terça-feira, 11 de agosto de 2015

PARTE XII - A PRAÇA DO COMÉRCIO

Como sempre fazemos ao chegar em Lisboa, numa sexta-feira, saímos para uma caminhada pelas ruas próximas ao hotel, subindo e subindo ladeiras. Descubrir a cidade tem seus encantos, porque em todos as esquinas Lisboa nos surpreende com sua beleza e seus magníficos monumentos. Chegamos numa praça que já conhecia onde descobri uma loja de tecidos, que não tinha visto antes. Amo tecidos e as oportunidades que eles oferecem para fazer artes, especialmente agora, na minha semi-aposentadoria quando tenho tempo para tudo, incluindo cozinhar e caçar aranhas teimosas e sempre presentes nos cantos brancos de nossa casa rural. Quando avistamos o Tejo distante decidimos então  caminhar na sua direção. Eu uma fã confessa dos dois rios de Recife, o Capibaribe e o Beberibe. Jan, um amante dos três rios holandeses que enfeitam suas cidades, o Rijn (o nosso Reno ) que corta Arnhem, o IJssel em Zutphen presente num de seus livros publicados e o Waal em Nijmegen, o rio que vemos no filme "Uma Ponte Longe Demais" (A Bridge Too Far), fingindo ser o Reno.
Fomos então para as margens do Tejo e o que vemos? Uma enorme e majestosa praça cheia de restaurantes e monumentos, com milhares de turistas bebendo sangria ou cerveja nos terraços ou tirando fotos e selfies. Amo essa invasão bárbara no verão lusitano.
A enorme e majestosa praça do Comércio.
A Praça do Comércio pode ser descrita com uma simples palavra: WOW! Traduzindo a  beleza, a majestade e sua surpreendente dimensão. Uma das maiores da Europa. Esta praça, um quadrado real, é também conhecida como Terreiro do Paço, nome de outros tempos quando ali havia o Palácio dos Reis de Portugal com a sua magnífica biblioteca com mais de setenta mil volumes, destruídos no terremoto de 1755. Durante séculos essa praça foi a principal entrada marítima da cidade. Ainda podemos ver a escadaria em mármore do Cais das Colunas que sobe do rio para a praça, local de desembarque outrora de reis e chefes de estado em visita ao país. Até vimos um grande navio se aproximando.
No meio da praça, reconstruída pelo Marquês do Pombal, por muito tempo usada como uma área de estacionamento e recentemente devolvida ao lazer de Lisboa e de seus visitantes, encontra-se a estátua equestre de D. José I e seu cavalo Gentil, Rei de Portugal durante o grande terremoto.
Estátua do Rei Dom José I, rei durante o terremoto.
Característico de uma praça clássica é o vazio do espaço central, preenchido apenas pela estátua do rei, um exemplo típico da antiga arquitetura urbana representando o poder do governo e da ideologia.
Estou aprendendo horrores sobre os reis e sobre a história portuguesa escrevendo sobre 
a nossa vida aqui, uma aprendizagem prazeirosa.
A praça está rodeada nos três lados por impressionantes edifícios arqueados pintados em amarelo, sua cor original, sede de departamentos de estado e atualmente lar de inúmeros restaurantes com seus terraços sombreados por enormes umbrelas brancas. Nessa praça encontramos o café mais antigo de Lisboa, o "Martinho da Arcada" que teve entre sua clientela famosa personagens como Bocage, Fernando Pessoa e Amália, a grande cantora de fado. 

Jan Kremer, meu turista favorito e o Tejo.
No lado norte, fomos surpreendidos novamente WOW, por um arco impressionante, o Arco do Triunfo, agora chamado o Arco da Rua Augusta ou o Arco Triunfal da Rua Augusta, uma entrada majestosa para a Baixa lisboense conectando a área banal do comércio de pedestres à realeza representada pela estátua equestre do rei (será que esse rei já montou a cavalo alguma vez?). Vi primeiro o projeto do arco numa placa explicativa num recanto da praça e de repente aparece à nossa frente essa impressionante construção enchendo a paisagem urbana. O arco está decorado com estátuas de personalidades históricas, como Vasco da Gama, o navegador e o Marquês de Pombal, um personagem importante na arquitetura portuguesa, responsável pela reconstrução da cidade após o terremoto. Os portugueses dizem com orgulho que o arco é o símbolo da Lisboa triunfante, renascida das cinzas em 1755, quando surgiu o esboço dessa cidade de amplas avenidas aberta para o rio que conhecemos hoje.
O arco branco contrasta com os prédios amarelos de arcadas perfeitas que cercam os três lados da praça quadrada. No outro lado o Tejo igualmente imponente. A inscrição em latim do arco fala das virtudes humanas maiores para que sirvam a todos de ensinamento, apontando para a eternidade do tempo, a grandeza da alma portuguesa e suas realizações ao longo dos séculos. No topo do arco as esculturas de Célestin Anatole Calmels representam a Glória coroando o Gênio e o Valor. Portanto um elogio para os méritos e as qualidades que nosso governo brasileiro deveria seguir.

O Arco do Triunfo Português.
Detalhes da inscrição em latim.





















Arcadas, bares e esplanadas.
Andando a pé na praça encontramos um bar cujo nome nos atraiu: o Museu da Cerveja oferecendo no menu cervejas dos países de língua portuguesa, exceto o Brasil. Na realidade cervejas das antigas colônias africanas. A cerveja é servida num copo duplo, muito diferente, programado para manter a bebida gelada, cada um com uma frase filosófica de algum escritor. Lá sentada comecei a prestar atenção às pessoas e suas roupas. Mas primeiro, observei a placa da porta do bar que dizia, acreditem, Ministério das Finanças.
Os prédios dessa praça eram prédios governamentais, como já disse, mas manter esse nome pomposo e oficial na porta do bar é de um humor único, para nunca ser esquecido. 

Ministério das Finanças, aqui um bar.
Sentados numa mesa na configuração adequada do museu, no que se refere à coleção de cervejas, se é que se pode chamar assim a um bar/ ministério das finanças, aproveitamos a tarde observando o grande número de turistas e de portugueses (reconheço os locais pelas roupas normais e pelos saltos altos das mulheres) e provando o delicioso bolinho de bacalhau especialidade da casa recheado de queijo de ovelha.






O resto foi só conversa, nós dois face a face, falando um pouco de tudo ou nada. A paz interrompida de repente por uma terrível música estridente. Eclodiu a mesma raiva que sinto em bares e praças no Brasil quando a música alta  bloqueia as conversas e até os pensamentos. E incomoda. Faz com que você queira ir embora. Deixar esse lugar antes tranquilo, essa vista cheia de frescor e caminhar de volta para o hotel. Pena. Até que tentamos resistir ao barulho, ficamos um tempo a mais e finalmente desistimos

Fomos embora andando de mãos dadas sob as arcadas das ruas que da Baixa sobem  para o nosso local em Lisboa, a Baixa Chiado, de volta à rua Garret, a rua do nosso hotel. Essa atitude poderia ser vista como uma chatice, já que não era uma queixa. Vamos dizer uma atitude típica da idade. Talvez, mas a música alta e o mau gosto quebrou o feitiço e quando cristais são quebrados não há conserto. 
Andando do Arco Triunfal para o Museu da Cerveja.

A esplanada em frente ao Museu da Cerveja.

Escultura interessante na entrada do bar.

Aproveitando a tarde e as cervejas portuguesas.

O copo especial do Museu da cerveja que é vendido.

Adorando a tarde e a praça.

As arcadas em todos os prédios da praça. Por onde caminhamos.

Adeus praça do Comércio. Até a próxima visita.






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