segunda-feira, 10 de agosto de 2015

PARTE XI - DE NOVO EM LISBOA

Decidimos de repente no meio da semana passada ir para Lisboa para ver gente, ouvir barulho, cheirar um ar mais poluído. Afinal tanta pureza, tanta natureza cansa a nós que somos essencialmente urbanos. Daí fizemos nossa reserva no Hotel Borges, nosso hotel predileto em Lisboa porque situado na Baixa-Chiado (escrevi certo), num dos locais mais charmosos da cidade, entre dois cafés superanimados, frequentados por turistas de todas as línguas e junto de um metrô. Afinal viajamos como europeus.
Hotel Borges na Baixa-Chiado
Primeiro fomos de taxi com nosso preferido Senhor Bolas até Évora onde pegamos um ônibus expresso para Lisboa para uma hora e trinta e cinco minutos de viagem.Viagem em estradas absolutamente seguras e perfeitas, apreciando a linda paisagem em volta e algumas poucas cidades no caminho sempre mostrando seus castelos aos que se aproximam. 





Saímos de Évora pelo antigo aqueduto com seus arcos de pedra e entramos em Lisboa também por seus aquedutos. Na realidade aqueductos em português local. 
Aqueducto da Água de Prata em Évora.
















O aqueduto da Água da Prata foi construído entre 1531 e 1537 pelo arquiteto Francisco de Arruda. A construção foi descrita em "Os Lusíadas", o poema épico de Camões que éramos obrigadas a ler na escola. E que li também porque gostava de ler nessa fase e sempre. Pelo menos a leitura dos clássicos era obrigatória no meu tempo de estudante.

Canto III, verso 63 dos Lusíadas.














Os arcos reais são realmente reais na paisagem de estradas modernas. As águas eram levadas, águas nítidas de argento, de prata portanto, para o que hoje é a praça do Giraldo, a praça central de Évora.



Aqueducto das Águas Livres em Lisboa.
Já o Aqueduto das Águas Livres indica a entrada de Lisboa ao viajante rodoviário, ergue-se sobre o vale de Alcântara e foi construído por D. João V no século XVIII, uma vez que naquela época só o bairro de Alfama tinha água. O projeto foi custeado por uma taxa cobrada sobre a carne, o vinho, o azeite e outros produtos alimentares. Desde aquela época e acho que desde sempre os governantes usaram impostos para suas gastanças e infelizmente como até hoje para enriquecimento ilícito.

No século XIX Portugal era conhecido como o país dos aquedutos. Para mim Portugal é o país dos castelos. Portugal, o outrora "Reino Lusitano, onde a terra se acaba e o mar começa", também nos versos de Camões.


Turistas no expresso para Lisboa.
Eu, morrendo de sono, Jan acostumado ao campo, com preguiça de se barbear. Aviso aos navegantes: ônibus confortável, rede para filmes mas não para Internet como escrito.
Da rodoviária passamos para o metrô direto para o Chiado, estação exatamente em frente ao Hotel Borges. Chegamos ao meio dia e tínhamos que esperar até duas horas para o check-in. O que adoramos, porque passamos parte do dia num desses cafés, em geral na pastelaria Benard, onde os garçons trabalham das oito da manhã às dez da noite, pelo menos, sempre de bom humor. Tantos os garçons desse café como os de A Brazileira são como patrimônio desses locais tão antigos, tão conhecidos e tão queridos como os portugueses falam das pessoas amáveis.

Gostamos de ficar sentados olhando o movimento, vendo os turistas em grupos ou aos pares, famílias inteiras com crianças em carrinhos de bebê. Roupas coloridas de viajantes, bermudas, shorts, sapatos confortáveis para andar, vestidos brancos típicos dos ingleses nos trópicos, chapéus de panamá ou de falso panamá (preço decrescente de 70 euros para 15 euros), casais apaixonados de todas as idades, feios e bonitos, louros e morenos, de qualquer raça, qualquer cor, andando devagar ou em passos apressados. 

Procuramos mesas para sentar na sombra. O calor melhorado pelos ventiladores ligados, já que sentamos sempre nas esplanadas. Sentamos todos, nós e os turistas. Em qualquer praça, em qualquer rua lisboeta.

Sempre pedimos alguma coisa leve,  tipo um sanduíche. Água ou coca para Jan de manhã e para mim sangria. Adoro sangria que aprendi a fazer dede criança nas festas da minha casa. Feita pelo meu pai, com aqueles quadradinhos de maçã que absorvem o sabor da bebida e são deliciosos para o final do copo. Todos os americanos pedem sangria em jarras e comentam que é difícil servir nos copos. Pelas frutas que avançam, pela enorme colher para mexer, pelo tamanho do vaso, sei lá. 

Deixo Jan sentado e vou visitar a loja em frente, 
Paris em Lisboa, uma loja de extremo bom gosto.
um paraíso de bom gosto. Claro, em Lisboa há bom gosto nas lojas, nas pessoas, nos homens de negócio, nas mulheres que circulam nessas imediações. É um oásis para os olhos depois de sairmos do Alentejo onde as roupas são compradas em lojas chinesas na maior parte das vezes. Onde os homens vestem camisas de xadrez e bonés tipo boinas. Onde as senhoras certamente viúvas vestem preto. Onde você não acha lojas que agradem aos olhos. 

Essa loja tem as coisas mais lindas para uma casa, sempre em algodão puro, cores neutras, brancos e beges, cestaria, objetos especiais. Adoro tudo aí mas é impossível comprar nessa viagem de turistas de metrô e ônibus. Uma coisa de cada vez e assim fomos na Loja do Gato Preto, onde tudo é giro e que fica no final da rua, no Armazéns do Chiado, um shopping mall fácil de chegar e difícil de voltar pela ladeira que temos que subir até o hotel. Mas o caminho é cheio de lindas lojas e livrarias e teria parado em todas não estivesse acompanhada porque Jan não é do tipo de olhar. Ele vai definido a comprar como queria achar o que tínhamos combinado, um quadro-negro para escrever o menu de nossa casa e os lembretes de compra. E achamos!
A placa de metal na loja!

Instalada no armário da cozinha, trazido da Holanda e reformado por Jan.












Hoje com a preferência nacional!


Difícil de carregar mas possível quando se tem boa vontade.

Na foto só estava escrito "beer, beer, beer". Bebida predileta nesse calor e sempre, preferência nacional, mas não o Brahma número 1, por favor. Preferência nacional da Holanda também.

Nessa outra foto está a minha linda vizinha curiosa e muito trelosa Leonor, neta de Gabriela e que está sempre aqui em casa, junto com os gatos, me pedindo roupas para Barbie, o que tenho prazer em fazer, na falta de netas pequenas que ainda brinquem com bonecas e que estejam por perto.

Hoje no painel também está escrito o menu do jantar: sopa de cebolas com cebolas, tortelline de espinafre e ricota com molho branco com sálvia e linguiça e mais torta de maçã. Sopa de cebolas com cebolas porque há uma história famosa aqui no Monte da Fazenda, um anos atrás, da minha sopa de cebolas sem cebolas aparentes. Rimos tanto que esse episódio tem o nome de "The Mistery of the Disappearing Onions".

De novo sobre Lisboa, a cidade que segundo Gilberto Freyre deveria se chamar Lisótima, o que escreveu após sua primeira visita a essas paragens, voltamos ao nosso café e fomos ao hotel, onde nos deparamos com um quarto no quinto andar que era verdadeiramente um quarto liliputiano, com teto tão baixo pela inclinação do telhando que Jan tinha que se abaixar. Havia apenas um caminho de 50cm para uma janela de sótão com a vista de dois pedaços de telhado. O banheiro e o chuveiro, em locais separados, dois quadrados com não mais que 60cm de largura e profundidade. 
Nosso quarto para liliputianos.
Tínhamos que pisar molhados no quarto para o ato de se enxugar, um quarto que joga fora toda a intimidade e privacidade trocada por essa mania gananciosa de ganhar dinheiro aproveitando pequenos espaços para quartos de hotel. Juramos não voltar lá, pelo menos nunca mais para esse quinto andar que na realidade até divertiu dois jovens alemãos hospedados na mesma situação. Mas não somos assim tão mal humorados e nos divertimos com essa situação onde os objetos tinham que achar equilíbrio, por exemplo um celular sendo carregado em cima de um secador de cabelo, na frente de uma linda pia sem prateleiras e sem ganchos para pendurar toalhas. 


Esse incômodo de guardar as coisas em locais inusitados pode gerar um outro capítulo de histórias.

Entrando por uma perna de pinto e saindo por uma perna de pato,  rei meu senhor rei mandou dizer que contasse mais quatro. Entrando por uma perna de pato e saindo por uma perna de pinto,  rei meu senhor rei mandou dizer que contasse mais cinco. 

Como ninguém vai me contar mais histórias vou escrever ditados sobre gatos da loja do gato preto que os diz em todas as línguas no papel de embrulho e no saco plástico.

...a curiosidade matou o gato - gato escaldado, de água fria tem medo - after dark all cats leopards - quand le chat n'es pas lá les souris dansent - quem não tem gato... caça com cão (deve ser português porque para mim é quem não tem cão caça com gato) - quando está fora o gato folga o rato - curiosity killed the cat but satisfaction brought it back - el gato y el ratón nunca son de la misma opinión - dogs have owners, cats have staff - de noite todos os gatos são pardos - on ne connait un chat tant qu'on ne lui a marché sur la queue - happy is the home with at least one cat...

Tenho Mia uma gata linda em Recife e dois gatos lindos aqui, Molly a gatinha e Winnie seu filho.


3 comentários:

  1. Prima,
    Essa sua moradia em Portugal está cada vez mais emocionante. Verdadeira odisséia, principalmente contada por você, tão detalhadamente quanto espirituosa.
    Vibro com cada parágrafo. Você escreve para se ler mesmo. E vivenciamos como se estivéssemos com vcs.
    Prima: esse amor de vcs dois está ímpar. Parabéns pelo texto. Que tanta distração...... Aproveitem. Beijosssssssssssss

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  2. Maravilha ouvir isso de você que escreve tão perfeitamente.

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