terça-feira, 4 de agosto de 2015

PARTE X - CADA DIA É UM DIA

Quase todos os dias são bem parecidos. E bem trabalhosos ou produtivos. Acordo primeiro e espero Jan acordar para o café feito à moda brasileira com coador esperando o cheiro que impregna a cozinha. Algumas vezes saímos para andar nessa paisagem íngreme, árida e bucólica. Mas nosso objetivo é o de simplesmente descartar o lixo, na lixeira colocada na estrada para Évora Monte. Saímos pela estradinha estreita de pedras brancas e eu sinto logo o cheiro dos figos crescendo em quatro ou cinco árvores no ínico do caminho. Estão ainda verdes e estou esperando que amadureçam para experimentá-los.
Os figos que estou observando todos os dias.
Caminhamos sempre subindo e parando pelo menos umas quatro vezes. Nessa hora ainda é muito fresco e na maior parte dos dias o céu é profundamente azul e sem nuvens.

No caminho passamos por árvores de rolhas de onde tiram a cortiça a cada dez ou onze anos. Por isso as rolhas estão desaparecendo e dando lugar a essas rolhas de plástico sem nenhuma distinção. Elas são datadas, as árvores, para que não sejam descascadas prematuramente.





Árvore de rolhas das antigas e belas.

A primeira encruzilhada está marcada com duas setas de madeira: Quinta do Serafim e Monte da Fazenda onde nossa casa fica.

Não tem grama mas chão seco e raras flores amarelas campestres e vagabundas, balouçando ao vento. Incrível como as árvores são frondosas e verdes, às vezes agrupadas, às vezes esparsas.






Quinta do Serafim e monte da Fazenda.
Pelo caminho da Quinta do Serafim podemos chegar à Évora Monte, cortando o caminho da estrada, portanto por dentro dessa mata, mas sempre subindo. Sempre ladeiras subindo e raramente descendo o que configura para mim o grande mistério de Portugal, de Lisboa e daqui da Serra d'Ossa.

A aridez dos campos de deve à escassez de chuvas neese período do ano. Em outras épocas, depois das chuvas a paisagem é toda verde. Não há animais de criação no caminho, apenas vinheiras arrumadas de forma ordeira em filas paralelas intermináveis. Às vezes ouvimos vozes especialmente de mulheres cuidando da irrigação automática.

Um pequeno vinhedo perto de casa.
Ainda não vimos a colheita nem a festa do pisar as uvas para preparar o vinho. A pisa das uvas é sempre uma grande festa em várias cidades e aldeias produtoras de vinhos. Acontece sempre em setembro, época da vindima. Um lagar é montado e as famílias pisam as uvas ao som de música e em ambiente de festa, dando o primeiro passo para que destas se faça vinho.
Lagar é uma palavra que aprendi em Portugal. Em geral é um enorme tonel de madeira com cerca de 100m2 com 70cm de profundidade onde as uvas são jogadas para serem pisoteadas. Elas ficam sob processo de fermentação entre 3 e 10 dias para depois serem retiradas e filtradas.



Claro que esse é um processo de vinículas familiares que ainda mantém a velha tradição. O lagar também pode ser feito de pedra. Mas lagar também é o local onde existe um lagar para uvas ou azeitonas serem esmagadas na preparação do vinho e do azeite.

Nós dois juntos nos protegendo do sol.
Fazemos todo esse lindo trajeto falando pouco e gostando muito, às vezes de fôlego curto, parando na sombra. Olho as ladeiras pensando se vou chegar lá numa tirada. Mas sempre chego. Olhando para o chão de pedrinhas às vezes muito escorregadio. Não podemos andar de mãos dadas nessa estradinha.

São mais de 900m na ida e o mesmo na volta que no entanto, descendo mais que subindo, parece bem mais curta. Na volta temos a vista do castelo de Évora Monte à nossa direita, feio e imponente como um guardião.


Castelo de Évora Monte.

Digo feio mas solene e raro. Raro para uma brasileira é ter a vista de um castelo no seu caminho ou na sua varanda lembrando que você está em Portugal onde castelos são comuns na paisagem.










Esse céu azul esplendoroso. 
Essa mistura de cores dos tons de verde do arvoredo, do marrom claro da terra seca, desse céu azul sempre sem nuvens faz desse lugar um quase paraíso. Nas caminhadas mas também ao fim da tarde, na varanda, esperando o avermelhado do por-do-sol perto de nove horas das noite, ouvindo o som estridente das cigarras e de alguns pássaros. Jan sempre comenta se isso não é qualidade de vida o que mais pode ser. Qualidade de vida porque mesmo reclusos temos interesses e assuntos para conversar, discutir, leituras para as noites, a arrumação da casa e nossos jantares bem preparados.


Claro também passeamos e fazemos planos para outros verões com outras paisagens.

Na volta sempre paro para ver minhas flores amarelas mirradas dançantes.
Resistentes, florescendo nesse clima seco e nessa terra árida. Minha flor forte como uma sertaneja porque esse lugar lembra o clima do sertão sempre tórrido e quente durante o dia de verão e de um frio agradável à noite.








E mostro aqui nesse final a finalidade objetiva desse passeio romântico no campo: chegar na lata de lixo à beira da estrada.
Uma meta bem conhecida e nunca dobrada assim sem mais nem menos.

7 comentários:

  1. Bom exercício - o meu exercício aqui é a escada de Joca que subo e desço tanto que já faço melhor do que ele ou do que Lulu. Ainda estou arrumando minhas coisas e você parece jea está toda arrumada - um dia irei visita-la para ajudar no caminho do lixo e testar as minhas perns meio enferrujadas. Saudades muitas!

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  2. Prima: esse seu texto está maravilhoso. Tomamos conhecimento de tantas aventuras que lhes dão uma vida de qualidade. A felicidade está estampada. Deliciosos, se assim posso dizer, esses dias tão diferenciados e tão marcantes, em que , por si só, cantam o amor em prosa e verso!!..

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  3. Prima: esse seu texto está maravilhoso. Tomamos conhecimento de tantas aventuras que lhes dão uma vida de qualidade. A felicidade está estampada. Deliciosos, se assim posso dizer, esses dias tão diferenciados e tão marcantes, em que , por si só, cantam o amor em prosa e verso!!..

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  4. Prima: esse seu texto está maravilhoso. Tomamos conhecimento de tantas aventuras que lhes dão uma vida de qualidade. A felicidade está estampada. Deliciosos, se assim posso dizer, esses dias tão diferenciados e tão marcantes, em que , por si só, cantam o amor em prosa e verso!!..

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  5. Prima: esse seu texto está maravilhoso. Tomamos conhecimento de tantas aventuras que lhes dão uma vida de qualidade. A felicidade está estampada. Deliciosos, se assim posso dizer, esses dias tão diferenciados e tão marcantes, em que , por si só, cantam o amor em prosa e verso!!..

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  6. Prima: esse seu texto está maravilhoso. Tomamos conhecimento de tantas aventuras que lhes dão uma vida de qualidade. A felicidade está estampada. Deliciosos, se assim posso dizer, esses dias tão diferenciados e tão marcantes, em que , por si só, cantam o amor em prosa e verso!!..

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