quarta-feira, 12 de agosto de 2015

LISBOA - DIA DOS EXTREMOS - UMA EXPERIÊNCIA VIVIDA EM 2012


Dia dos extremos. Mas eles aconteceram no fim do dia, de modo que tenho histórias antes de explicar.

Segundo dia em Lisboa. Uma noite bem dormida embora curta. Ainda pelo fuso horário ou pelo hábito. Quando estava muito tarde para Jan que dorme tarde estava cedo para mim que também durmo tarde. E eu tinha dormido durante o dia, incrível, mas por duas horas.

Nunca me importo com noites descontínuas porque faço alguma coisa até ter sono de novo. Estava lendo o livro de Fernando Pessoa, que é fascinante, quase dormindo de novo nessa casa silenciosa quando Jan acordou e então despertei. Bom dia Portugal! Bom dia Lisboa. Bom dia passarinhos cantantes e paisagem de pardieiro atrás de nossa casa.
Como falei que ia tomamos café no jardim. Sempre Jan faz o café mas nunca come. Eu comi um sanduíche de presunto. Não temos expresso mas temos uma cafeteira italiana.

Continuo investigando a casa. Tem fotos da filha e da mulher ou namorada. Assim não parece que ele, João Pedro Plácido, esteja separado. Suas coisas estão aqui e são tantos detalhes incluindo um espelho de prata em três partes dobráveis, típicas dos viajantes no Brasil e provavelmente em Portugal. Tinha um que dei a Sérgio que sempre gostou dele. Ainda no jardim lemos mapas, decidimos aonde ir.
Jan no jardim estudando o mapa e o guia de Lisboa.

Andamos de metrô depois de subir uma enorme quantidade de ladeiras. Dizem que Lisboa só tem ladeiras que sobem e nunca descem. Como eu que sou uma avó que mora acima das nuvens segundo o evangelho de Leo que me visitou de avião, quase acreditei nisso. Uma cidade só com subidas. Enormes, algumas vezes íngremes.
Pelo menos aqui uma ladeira com degraus.







Na realidade descobri que após cada curva surge uma ladeira. Drummond derrapou num amor aos cinquenta anos, em Lisboa é muito mais simplório: você derrapa em ladeiras. Andamos próximo ao Tejo, mas nunca nas suas margens. O porto é protegido. Chegamos à estação de metrô de santa Apolônia, uma grande e bonita estação aonde linhas se cruzam e onde podemos pegar trens para outras cidades. O sistema de compras de bilhete é português,  sem tradução em outra lingua e automático. Quando conseguíamos o preço era 160 Euros. Impossível. Sempre recomeçando, com a ajuda de uma portuguesa conseguimos um ticket para um dia, que podemos recarregar amanhã. Fomos ao Rossio e demos de frente com Fernando Pessoa em estátua de bronze, sentado na frente do Café Brasileiro, onde ele sempre estava, junto de uma tabacaria que não é a do poema. Quis sentar e sentamos com um casal de franceses. Ele só ria e tinha um sotaque de alemão falando inglês. Só ria e fazia sinal de tirar foto para todos que se aproximavam, continuadamente para tirar retratos com Pessoa.
A turista brasileira e o poeta eterno português.


I am not a bloody tourist, disse Jan que com muito orgulho é cidadão de uma cidade  portuguesa de cerca de 300 habitantes: Évora Monte. Mas cedeu ao entusiasmo meu e de pessoas de todos os países que estavam a tirar fotos com Pessoa. As mãos e os ombros dele estão polidos e brilhantes porque todo mundo faz algum gesto de abraço e de intimidade. Uma senhora passou por lá e simplesmente beijou o poeta no rosto. Quem sabe era a neta ou bisneta da filha da lavadeira com quem ele Pessoa poderia ter sido feliz. Tomamos muito vinho do porto agora para fazer as contas das gerações. Como disse antes,  em Lisboa a atmosfera é de interior e ninguém está com pressa. O garçon vem na sua mesa, anota o que você quer polidamente, faz alguma brincadeira, mas simplesmente desaparece. Queríamos café e pastel de nata.
Turistas apaixonados um pelo outro e ambos por Lisboa.
 Estávamos na calçada da Brasileira, um bar meio art deco, muito bonito e solene com lustres de cristais e uma quantidade de espelhos.
A Brasileira na Rua Garret, Baixa-Chiado.
Uma pintura amarela e verde feia no portal. Era uma procissão de gente de todas as nacionalidades, bandos de brasileiros jovens, quase todos sabendo de alguma forma quem era Pessoa e todos querendo uma foto. A mulher sempre primeiro, o homem depois. A mulher abraçada, segurando suas mãos, sentada numa cadeira escultura de bronze como a pessoa de Pessoa. Uma colocou suas muletas nas mãos do poeta desassossegado. Quase queria uma foto no seu colo. Mas seria meio ridículo e assim tirei algumas em poses convencionais. Alguns nem sabiam quem era o poeta, incluindo o francês na nossa mesa. Outros mostravam erudição e falavam de seus amigos e heterônimos. Claro que ouvia, porque eram brasileiros falando alto.

Ficamos um bom tempo lá e decidimos pegar um trem de trilhos, nosso bonde de antigamente, para ir ao Castelo de São Jorge.  


Subimos essas milhões de ladeiras atrás de cada curva dessa vez sem perder o fôlego e podendo olhar em volta, já que estávamos nesse trem com uma condutora estranha mulher, que parava e descia do trem ou que tinha que esperar por outro trem, por causa dos cruzamentos de trilhos nessas ruas estreitas de pedra com calçadas de pedras portuguesas. Chão da Igreja do Poço da Panela. Calçadas de Boa Viagem  roubadas pela insanidade do prefeito.

Civilizado país, quando pisamos na faixa de travessia, qualquer carro para. Ouvi mais português brasileiro que qualquer outra língua. Comemos pastéis de nata e tomamos café, forte e sempre meia pequenina xícara. As xícaras dos cafés de Lisboa me fazem lembrar tio Grácio e mamãe que colecionavam xícaras. Tinha vontade de pedir para comprar cada uma. Se fossem oito já teria uma coleção ao voltar. De fato bastariam sete porque já tenho uma da Casa Colombo no Rio, uma construção que deveria pertencer à essa cidade. São restos da atmosfera portuguesa no Brasil.

O bonde era um sacolejo. Acho que esqueceram de perguntar se queríamos emoção. Sacolejando chegamos ao alto, prontos para o castelo que avistamos da praça do bonde. Estávamos numa praça que lembrava Salvador, a área do porto e do elevador Lacerda. Aliás uma brasileira se sente familiarizada com Lisboa porque lembra um bocado as nossas cidades antigas.
O castelo de São Jorge ao fundo e os telhados de Lisboa.
 Andamos em jardins e ruas estreitas, ao largo de casas de fado e restaurantes, lojas de lembranças. Nunca chegamos ao castelo que se esconde e nunca está na direção das setas. 
Os telhados e o lindo e doce rio Tejo sempre presente.
Igreja de Santo Antonio a da indulgência por decreto.
Achamos uma igreja gótica. A igreja de Santo Antônio, padroeiro da cidade, onde está escrito que o Papa Pio VI e a Rainha Maria-não sei-qual davam indulgência eterna a quem depois de confessar e comungar visitasse a igreja. Um decreto português!

Terminamos no bonde de volta, o da linha 28 do livro de turismo holandês de quinze anos atrás. Qualquer destino é bom se não se sabe para onde ir ou se se está ao léu. Mas o ponto final desse bonde era a Praça da Graça, caminho descendo para nossa casa.
Descendo finalmente.










A temperatura era amena no jardim onde tomamos cerveja e comemos pão pesado português com azeite. Aguamos as plantas com uma grande mangueira amarela.
Se estava quente tomava um banho de mangueira no quintal.

Estamos sem conexão mas escrevo nesse mesmo lugar essas memórias frescas e banais. Tom Jobim cantando Vinicius o nosso poetinha, mas nunca menor.
Em casa e muito confortável.

A noite desce em Lisboa nessa época às nove da tarde. Compramos mais cerveja e vinho do Porto que amanhã é domingo e tudo está fechado. Nesse pequeno mercado, que todos os negócios do bairro são pequenos, mercados-vendas de Casa Amarela, retrosarias, tabacarias, pedimos um telefone de taxi. Os donos tentaram achar mas não o tinham e disseram basta ir à rua e eles que estão sempre a passar vão parar.  Quando saímos Seu Manuel ou Seu Joaquim qualquer que seja, parou um taxi e falou ‘viram que é fácil, é só estender a mão’. Deve ser um segredo português parar um taxi transmitido com muita boa vontade a nós.

De resto vale a pena falar do jantar. Vesti meu lindo vestido Armani e fomos a um pequeno restaurante português na nossa rua. Chegamos e não conhecíamos ninguém. Havia um português bem apessoado com camisa de time de Portugal e um velho gordo e bêbado com sapatos dockside vermelhos, dois garçons e uma TV com o jogo Portugal x Dinamarca pelo campeonato europeu.

Mário bem apessoado falava alto, aprendeu nossos nomes. O jogo interessava a todos os homens inclusive a Jan. Decidimos ceder ao clima e sentamos na mesma mesa do velho bêbado de sapatos vermelhos, de costas para o bêbado bem apessoado, de frente para a televisão. Entramos no clima prosaico dessa aldeia e foi muito divertido. Receitei num guardanapo um tratamento para Mário que tinha cancro carcinóide, operado do pulmão na Inglaterra e cheio de nódulos hepáticos metastáticos. Eu disse fale com seu médico ou vá para a Holanda se o senhor tem família em Amsterdão. “Mais do que da morte só gosto de mulheres”. “O legado brasileiro é de mulheres bonitas, gosto de todas elas, mas não dos homens, claro”. 

Jan, eu e Mário assistindo ao jogo.
E “Cristiana, seu marido é uma pessoa boa”. Ou Jan “não tenha ciúmes que sua mulher está a escrever uma receita porque é uma boa mulher”.
Ou “eu amo sua mulher, Jan, mas não precisa ter ciúmes”.  I love her too”. E me deu um beijo e eles torceram: beija, beija. Clima de intimidade, de bebedeira e de botequim.







O beijo.
Nós estávamos rindo desse jantar prosaico, de porco preto com fritas, num total anti-clima de romantismo. Cansamos do barulho, voltamos para casa, tire os sapatos por favor que os tacos altos nesse piso de madeira acordam a vizinhança sonolenta.

E daí entramos num outro clima ouvindo o DVD do Virtuosi número X e  só assim que Jan acreditou na boa música clássica que Rafael e Ana fazem em Recife. Acreditou encantado. E nesse clima de encantamento, depois de presunto Serrano, queijo São Jorge e muito vinho do porto, fomos dormir com a noite escura ainda criança .


A noite explica o dia dos extremos. Podemos dizer dos extremos culturais!

Um comentário:

  1. Prima,
    O seu texto está encantador. Você descreve tão bem que parece que eu estou viajando, também.... Falta pouco para estar com um livro pronto. Além do mais, as fotos belíssimas. Você sempre você: linda!!!
    Li e reli.....Maravilha de viagem!!..
    Beijos, Eliana Pereira

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