De repente percebo que muitas vezes a comunicação é truncada entre eu, brasileira e muitos portugueses que usam palavras e expressões diferentes.
Por exemplo, nosso motorista predileto Sr. Bolas.
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| Sr. Bolas, sempre prestável ajudando nas compras. |
Muitas vezes ele nos deixa em Évora ou Estremoz, combinamos a hora de voltar e perguntamos quanto foi? Sempre ele prefere receber juntas a ida e a volta, mas mesmo assim perguntamos se ele quer o pagamento na hora. Ele então responde, não melhor pagar logo. Isso significa o que? Pensaram como eu, mas estão enganados. Nós dizemos: até logo. Logo é o próximo encontro que pode acontecer ou não. "Logo" aqui é no sentido literal. Pagar logo significa pagar quando chegar o logo ou seja, pagar depois no próximo encontro. Sempre fico tonta sem compreender. Jan já entendeu e assim diz: até logo. Logo mais lhe pago, significa. Hoje vamos sair com ele e vamos entender totalmente o pague logo que não é logo, mas depois.
Uma loja chamda de Velharias significa o que? Com esse aspecto o que terá dentro?
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| Brexó, antiquário com esse título "velharias", em Lisboa. |
Não dá vontade de entrar a não ser pela curiosidade que mata o gato e me mata também.
Como no Brasil muitos restaurantes são impérios. Sabem de que? Império dos Caracóis. É uma mania portiguesa com certeza porque em qualquer restaurante de turista, principalmente em Évora tem sempre uma placa: temos caracóis. Pedi para ver mas não tive vontade de comer. Depois encontro caracóis no nosso quintal-que-vai-ser-jardim a toda hora. Eles comem as flores e por isso não são bem vindos nos jardins e só desejados depois de cozidos nos restaurantes.
Em maio teve um festival de caracol em Évora por iniciativa de Belmiro Domingos um cozinheiro e Grão Mestre da Confraria do Caracol de Portugal que tem 16 receitas de caracol criadas por ele que diz desses bichinhos: é uma paixão. Confraria do Caracol, soa bem português. Em cinco dias nesse festival foram consumidos mais de 200 quilos desses animaisinhos meio nojentos. Caracoleta grelhada, caracol frito, caracol à pescador, à caçador, de caril (como o curry é chamado), na chapa, escargot à francesa (com esse nome sofisticado até que já comi uma vez), caracol criança (não imagino o que seja), bifana olho de caracol (bifana é um bife, mas de caracol?), omelete de caracol e até feijoada de caracoleta.
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| Caracol à caçador. |
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| Espécies diferentes de caracóis. |
Não me apetece ainda. Pode ser que um dia goste. No meu canteiro de uvas tem um monte deles. Poderia apanhá-los e fritá-los. Minha curiosidade despertou em Évora quando vi tantas tabuletas avisando: aqui temos caracóis.
Acho que é um prato que se ama ou se odeia. Eles próprios consideram o caracol na cozinha um polêmico ingrediente. Sabe que quando avistar os caracóis do meu jardim vou olhá-los com muito mais respeito pois quem sabe posso começar uma criação e obter um grau na confraria.
Se os caracóis comem as flores aprendi hoje que os estorninhos pretos comem os figos das figueiras do nosso caminho.
Os estorninhos andam em bando e atacam os figos que estão ficando maduros. Por isso vou amanhã cedo colher os figos maduros antes que eles venham, em bando esses velhacos. O pássaro é preto, com o bico amarelado e lembra um outro pássaro da região que é o melro preto.
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| O estorninho preto comedor de figos. |
Esse come figos também mas são menos gulosos, já que não andam em bandos.
O senhor Bolas contou que fazem uma armadilha para pegar esses pássaros em bando, colocando redes nas figueiras. Durante o banquete da passarada eles lançam a rede para pagá-los e comê-los. Perguntei se eram bons tipo codornas, perdizes ou faisões. Ele respondeu que a carne é muito dura mas que mesmo assim os alentejanos gostam. Aqui ainda tenho que aprender os cortes da vaca, porque a carne é dura, mesmo em restaurantes se não é filé que nem todos tem. Metade da viagem para Estremoz ouvi as histórias dos figos que desaparecem das árvores e dos estorninhos que vem em bandos para comê-los.
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| Nossa figueira na saída para a estrada. |
Falando nisso, quando chegamos na primeira figueira nosso motorista falante parou o carro, colheu dois figos e me deu para saboreá-los assim mesmo, tirados da árvore, sem lavar. Jan fica estonteado com tanta conversa, que eu tento traduzir, mas que às vezes também não ouço ou não entendo, ou desligo para não ouvir. E mais surpreso ainda com essa parada na estrada para colher figos. Os dois se entendem e se gostam, Jan melhorando muito o português e Senhor Bolas percebendo algumas conversas em inglês. E eu traduzindo falo inglês para Senhor Bolas e português para Jan. De tontice pura.
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| Os figos começando a amadurecer. |
Portugal tem um pássaro lindo chamado Papa-figos (Oriolus oriolus) que tem cabeça e dorso amarelos, asas pretas e bico vermelho, um visitante estival, que chega ao país em torno de abril ou maio e que parte para a África entre agosto e setembro. Está por aqui na época dos figos. Esse nunca vi.
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| Lindo pássaro esse papa-figos. |
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| As amoras pretas, ainda não maduras e seus espinhos de rosas. |
Também esse nunca pousa à vista e é percebido pelo seu canto aflautado tão bonito que é imitado pelo feioso estorninho preto destruidor dos meus figos e que voam em grupos o tempo todo de uma figueira para outra. Esses eu vejo todo dia. E vou sair agora para tentar pegar alguns dos figos que sobraram de ontem. Senhor Bolas vem amanhã nos pegar para Estremoz mas vem mais cedo para colher figos do quintal que são muitos. Se não colhemos vão para o estômago desses passarinhos ou apodrecem e caem no chão.
Não vamos desperdiçar o que a natureza oferece de tão belo e tão delicioso. Aproveitando vou colher também amoras pretas (blackberries) e portanto fazer um monte de geleia. Só não tenho os tachos grandes para cozinhar, mas tenho panelas de sobra. E estou esperando pelas uvas amadurecerem: provo uma todo dia, para colhê-las todas. São docinhas apesar de pequenas tanto as roxas como as verdes. Vou ter que fazer suco e guardar a polpa. Viram que o trabalho não para nunca e que é super interessante a vida no campo? São dias perfeitos.
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| Uma amoreira. |
Acabei de chegar da minha colheita, muito mais difícil do que parecia porque os galhos das amoras são cheios de espinhos e os pés de amoras ficam fora da estrada, dentro do mato seco abundante em carrapichos pequenos, menores e mais fáceis de tirar do que os do Brasil. Além disso alguns galhos são muito altos e não pude alcançá-los.
Estava munida de uma tesoura e de uma sacola. Os figos ainda não estão maduros, de modo que só colhi seis.
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| Figos, amoras e galhos de espinhos. |
Acabei de comer três figos, fruta-paixão da minha infância e a conclusão é de que eles são absolutamente deliciosos, um manar para uma deusa do campo. Seria eu mesma?
A vida é bela e muito bela aqui nesse lugar rural, um quase paraíso.
Amei!
ResponderExcluirEste é o terceiro que faço e só agora consegui que fosse publicado.
ResponderExcluirPortugal para Sempre será um belo livro! Como figos por mim!
Prima: Mais um texto maravilhoso. Você está desfrutando de dias e noites muito gostosos . Encantadores momentos. Começo a aprender com vc: " A vida é bela aqui nesse lugar rural, quase um paraíso."
ResponderExcluirE me torno cúmplice de suas odisséias. Quer queira, quer não, começamos a viajar e a vivenciar todas essas aventuras com vcs. Beijosssssssssssssssssss