domingo, 12 de julho de 2015

PARTE III - NOSSA ESTANTE VERDE

Como planejar uma estante, escolher e mudar tudo por amor à primeira vista. Prioridade número um para nossa casa alentejana era uma estante, cobrindo toda uma parede de 4,85m de largura com todos os livros de Jan que vieram da Holanda. Eram cerca de 40 caixas de 50cm3 cada.
Escolhemos um grupo de cinco estantes da Ikea, brancas, de 90cm cada. Acho que dois metros de altura. Fizemos um caderno com todas as ideias que tivemos e todos os recortes de revistas que gostamos.

Tinha visto também um catálogo do "El Corte Inglés" com móveis, objetos e rouparia simples e linda. Decidimos ir lá primeiro e em seguida ir à Ikea. Lisboa, exceto pelas ladeiras andando é fácil de locomoção pelo seu sistema excelente de metrô.

Vimos nessa loja a estante. Verde patinada, já falei antes. Com escada para as últimas prateleiras, um velho sonho de Jan. Mais cara do que tínhamos planejado. Na realidade estávamos na loja para procurar uma cama box.

Nossa estante ainda na loja.
Conversamos, discutimos com as arquitetas da loja, perguntamos sobre transporte, decidimos pensar e voltar depois. Mas amor à primeira vista é amor à primeira vista. Não tem volta. Een liefde op de eerste gezicht.

Decidimos: vamos esquecer qualquer outro móvel e comprar essa estante. O que fizemos. Só que esquecemos de medir de tão entusiasmados. Era uma sexta e a estante chegaria na quinta. Nesse dia Jan esqueceu o celular no hotel. Nenhum problema se iríamos estar juntos. Mas eu sou um  problema. Me perco o tempo todo, distraída, esqueço do tempo passeando. Fui comprar algo e...estava perdida, sem passe e sem dinheiro para o metrô. Andei quilômetros atrás de Jan, pensando em tomar um táxi quando ele me ligou. Muito prático. Sem mim pensou que teria que voltar ao hotel para me telefonar.
E voltou para me encontrar como se faz com uma criança perdida na rua. Pensei que ele estava zangado, achei que estava zangada porque ele tinha também desaparecido. No fim rimos da situação e prometemos nunca andar sem celular e eu nunca mais desgarrar.

Montes de caixas para abrir, cerca de trinta.
As caixas estavam enchendo uma espécie de garagem. Junto com móveis e roupas, tudo vindo da Holanda, da 48 Leoninusstraat, Arnhem.

Na véspera da chegada da estante, quando estávamos desocupados aproveitando o ar fresco da noitinha pensamos juntos: a estante vai caber na altura da parede? A sala tem um telhado antigo, em formato de V. E a altura da parede fica baixa no local previsto. Quase entramos em pânico. Comprada sem as medidas exatas. Mas só peru morre de véspera.


A chegada da estante perto de uma da tarde.
Adoro essa cor de céu azul pura e a paisagem seca. Esse perfil verde das árvores locais. 
Em volta temos muitas árvores de cortiça e azinheiras. Perto de Estremoz e de Évora campos de uvas. Acho que essa pequena árvore baixa é uma azinheira. Vamos aprender e apreender a natureza. 
A estante já colocada na parede, ainda vazia.









Não demorou mais de uma hora para tudo ficar pronto e decidirmos se ia para o centro ou para a direita como terminou ficando. No nosso lugar em Recife a sala gira em torno do quadro a óleo de uma paisagem italiana com amarelos dos trigais, tons de verde e avermelhados. Mesmo as cores da decoração combinam com os tons dessa pintura que amo.








O verde combina com a escrivaninha, a secretaria como Jan chama à portuguesa, com seu tampo de couro lavrado e a cadeira verde de espaldar alto.
Entre livros a maior parte em holandês.
No dia seguinte, que aqui ninguém é de ferro começamos a arrumação. Trabalho braçal de Jan, eu limpando um a um todos os livros. Tentando classificar por tamanho e por autores, poesia ou prosa.

Adoro livros. O cheiro de livros. Estar entre livros. Adoro também sentar no chão. Gostamos os dois de livros. Não nos desfazemos deles. Aqui posso cheirar poeira, talvez porque o clima é tão seco que não há mofo. Há aranhas sim. E quantas. Elas me odeiam, a mim e a nosso aspirador de aranhas. Qualquer dia acordo metamorfoseada numa enorme aranha preta nojenta subindo pegajosa pelas paredes brancas caiadas.

No sábado já iniciada a arrumação.

Hoje domingo foi o dia de terminar a sala e vou mostrar os primeiros resultados. Os livros cada um no seu lugar. Um tapete, a secretária, a cadeira. Os livros mais belos na frente, outros menos lidos escondidos por trás. Quase não havia espaço para todos. E são só os deles. Os meus, em Recife,  ocupam uma parede no escritório. Com uma estante e uma escada também.

Trabalhamos um bocado. Tomando água que dá sede estar nessa paragem. 

   
Agora que terminamos de arrumar, por hoje, paramos para sentar à sombra de uma lona verde muito feia mas que dá sombra imaginando estarmos na mais linda varanda do Alentejo, embaixo de um teto de bambus descendo para formar uma meia parede à direita, em frente ao mais lindo jardim da região, tomando cerveja, esperando para jantar. Vivendo um dia de cada vez saboreando a divina experiência de estar completamente feliz.



2 comentários:

  1. Prima,
    Essa experiência é quase ímpar. Você descreve bordando as palavras e ,por isso, dão um toque atrativo especial. Aventura de felicidade... Gosto de lhes ver assim. Que bom que a vida desenhou esse caminho para vocês. Muito Bom Domingo!!!! Beijos, Eliana

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  2. I loved reading this so much that I couldn't stop!! I love what you have done...the photos are great!

    Much love from your friend, Michelle xx

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