Começamos o dia calmamente, eu costurando, Jan às voltas com seu tablet melhor seu brinquedo novo, vencendo a burocracia portuguesa para ter WhatsApp instalado. Fui para a cozinha depois, sentido figurado, porque literalmente na cozinha já estava. Por enquanto a cozinha é nosso lugar de trabalho e de conversas até o sol baixar quando usamos as varandas.
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| O castelo como visto do nosso terraço da frente. |
Um sentimento comum aos residentes dessa fundação de estímulo às artes, porque muitos desse artistas retornam muitas vezes ao local. Jan não só retornou como comprou uma casa e aposentado decidiu se estabelecer nessas paragens.
A exposição era de um artista australiano Jonathan Roson, que vive agora na Austrália e que faz instalações com materiais ligados ao local respeitando a história e o ambiente. Durante seu período de residência fez algumas instalações de mármore, material abundante no Alentejo. Nessa exposição, chamada Wired, ele usou gramíneas secas, comuns em toda essa região para dar forma a suas cercas não aramadas mas muito amigáveis e leves. Cercas que não aprisionam nem a alma nem a liberdade. Essas plantas secas são da espécie Avena Fatua, um parente invasor e não produtivo da aveia, chamada Avena Sativa. Os portugueses as chamam de aveia brava. Gabriela me disse várias vezes o nome mas eu entendia a véia (velha) brava. São longas, cor de palha, plantas daninhas para campos de trigo ou de aveia. Resistentes nessa secura de meses sem chuva. Belas na paisagem.
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| Wired, de Jonathan Roson. |
Lembro que numa das Bienais que visitei em São Paulo fiquei impressionada com várias pinturas de países socialistas do leste europeu pela ideia que essa pinturas transmitiam de prisão, de falta de liberdade, de opressão. Algumas mostrando vultos numa multidão, caminhantes sem alegria.
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| Outra instalação num espaço menor do castelo. |
Aqui a cerca que não é aramada transmite a leveza da natureza. Chegamos cedo, eu, Jan e Gabriela minha amiga vizinha e pintora e encontramos o artista, sua mulher e Ludger van der Eerden, um holandês muito alto, amigo de Jan. Ele e sua esposa também holandesa Carolien administram essa fabulosa fundação que funciona também na Holanda, em Renkum.
Já conhecia o casal de outra estadia aqui, em junho de 2014, quando jantamos lá e pude sentir o clima afetivo e cordial entre os artistas, que tem locais especiais de trabalho, mas que se juntam diariamente para jantar e muitas vezes para discussões sobre as obras realizadas ou para apresentação delas.
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| Ludger van der Eerden: silêncio para o som do vento. |
Jan me perguntou: você saberia dizer que são artistas as pessoas desse grupo? Claro, pela pose, pelas roupas, pelos cabelos, pela atitude relaxada, sei lá.
As roupas são sempre originais, um estilo um pouco hippie e especialmente descontraído. Penteados diferentes e nem sempre de bom gosto para mim, mas compondo a figura. Roupas coloridas, mistura de estampados.
Conhecemos um jovem belga, de uns 25 anos, com cabelo louro e penteado de roqueiro, um pintor, que veio da Bélgica com sua namorada parando em diversas cidades da França e da Espanha. E que aproveita os fins de semana para passear e se divertir. Não sei ainda da sua arte mas vou conhecê-la porque vamos visitar esse local.
Outro casal de americanos, ambos de meia idade, ele de bermudas e paletó claros, ela pintora, ele trabalhando com som. Perguntei primeiro qual dos dois era o artista ou a artista. Eles responderam juntos: ambos. Perguntei a ele que tipo de música?
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| Scott Sherk apresentando seus "soundscapes" |
É entusiasmado com seu próprio trabalho. Ambos estudaram numa escola de artes na Virgínia e atualmente moram na Filadélfia.
Aprendi uma arte nova: soundscapes, como landscapes. Uma paisagem de sons, o ambiente feito de sons. Claro, teria que ser no Alentejo se a música pretende dar paz. Numa cidade de barulho infernal o nome seria cityscapes ou hellscapes?
Scott Scherk, o artista do som, está em pé na entrada dessa foto tirada do site da Obras. Rachel Scherk, sua mulher é uma artista multi media - ela se chama no seu website - Multi Medi(um) Artist. Tenho que aprender muito dessas artes novas para compreender melhor o universo paralelo e multi-interessante de suas culturas e talentos. O ver o novo cria a vontade de conhecer melhor o que acontece no mundo artístico. A curiosidade tomou horas do meu tempo em pesquisa.
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| Jan e Gabriela na porta de entrada do castelo. |
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| Jan e Gabriela andando na direção da paisagem. |
| Na entrada do castelo esperando. |
Ouvir envolve atenção plena, interesse na pessoa que esta falando, empatia, compreensão do tema por mais que esse seja irrelevante.
Na maior parte das vezes não ouvimos, fingimos que estamos ouvindo ou ouvimos superficialmente, enquanto estamos dentro de nossos próprios pensamentos.
Minha mãe se queixava de que não se tinha tempo para nada nessa vida moderna agitada na qual os padrões de sucesso ou de consumo da sociedade são mais importantes que o bem estar pessoal ou o cuidado com os outros. Quando a gente não tem tempo para ouvir os sentimentos do outro.
Falta solidariedade. O mundo virtual é feito de amizades superficiais facilmente deletáveis. No mundo real compartilhamos afetos e emoções olhos nos olhos. Não deveria faltar empatia porque nesse mundo vivencial não há um botão para desconectar.
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| Minha seriedade tentando entender a instalação. |
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| O autor explicando sua arte. |
Arte precisa ser explicada? Primeira pergunta.
Segunda pergunta: o que é arte?
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| Jonathan e gabreila Diaz-Bérrio. |
As fotos dessa instalação são exóticas, talvez não digam muito. Mas estando presente entrei no clima do "happening", principalmente quando Jonathan passava por debaixo desses fios naturais para abrir a janela do lado do vento. Em silêncio, comandado de forma extremamente séria por Ludger, foi quase emocionante parar o mundo e o pensamento e concentrar todos os sentidos no ouvir o som do movimento da ramagem e no ver esse suave balanço.
Será que em algum dia na minha vida parei para absorver a natureza ou incorporar seus segredos? Acho que de forma intermitente e nunca completa.
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| Outra vista da instalação através de uma arcada. Nessa foto dá para ver a janela aberta e a entrada da luz e do vento. |
Ana Lúcia minha irmã vendo as fotos achou que meu arranjo era mais arte que a instalação!
Essa opinião é subjetiva e distante. Ela só tinha as fotos para julgar. Não os sentidos no presente.
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| Meu arranjo com a mesma planta seca. |
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| Jan e a paisagem alentejana vista do castelo. |
| A paisagem, o vento e a felicidade. |
Referências:
1 - Fundação Obras: http://www.obras-art.org
2 - Listening to Art: http://soundslikenoise.org/listening-to-art/
3 - Scott Sherk: http://thethirdbarn.org/scott-sherk/sound/birds-in-bamboo
4 - Scott Sherk: http://thethirdbarn.org/scott-sherk
5 - Rachel Sherk: http://www.rachelsherk.com/2015-evening-concert-series-portugal/
6 - Soundscapes: http://www.timeout.com/london/art/soundscapes-listening-to-paintings













Cris: Realmente muito bom viver a vida com qualidade. A gente acaba por perder tempo de nossas vidas, preocupando-se com algumas coisas que não vão dar em nada.... Sinto que precisava dar um giro na minha forma de viver.
ResponderExcluirEste seu contato coma natureza, entremeado de passeios culturais, deve ser maravilhoso.
O texto, mais uma vez está ótimo. Vc usa palavras na hora certa que nos entretém e nos prende á leitura. Também, pudera!!!!! Amo ler!!!!!
Beijos e abraços...