chouriço que ficou macio, o fogo que é sempre lento. Ficou delicioso e me
senti um pouco portuguesa e camponesa. Mas pedi a Jan hoje que quando
me visse ficando feia sem a vaidade própria da cidade me avisasse que pretendo
continuar a que sou, feliz, saudosa do Brasil mas sempre arrumada para sair.
Acordamos de
manhã com um fresquinho que me lembra o Sítio do Picapau Amarelo. Molly está
sempre na porta esperando para ter comida. Molly é nossa gata meio siamesa, com
olhos azuis e uma cor entre um branco e um bege amarelado com manchas marrom.
Ela acorda Jan miando baixinho no parapeito da janela. O café é feito à
brasileira e por Jan. Às vezes como alguma coisa, outras vezes só tomo café. De
manhã é a melhor hora para trabalhar arrumando coisas o que não tem progredido
muito até agora. Esperando as estantes que chegaram e são mais altas que a
parede. Acho que vai ter uma boa solução. Nós dois tão entusiasmados com as
estantes esquecemos de ver as medidas exatas. Ontem à noite começamos a ficar
preocupados. Mas sempre há um jeitinho para dar. Deixar afastada da parede que
o telhado é em declínio. Cortar um pouco em cima diminuindo a última
prateleira. É tão linda que não importa, num tom verde escuro meio inglês, com
puxadores de latão bronze e local para fichas também em latão em cada
prateleira.
A solução já
foi dada: uma espécie de capitel que nem era tão bonito não vai ser colocado e
a estante vai ficar a 10 cm da parede o que permite limpar melhor. Estou feliz
de ser tão otimista. Jan estava sem querer olhar, com medo de ter que devolver
a estante mais linda que já tivemos.
Por enquanto
a casa está ainda uma bagunça exceto a cozinha e as camas. Mas já descobri uma
sombra no que vai ser um terraço com bambus. Lá o celular funciona. O banheiro
é limpo e o chuveiro muito bom. Água quentinha e abundante. Mas ainda não achei
minhas coisas de mulher vaidosa. Nem minha escova de cabelo sei onde está. Repito que já
pedi a Jan que quando começasse a parecer com uma camponesa alentejana me avisasse
porque não quero perder minha vaidade e meu vestir.





Prima,
ResponderExcluirQue aventura a sua chegada e a sua acomodação, ainda em andamento. Verdadeira odisséia e um exemplo do bom viver. Estou deslumbrada com tantos detalhes. Você descreveu tão bem que até parece estarmos vivenciando.
Achei ótimo você não querer perder seu jeito de mulher vaidosa, linda sempre. Tudo parece maravilhoso. Estão vivendo uma fase de juventude, quase adolescência. Isso é bom, muito bom. Fiquei encantada e compreendi o quanto a vida é bela. Sejam muito felizes!!!!
Beijos, sua prima Eliana
Vamos ter não só o livro de Jan mas o de minha. querida coleguinha ;seu texto e de leitura muito agradável descreve cenas e até sentimentos de forma muito próxima da realidade vivida de modo q prende o leitor! Sgestao de título. Memórias Alentejanas- um sonho feito de realidade!!!! Bj para os dois! Selma
ResponderExcluir