domingo, 30 de agosto de 2015

LISBOA - O DIA DOS TERRAÇOS - UMA VIVÊNCIA DE 2012.

LISBOA – DIA DOS TERRAÇOS

Esse era o dia da Torre de Belém e do pastel de nata. Como sempre os acontecimentos falam mais alto que os planos elaborados na noite anterior.

O dia sempre começa com o cheiro do café trazido do Brasil e muito forte.
Tão cedo que ficamos em casa fazendo hora para sair. Esse cedo na realidade era 9 horas.

Andamos para a estação Santa Apolônia, perto do Tejo onde as ladeiras atrás de cada curva são menos íngremes. Nessa direção o clima é a mistura de sol quente com brisa refrescante. Fresco também nas sombras. Calçadas estreitas onde andamos em fila. Nas largas andamos como adolescentes enamorados.
Era como já falei o dia de Belém. Mas resolvemos ir primeiro à XL Factory, no domingo com o XL Market funcionando. Queríamos o mesmo clima de Portobello Road em Notting Hill, Londres. Fomos de taxi o que permite ver a cidade incrivelmente pacata. Poucos carros na rua. Pessoas sem pressa. Alguns sentados nas calçadas em conversas de velhos.
O lugar é bonito, mas chegamos cedo demais. Poucas pessoas andando e sem as extravagâncias das feiras de outros locais. Poucas barracas também e poucas coisas interessantes para vender. Primeiro demos uma olhada geral. Jan disse deixemos os detalhes para depois. Aí vi o que iria comprar. 
Tem uma livraria de livros de segunda mão interessante com uma parede alta repleta de livros, com duas escadas e um corredor no alto.
A bela estante de livros na XL Factory.
Quem se lembra de Cinderela em Paris vai se lembrar desse tipo de livraria. 
Tenho fotos de lá também. Demos uma vista d’olhos nos livros expostos e sentamos para café (Jan), suco de laranja (eu) e claro pasteis de nata. Essa parada entre atividades para tomar café faz a gostosura de cada passeio.
Compramos livros. Todos os livros lá custavam 10 euros. Jan comprou algum de Fernando Pessoa, eu um livro de aprendendo filosofia em seis horas e meia que será perfeito para o tempo do avião na volta. 

Jan procurando livros interessantes.
 De tudo da feira gostei mais da tenda de panos africanos onde comprei um para a mesa dos sábados no almoço. Também comprei cadernos encapados e pegadores inúteis. Tinha caixas decorativas artísticas que eram quadros para parede e muito bonitas mas difíceis de carregar. Esqueci de dizer mas vocês podem ver nas fotos que Jan carrega sempre uma sacola, vermelha em Lisboa, onde colocamos tudo que compramos. 




E eu procurando também.



Cheirei sabonetes artesanais em barra que não me apeteceram. Olhei maxicolares e outras tantas bugigangas. Muitas tendas de roupas de segunda mão onde os jovens paravam para comprar. O clima bem menos animado que o das feiras de fim de semana.

A melhor ideia foi então sentar num bar, numa calçada, no primeiro dos terraços. Jan pediu cerveja e eu uma caipirinha. Quando perguntei de que fruta fiquei toda animada porque o garçon disse lima. Lima no português daqui é limão. Aí pensei em Paulinho e tentei até telefonar mas era dia de regata e ninguém me atendeu. Ou ainda era cedo e vocês, meus filhos, estavam a dormir.
Sentados num bar olhando o movimento.
Sentados no terraço de um bar você tem tempo de observar as pessoas e o ambiente. Na parede de uma das lojas que o local tem pequenos restaurantes, cafés, livrarias e casas de arte, vimos um enorme buraco na parede sem forma alguma, mostrando as entranhas de tijolos velhos. Ao lado uma figura de gesso de um bebê subindo a parede. Uma decoração imaginativa que o local é destinado a criação e à arte.

O buraco de tijolos na parede e o bebê escalando.





















Criativo e surpreendente.
Pastel de belém, o lugar mais famoso para essa iguaria.
Saímos atrás de uma taxi. Pedimos a Torre de Belém ao motorista, mas no caminho, conversando, desviamos para a Casa do pastel de Belém. Aí tinha gente, uma enorme fila de turistas para conseguir um lugar e o rabo da fila era longe da porta de entrada. Tirei uma foto e nenhum pastel. 








Mosteiro dos Jerónimos.
Fomos então para o Mosteiro dos Jerónimos que é uma construção branca verdadeiramente incrível e linda. Construído em homenagem ao Infante Dom Henrique pelo Rei D. Manuel I e doado à ordem dos Jerónimos é patrimônio da humanidade.  Toda a construção é do século XVI e os portais tem uma mistura de santos, arcanjos e nobres. O portal Sul mais luxuoso representa Nossa Senhora de Belém com o Menino, São Jerónimo com vestes de cardeal, como penitente no deserto, arrancando o espinho da pata do leão, uma multidão (de verdade), de profetas, apóstolos, doutores da Igreja e algumas santas. Ainda vemos lá o Infante Dom Henrique e o Arcanjo São Miguel.  A porta principal tem estátuas de São Jerónimo, do Rei D. Manuel I, da rainha D. Maria e de São João Batista, além de cenas do nascimento de Cristo. O mosteiro é também a Igreja de Nossa Senhora de Belém.  Para os que não conhecem vale a pena uma busca na Internet.




Sentada no portal principal da Mosteiro.

Outro ângulo dessa bela construção.
Fantástico esse mosteiro. Todos os ângulos são belos.

Jan na frente do mosteiro.

Foto à distância.
A praça que se abre em frente tinha uma alameda de árvores com flores lilás-azuladas e era convidativa a um passeio.  Fomos através dela até a margem do Tejo e aí estávamos no nosso ambiente preferido em Lisboa depois da Brasileira. O largo rio com cheiro de mar, marinas, praças, avenidas também largas e vazias, carros parados nas calçadas (estranhos portugueses), cafés com mesas do lado de fora. 








Jan atravessando, eu atrás fotografando.
E finalmente, depois de atravessarmos essa grande avenida por uma ponte estreita estávamos na Torre de Belém! Essa visita valeu a pena. A vista é indescritível, a construção é belíssima, suas janelas estreitas com vista para o rio-mar e suas praias do entorno de areia escura e pedras. Vários andares e muitos degraus para subir e mais facilmente descer. Pequenos canhões. O terraço com um muro típico de castelo/ fortaleza, fendas estreitas com largura para sentar. Eu sentei, Jan não gosta de alturas. Construída também em 1500 e alguma coisa é um baluarte de defesa à Lisboa. Foi o dia em que mais amei Lisboa.
Torre de Belém.


Na torre.  

Vendo o Tejo e a paisagem.
Abóbadas,

Jan, a vigia e o canhão.




































Incrível que pudemos assistir a uma regata triangular de barcos de oceano. Mais de cinquenta barcos e durou enquanto estivemos por lá. Depois de noite descobri que era também a comemoração da saída da Volvo. E o dia de Portugal. Não vimos esses fantásticos barcos e nem sabia deles. Mas a saída da regata, com tiro de largada dado pelo presidente de Portugal aconteceu ali, debaixo de nossos narizes, numa hora qualquer do dia que ignoramos porque lemos a notícia atrasados. A foto do jornal mostra o local do monumento aos descobridores e todo o cenário que estava ao nosso alcance. Santa ignorância. Perder essa largada porque não sabíamos.
Regata no Tejo.
Andando pela margem do Tejo chegamos ao segundo terraço-café do dia para uma cerveja e, claro, apesar de não combinar nada, pastel de nata para mim. Acho que foi o melhor que comi, esse lá em Belém.



Deixando a Torre para trás.
Monumento aos Descobrimentos.
Outra construção que se destaca na paisagem é o Monumento aos Descobrimentos ou Monumento aos Navegantes, construído na década de 40 e refeito e inaugurado em 1960. Essas paradas são boas para conversar e planejar o próximo passo, que foi, através dessas praças arborizadas chegar ao terceiro terraço-café. Não pensem que era uma andada de bêbados a procura de bares. Era sede e calor numa umidade altíssima. E também gastar o tempo e aproveitar essas férias gostosas. Tomamos cerveja ambos, de novo um pastel de nata com canela, observando as pessoas nas mesas, mais portugueses que turistas. Vale a pena acrescentar que os terraços-café são chamados de esplanadas e o que se pede neles é mais caro que o que se come dentro do restaurante ou no balcão. Vale a pena com certeza.

Rossio, em Lisboa.
Continuamos andando pelos jardins, atravessamos de volta todo esse caminho, voltando ao metrô para a praça Dom Pedro IV, mais conhecida como Rossio, centro de Lisboa para cafés, cervejas, restaurantes e compras.













PARTE XVII - OUTRO DIA EM ESTREMOZ

Outro dia em Estremoz, outra quinta-feira nessa cidade próxima cuja vista deslumbra aos olhos. As vinhas à beira da estrada, o castelo e suas muralhas ao alto.
A colina, o castelo e as vinhas.
Portugal tem em torno de 800 castelos. Cada colina tem seu castelo. Cada pequena cidade tem seu castelo, sempre num elevado. E o de Estremoz não é considerado dos mais bonitos.
Foi erguido sobre uma colina ao norte da serra de Ossa. Construído no século XII, tem na sua história além das batalhas constantes daquela época, o fato de que a Rainha Santa Isabel nele faleceu, no ano de 1336. Hoje esse castelo é uma linda pousada, a pousada da Rainha Santa Isabel que vale a pena visitar.
Cada colina tem seu castelo.

As vinhas nessa área são da vinícula João Portugal Ramos Vinhos, uma das grandes vinículas não só do Alentejo mas de outras regiões como Douro, Beiras e Tejo.








O Senhor Bolas chegou pontualmente às nove e meia para nos pegar com um pé de pimenta malagueta como tinha prometido e um saco de sementes de salsa que ensinou interminavelmente como plantar e quando regar. E no meio do caminho tinha um monte de pés de amoras pretas o que fez ele dissertar sobre o licor de amoras que a mulher dele faz, que demora semanas, que tem que decantar por longo tempo e que é delicioso. Dos figos ele sempre reclama que os estorninhos comem. Com ele descobri que temos marmelo na saída da casa. Nunca tinha visto um pé de marmelo, agora já sei até como fazem marmelada. A colheita é em final de setembro. Será que saberei fazer uma marmelada caseira?
Marmeleiro carregado de frutos.
Passando perto do castelo ele comentou como era fácil jogar pedras de dentro da construção nos soldados invasores fazendo nossa conversa em português e inglês passar para arietes, portas levadiças, fossos e azeite fervendo. Comentando a coragem dos que tentavam tomar o castelo e do seu provável insucesso.
Dai veio a história do anão. Ele é baixo, o Senhor Bolas, mas o anão, chamado pelos amigos de São João, era muito mais baixo e vivia ansiando por uma luta braba, das épocas medievais, mas só de murros, porque ele sempre escaparia por ser mais baixo que a altura dos socos. Tenho que rir ou desligar da conversa. Mas o que está fazendo o Senhor Bolas nessa história? Pelo menos um de nossos projetos era comprar uma garrafa de aguardente de Medronho para ele, o que não se encontra em Estremoz. É quase caseira e mais comum no Algarve.
Adeus, Senhor Bolas, vamos continuar sem o senhor. Pagamos logo (já expliquei antes que logo corresponde ao próximo encontro, até logo). Portanto pagaremos na volta.


Dia de embelezamento (meu): cabelos e unhas. Meu dia semanal de dondoca.
Depois desse compromisso andamos eu e Jan à procura de coisas ou simplesmente sentamos nos seus lugares favoritos que estão se tornando meus também.
Não é lindo esse parque?
Primeiro no parque, em geral num banco à sombra de árvores. Todas as árvores nesse local tem plaquetas com o nome da espécie. E Internet grátis e rápida. Enquanto estava nas minhas lides femininas, Jan estudava português no parque. É bem cuidado, com flores e sombra. No Alentejo sombra é a palavra mágica. Abre-te sombra, apareça por favor.
Sentamos nesse banco à esquerda ou debaixo do carramanchão ao fundo.



A entrada do parque.
A vista do castelo em foto tirada no parque.
Tínhamos dois projetos: ver os preços de uma geladeira nova, aqui chamada frigorífico e comprar os três pratos azuis que faltavam para nossa parede portuguesa da cozinha.

Primeiro fomos à tenda aonde são vendidas cerâmicas típicas de Estremoz no parque principal. Coisas lindas lá, todas alentejanas, pratos, pratinhos, recipientes para azeitonas, uma espécie de colher rasa para azeite (perfeita para colecionar numa parede), vasos e alguma coisa que não sabia o que era. Uma cerâmica com abertura atrás. Para que? Para esconder as esponjas e os paninhos na cozinha. Estou arrependida de não ter comprado uma. Mas vou levar uma para o Brasil. Compramos três pratos em branco e azul para nossa parede portuguesa.
Nossa parede portuguesa.
O prato quadrado foi comprado nessa tenda no Rossio, em Estremoz assim como os três da fileira superior. O pequeno é holandês, que também em Delphos usam o mesmo azul. Os outros trouxe do Brasil o que fez Eduardo, meu filho, perguntar: "como você vai levar pratos portugueses do Brasil para Portugal?". Burrice ou presepada. Mas não, esses pratos comprei na Le Lis e em outra loja que não lembro.







Nesse grande parque, o Rossio Marquês do Pombal, onde acontece o mercado de Estremoz aos sábados, sentamos num outro banquinho, também muitas vezes para simplesmente estar ou por conta da Internet. Esse mundo moderno nos persegue, nos mata, nos sufoca. Conectar, o verbo do século.
Jan Kremer conectado no Rossio em Estremoz.
Essa praça, chamada Rossio (todas as praças em Portugal são rossios) tem um lindo coreto. Andamos pelas calçadas, sempre procurando sombras. Fomos a uma pequena loja de molduras e para nossa surpresa a esposa do dono era uma brasileira do Pará. Reconheceu minha origem recifense na hora, pelo sutaque.
Encomendei as molduras que queria e continuamos para procurar nosso objeto de desejo, até por necessidade, porque a nossa não estava gelando apropriadamente.
Coreto no Rossio Marquês do Pombal. 




Numa loja pequena encontramos um jovem português simpático e competente que nos apresentou ao agora nosso frigorífico, de uma marca italiana de lindo design: Smeg. Amor à primeira vista. Ficamos encantados com esse rapaz. Depois de terminada a compra, com um desconto excelente, que ele repassou porque tinha tido um desconto da fábrica quando vendeu uma geladeira rosa cor de bebê para uma alemã, perguntou quando a gente queria a entrega. O mais cedo possível. Posso entregar hoje, ele falou. Eram três horas da tarde. Ele então disse: vou mandar entre 7 e 8 horas da noite. Fiquei absolutamente de queixo caído com a prestreza e o profissionalismo. Elegemos essa loja para todas as nossas futuras compras. Uma porta do lado de fora, uma grande pequena loja por dentro com excelentes artigos. E atendimento exclusivo. Nas grandes lojas, tipo a Aki, o atendimento é simplesmente péssimo. os funcionários não lhe ajudam em nada.
O fantástico é que às 7 horas da noite chegou uma caminhonete com o frigorífico. Um motorista e um senhor de meia idade, baixo e forte e muito simpático. Eles dois colocaram a geladeira no lugar e levaram a outra num instante. O senhor quando soube que eu era brasileira falou logo de Maria Farinha. Recife? Ele falou que tinha ido várias vezes ao Brasil, adorava Recife, Maria Farinha (hospedou-se no Amoaras), Búzios e o Pantanal. Não gostou de Angra dos Reis. Me deu explicações sobre o funcionamento da geladeira. Pediu meu facebook e quando abriu o celular tinha uma foto de uma gostosa de biquini. Falei: "por isso o senhor gosta de Maria Farinha?". Ele respondeu que tinha sido por acaso aquela postagem do face. Insisti perguntando sobre biquinis. Ele falou: "quem não gosta? Gosto delas de biquinis mas também sem biquinis."
Traduzi para Jan, rimos todos, e nos despedimos.
Nosso amigo à esquerda, um empresário de sucesso.
Depois soube que esse senhor humilde, fazendo entregas, carregando e montando geladeiras pessoalmente era o dono dessa fantástica e moderna loja, Mira Madeira em Estremoz.
Encantada com Portugal e com os portugueses educados e solícitos. Bem humorados também.
Nossa geladeira italiana, "stainless steel" Smeg.









Para comemorar essa nova aquisição fomos para o Gadanha Mercearia, um de nossos restaurantes preferidos em Estremoz onde comi um delicioso sanduíche de rosbife com uma taça de vinho rosé alentejano e Jan um carpaccio com caviar de pimenta e um copo de cerveja.
Jan e um de seus pratos preferidos no Gadanha.

O meu sanduíche de rosbife.

Um brinde a esse país sensacional.
No Gadanha as pessoas são simpáticas, a comida é ótima, o serviço é perfeito, a decoração é criativa e de bom gosto, a chefe da cozinha é brasileira de Petrópolis. A mercearia vende produtos excelentes que sempre compramos. Geleia de pimenta, biscoitos de freiras, queijos, risoto ou pasta já com sabores especiais que só precisam de água e 6 minutos para cozinhar.
Muitos dias é bom cozinhar menos, mais rápido e sujar menos.
Nesse dia a garçonete nos perguntou: "viram o facebook do Gadanha?".
Procuramos na Internet depois que nos deram a senha do wi-fi. Jan copiando entrou logo na página. Eu ouvi e tentei sem conseguir. Senha comprida - naopiseacaudaaogato. Só que escrevia à brasileira: naopiseacaudadogato.
Nossa foto com Michele Marques a simpática chefe brasileira.


Sobre Estremoz para homens acima de 60 anos uma informação importante: os banheiros públicos estão em toda parte, impecáveis e grátis. Há a história folclórica que os jovens procuram saber das mulheres, os de meia idade dos restaurantes e os mais velhos doa banheiros públicos.
Estação ferroviária de Estremoz.
Uma construção de charme é a estação ferroviária.











Também nessa cidade adoramos fazer selfies!
Pura alegria nessas paragens alentejanas.

Referências:
Miramadeira: http://miramadeira.pt
Gadanha Mercearia: https://www.facebook.com/gadanhamercearia
Estremoz: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estremoz
João Portugal Ramos Vinhos: www.jportugalramos.com
Castelo de Estremoz: https://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Estremoz
Smeg: www.smeg.pt/


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

PARTE XVI - O INDEFECTÍVEL SENHOR BOLAS

Senhor Bolas dirigindo e conversando.
Como sempre no caminho entre o Monte da Fazenda e Estremoz ou Évora o senhor Bolas, nosso espetacular motorista, dirige e fala o tempo todo, sobre tudo e sobre todos, porque conhece todo mundo aqui nas redondezas e ensina também de cozinhar a plantar temperos ou a instalar ar condicionado. Cozinhar tem que ser com piri-piri, a nossa pimenta malagueta, que ele aprendeu a usar no seu período africano.
Fala de política, de corrupção, da África, das guerras por lá. Das guerras das quais participou: Angola. Moçambique, Guiné-Bissau.


Era soldado e deve ter vivido terríveis experiências. Dessas ele não fala. Jan é curioso sobre esse assunto e pretende entrevistá-lo um dia. Não sobre os fatos ou sobre quantas pessoas teve que matar para se defender, mas sobre seus sentimentos e aflições desse período. Uma vez ele falou: "tinham que matar para sobreviver", porque na maior parte das vezes era uma guerra de guerrilhas e extremamente cruel. O que ele mais fala sobre esse período difícil é do seu amigo cozinheiro africano, em Angola ou Moçambique, que colocava pimenta piri-piri em tudo que fazia, tão bem dosada que não ficava ardida, e que essa comida era tão mais saborosa que ele sempre preferia essa culinária africana a de comer da comida comum dos soldados acampados.
Piri-piri é uma pimenta bem similar à nossa pimenta malagueta, ambas são Capsicum frutescens. A piri-piri é pequena e malagueta aqui é a mesma bem maior. Os portugueses gostam de piri-piri como os baianos de pimenta malagueta. Vou ganhar um pé desses do nosso Bolas.

Às vezes falando de pessoas, sem saber, ele faz piada de português. Por exemplo: dois amigos foram à feira juntos e cada um comprou um porco. Como moravam próximos e o porco ficaria no mesmo quintal eles ficaram preocupados em como saber qual era de qual. Um falou: vou fazer uma marca no meu. E cortou a ponta do rabinho do seu porco. Quando se encontraram Joaquim falou o que tinha feito. E Manoel disse: mas Joaquim eu também cortei a ponta do rabinho do meu. Então vou fazer outro sinal disse Joaquim.
Cortou uma pontinha da orelha, coitado do porquinho. E quando se encontraram a história se repetiu porque isso Manoel tinha feito também. Daí discutiram e finalmente Joaquim conclui: olha Manoel, não vamos fazer mais marcas, você fica com o seu porco preto e eu fico com o meu porco branco. Coloquei os nomes para virar uma piada de português mas que foi contada como um fato engraçado por um português, o indefectível Senhor Bolas.

Jan e o indefectível senhor Bolas.
Indefetível a palavra depois do acordo ortográfico, indefectível soa muito melhor.
Indefectível: que não falha, infalível, incontestável, indestrutível. Ora bolas com essa mudança ortográfica, para o senhor Bolas, o indefectível tem que ser à antiga ou na grafia ainda de Portugal (que os portugueses não querem aceitar o acordo Brasil/ Portugal).
Vamos para Estremoz nessa próxima quinta-feira e ele tem um compromisso na hora em que vamos precisar dele. Mas ele já resolveu: seu cunhado fica na casa com o homem da telefonia enquanto ele nos leva e volta para cuidar dos seus afazeres domésticos.


Ele é muito baixo mas tem muita força. Ajudou nesse dia a trazer o armário chinês de Jan da garagem, onde estava desde que chegou da Holanda, para a sala. E o armário é grande e pesado. E muito bonito também.

Nossa limusine estacionada no Continente.
Ele usa diferentes velocidades do taxímetro, bem baixa para quando vai ficar conosco em alguma loja ou ao mercado. As grandes lojas ficam sempre na zona industrial das cidades portuguesas, pelo menos aqui no Alentejo. E ele ajuda a escolher (ar condicionado, panelas especiais para batatas fritas, paixão de Jan). Mais veloz quando só nos leva e vai buscar.
Indica os marceneiros, pedreiros, eletricistas, jardineiros e tudo o mais que precisamos. Pára no caminho para falar com o pedreiro e combinar como nos procurar. E se o pedreiro não vem no dia combinado, lá vai o querido senhor Bolas reclamar. Queria que parássemos na sua casa para ver seu canteiro de temperos já que ele me viu comprando vasinhos de hortelã e manjericão. Vai me dar as mudas de modo que não preciso comprar mais. Ele diz quando estou a cozinhar e preciso de algum tempero vou ali no quintal e pego um raminho de coentro e pronto. Já me deu aulas enormes sobre como plantar, aonde plantar, quando cortar a planta, quando plantar. Aqui no Alentejo quando plantar é muito importante, pelo sol, pelo solo seco, pelo rigor do inverno.

Outro dia tinha um galho no meio do caminho. No meio do caminho tinha um galho. Tinha um galho no meio do caminho. Tinha um galho. No meio do caminho tinha um galho. Tinha, um galho que arranhava o carro. Tinha porque no dia seguinte não tinha mais. O indefectível senhor Bolas trouxe sua tesoura e cortou o galhor invasor. E perguntou com sua voz de contador de façanhas quando passamos: onde está aquele galho? Nunca me esquecerei desse acontecimento, na vida de minhas aventuras alentejanas. Nunca me esquecerei, passando naquela curva da estrada estreita que no meio do caminho tinha um galho abatido pela tesoura do nosso amigo.
O nosso cortador de galhos que tudo faz.

No meio do caminho
Carlos Drummond de Andrade.

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Se Drummond tivesse conhecido o senhor Bolas teria escrito o poema sobre um galho e não sobre uma pedra.


Aguardente de Medronho, uma fruta.
O senhor Bolas tem uma casa maior que a nossa na pequena vila de Evoramonte. É casado com uma senhora excelente cozinheira, que trabalha no abrigo para velhos local. Gosta de um bom vinho e de aguardente de Medronho. A aguardente de medronho é produzida com o medronho, fruto do medronheiro, árvore típica do Algarve e do Alentejo, já que cresce selvagem em solos pobres das regiões rurais. A coleta do fruto é feita entre outubro e novembro quando então é fabricada a bebida fermentada. Ele só vai ficar feliz quando a gente aceitar ir a um bar para experimentar um gole dessa bebida tradicional do país, em geral usada com digestivo.






O medronho, fruto do medronheiro.
O senhor Bolas tem um filho advogado casado e um neto que ele adora. Todo ano tiram férias em setembro, toda a família, e vão para uma praia ou uma ilha na costa de Portugal ou da Espanha. Onde ele aproveita para conviver com o netinho de uns cinco anos. Na próxima semana ele viaja para uma dessas ilhas espanholas.
Passa horas descrevendo as ilhas e a que ele acha a melhor de todas: a ilha de Porto Santo  no arquipélago português que inclui a ilha da Madeira. A descrição dessa ilha, imagino que paradisíaca, é de uma extensa praia de areia com um pouco de ilha a compor.
Ele gosta de visitar os cafés para tomar uma bica (pequena xícara de café em Portugal) ou uma taça de vinho verde.
Fala de suas visitas a lindas quintas com piscinas e lindas paisagens de amigos da família.
Sabe tudo sobre corrupção em Portugal, da prisão do ex-primeiro ministro, amigo de Lula, e das maracutaias de Eduardo Santos presidente de Angola, dono, ele e suas filhas, de imensas terras no Alentejo. Sempre vejo as terras compradas com dinheiro roubado e a prisão onde estava José Sócrates, no caminho de Évora. José Sócrates agora está em prisão domiciliar. Como saudosista lamenta os tempo de Salazar quando as terras do Alentejo eram férteis campos de trigo e hoje não são mais produtivas, exceto pelas vinhas. Sabe das casa de prova das vinículas onde estrangeiros vão experimentar os vinhos alentejanos. Numa das vezes numa dessas casas estava acompanhando um grupo de franceses, que não falavam inglês nem português óbvio e as recepcionistas do local só falavam inglês e português. Então experimentaram os vinhos e quando pagaram ele entendeu muito bem que os franceses acharam muito caro esse programa.
Nosso faz-tudo é ajudante das compras dos mercados duas vezes por semana, leva com a gente o lixo de garrafas vazias para Evoramonte e os lixos orgânicos para o lugar onde sempre vamos a pé. Jan fica sem saber se ele gosta de levar o lixo no carro, mas claro que sim. Portugueses não sabem dizer não. Jan sai do carro para levar o lixo ou as garrafas mas o senhor Bolas corre para ajudar. Inadmissível para um europeu do oeste anglo-saxão e principalmente holandês não fazer tudo sozinho e conviver com tamanha solicitude.

Esqueci de dizer que o senhor Bolas se chama: Abraltino Carapeta Bolas. Com carro de aluguer.

Com a mala aberta para carregar o carro.
Meu grande amigo senhor Bolas.