Dia
dos extremos. Mas eles aconteceram no fim do dia, de modo que tenho histórias
antes de explicar.
Segundo
dia em Lisboa. Uma noite bem dormida embora curta. Ainda pelo fuso horário ou
pelo hábito. Quando estava muito tarde para Jan que dorme tarde estava cedo
para mim que também durmo tarde. E eu tinha dormido durante o dia, incrível,
mas por duas horas.
Nunca
me importo com noites descontínuas porque faço alguma coisa até ter sono de
novo. Estava lendo o livro de Fernando Pessoa, que é fascinante, quase dormindo
de novo nessa casa silenciosa quando Jan acordou e então despertei. Bom dia
Portugal! Bom dia Lisboa. Bom dia passarinhos cantantes e paisagem de pardieiro
atrás de nossa casa.
Como
falei que ia tomamos café no jardim. Sempre Jan faz o café mas nunca come. Eu
comi um sanduíche de presunto. Não temos expresso mas temos uma cafeteira
italiana.
Continuo
investigando a casa. Tem fotos da filha e da mulher ou namorada. Assim não
parece que ele, João Pedro Plácido, esteja separado. Suas coisas estão aqui e
são tantos detalhes incluindo um espelho de prata em três partes dobráveis,
típicas dos viajantes no Brasil e provavelmente em Portugal. Tinha um que dei a
Sérgio que sempre gostou dele. Ainda no jardim lemos mapas, decidimos aonde ir.
![]() |
| Jan no jardim estudando o mapa e o guia de Lisboa. |
Andamos
de metrô depois de subir uma enorme quantidade de ladeiras. Dizem que Lisboa só
tem ladeiras que sobem e nunca descem. Como eu que sou uma avó que mora acima
das nuvens segundo o evangelho de Leo que me visitou de avião, quase acreditei
nisso. Uma cidade só com subidas. Enormes, algumas vezes íngremes.
![]() |
| Pelo menos aqui uma ladeira com degraus. |
Na
realidade descobri que após cada curva surge uma ladeira. Drummond derrapou num
amor aos cinquenta anos, em Lisboa é muito mais simplório: você derrapa em
ladeiras. Andamos próximo ao Tejo, mas nunca nas suas margens. O porto é protegido.
Chegamos à estação de metrô de santa Apolônia, uma grande e bonita estação
aonde linhas se cruzam e onde podemos pegar trens para outras cidades. O
sistema de compras de bilhete é português, sem tradução em outra lingua e
automático. Quando conseguíamos o preço era 160 Euros. Impossível. Sempre
recomeçando, com a ajuda de uma portuguesa conseguimos um ticket para um dia,
que podemos recarregar amanhã. Fomos ao Rossio e demos de frente com Fernando
Pessoa em estátua de bronze, sentado na frente do Café Brasileiro, onde ele
sempre estava, junto de uma tabacaria que não é a do poema. Quis sentar e
sentamos com um casal de franceses. Ele só ria e tinha um sotaque de alemão
falando inglês. Só ria e fazia sinal de tirar foto para todos que se
aproximavam, continuadamente para tirar retratos com Pessoa.
![]() |
| A turista brasileira e o poeta eterno português. |
I am not a bloody tourist, disse Jan que com muito orgulho é cidadão de uma cidade portuguesa de cerca de 300 habitantes: Évora Monte. Mas cedeu ao entusiasmo meu e de pessoas de todos os países que estavam a tirar fotos com Pessoa. As mãos e os ombros dele estão polidos e brilhantes porque todo mundo faz algum gesto de abraço e de intimidade. Uma senhora passou por lá e simplesmente beijou o poeta no rosto. Quem sabe era a neta ou bisneta da filha da lavadeira com quem ele Pessoa poderia ter sido feliz. Tomamos muito vinho do porto agora para fazer as contas das gerações. Como disse antes, em Lisboa a atmosfera é de interior e ninguém está com pressa. O garçon vem na sua mesa, anota o que você quer polidamente, faz alguma brincadeira, mas simplesmente desaparece. Queríamos café e pastel de nata.
![]() |
| Turistas apaixonados um pelo outro e ambos por Lisboa. |
![]() |
| A Brasileira na Rua Garret, Baixa-Chiado. |
Ficamos
um bom tempo lá e decidimos pegar um trem de trilhos, nosso bonde de
antigamente, para ir ao Castelo de São Jorge.
Subimos
essas milhões de ladeiras atrás de cada curva dessa vez sem perder o fôlego e
podendo olhar em volta, já que estávamos nesse trem com uma condutora estranha
mulher, que parava e descia do trem ou que tinha que esperar por outro trem,
por causa dos cruzamentos de trilhos nessas ruas estreitas de pedra com
calçadas de pedras portuguesas. Chão da Igreja do Poço da Panela. Calçadas de
Boa Viagem roubadas pela insanidade do
prefeito.
Civilizado
país, quando pisamos na faixa de travessia, qualquer carro para. Ouvi mais
português brasileiro que qualquer outra língua. Comemos pastéis de nata e
tomamos café, forte e sempre meia pequenina xícara. As xícaras dos cafés de
Lisboa me fazem lembrar tio Grácio e mamãe que colecionavam xícaras. Tinha
vontade de pedir para comprar cada uma. Se fossem oito já teria uma coleção ao
voltar. De fato bastariam sete porque já tenho uma da Casa Colombo no Rio, uma
construção que deveria pertencer à essa cidade. São restos da atmosfera
portuguesa no Brasil.
O
bonde era um sacolejo. Acho que esqueceram de perguntar se queríamos emoção. Sacolejando
chegamos ao alto, prontos para o castelo que avistamos da praça do bonde. Estávamos
numa praça que lembrava Salvador, a área do porto e do elevador Lacerda. Aliás
uma brasileira se sente familiarizada com Lisboa porque lembra um bocado as
nossas cidades antigas.
Andamos
em jardins e ruas estreitas, ao largo de casas de fado e restaurantes, lojas de
lembranças. Nunca chegamos ao castelo que se esconde e nunca está na direção
das setas. ![]() |
| O castelo de São Jorge ao fundo e os telhados de Lisboa. |
![]() |
| Os telhados e o lindo e doce rio Tejo sempre presente. |
![]() |
| Igreja de Santo Antonio a da indulgência por decreto. |
Terminamos
no bonde de volta, o da linha 28 do livro de turismo holandês de quinze anos
atrás. Qualquer destino é bom se não se sabe para onde ir ou se se está ao léu.
Mas o ponto final desse bonde era a Praça da Graça, caminho descendo para nossa
casa.
![]() |
| Descendo finalmente. |
A
temperatura era amena no jardim onde tomamos cerveja e comemos pão pesado português com
azeite. Aguamos as plantas com uma grande mangueira amarela.
Se
estava quente tomava um banho de mangueira no quintal.
Estamos
sem conexão mas escrevo nesse mesmo lugar essas memórias frescas e banais. Tom
Jobim cantando Vinicius o nosso poetinha, mas nunca menor.
![]() |
| Em casa e muito confortável. |
A
noite desce em Lisboa nessa época às nove da tarde. Compramos mais cerveja e
vinho do Porto que amanhã é domingo e tudo está fechado. Nesse pequeno mercado,
que todos os negócios do bairro são pequenos, mercados-vendas de Casa Amarela,
retrosarias, tabacarias, pedimos um telefone de taxi. Os donos tentaram achar
mas não o tinham e disseram basta ir à rua e eles que estão sempre a passar vão
parar. Quando saímos Seu Manuel ou Seu
Joaquim qualquer que seja, parou um taxi e falou ‘viram que é fácil, é só
estender a mão’. Deve ser um segredo português parar um taxi transmitido com
muita boa vontade a nós.
De
resto vale a pena falar do jantar. Vesti meu lindo vestido Armani e fomos a um
pequeno restaurante português na nossa rua. Chegamos e não conhecíamos ninguém.
Havia um português bem apessoado com camisa de time de Portugal e um velho
gordo e bêbado com sapatos dockside vermelhos, dois garçons e uma TV com o jogo
Portugal x Dinamarca pelo campeonato europeu.
Mário
bem apessoado falava alto, aprendeu nossos nomes. O jogo interessava a todos os
homens inclusive a Jan. Decidimos ceder ao clima e sentamos na mesma mesa do
velho bêbado de sapatos vermelhos, de costas para o bêbado bem apessoado, de
frente para a televisão. Entramos no clima prosaico dessa aldeia e foi muito
divertido. Receitei num guardanapo um tratamento para Mário que tinha cancro
carcinóide, operado do pulmão na Inglaterra e cheio de nódulos hepáticos
metastáticos. Eu disse fale com seu médico ou vá para a Holanda se o senhor tem
família em Amsterdão. “Mais do que da morte só gosto de mulheres”. “O legado
brasileiro é de mulheres bonitas, gosto de todas elas, mas não dos homens,
claro”.
![]() |
| Jan, eu e Mário assistindo ao jogo. |
E “Cristiana, seu marido é uma pessoa boa”. Ou Jan “não tenha ciúmes
que sua mulher está a escrever uma receita porque é uma boa mulher”.
Ou
“eu amo sua mulher, Jan, mas não precisa ter ciúmes”. I love her too”. E me deu um beijo e eles
torceram: beija, beija. Clima de intimidade, de bebedeira e de botequim.
![]() |
| O beijo. |
Nós
estávamos rindo desse jantar prosaico, de porco preto com fritas, num total
anti-clima de romantismo. Cansamos do barulho, voltamos para casa, tire os
sapatos por favor que os tacos altos nesse piso de madeira acordam a vizinhança
sonolenta.
E
daí entramos num outro clima ouvindo o DVD do Virtuosi número X e só assim que Jan acreditou na boa música
clássica que Rafael e Ana fazem em Recife. Acreditou encantado. E nesse clima
de encantamento, depois de presunto Serrano, queijo São Jorge e muito vinho do
porto, fomos dormir com a noite escura ainda criança .
A
noite explica o dia dos extremos. Podemos dizer dos extremos culturais!












Prima,
ResponderExcluirO seu texto está encantador. Você descreve tão bem que parece que eu estou viajando, também.... Falta pouco para estar com um livro pronto. Além do mais, as fotos belíssimas. Você sempre você: linda!!!
Li e reli.....Maravilha de viagem!!..
Beijos, Eliana Pereira