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| Senhor Bolas dirigindo e conversando. |
Fala de política, de corrupção, da África, das guerras por lá. Das guerras das quais participou: Angola. Moçambique, Guiné-Bissau.
Era soldado e deve ter vivido terríveis experiências. Dessas ele não fala. Jan é curioso sobre esse assunto e pretende entrevistá-lo um dia. Não sobre os fatos ou sobre quantas pessoas teve que matar para se defender, mas sobre seus sentimentos e aflições desse período. Uma vez ele falou: "tinham que matar para sobreviver", porque na maior parte das vezes era uma guerra de guerrilhas e extremamente cruel. O que ele mais fala sobre esse período difícil é do seu amigo cozinheiro africano, em Angola ou Moçambique, que colocava pimenta piri-piri em tudo que fazia, tão bem dosada que não ficava ardida, e que essa comida era tão mais saborosa que ele sempre preferia essa culinária africana a de comer da comida comum dos soldados acampados.
Piri-piri é uma pimenta bem similar à nossa pimenta malagueta, ambas são Capsicum frutescens. A piri-piri é pequena e malagueta aqui é a mesma bem maior. Os portugueses gostam de piri-piri como os baianos de pimenta malagueta. Vou ganhar um pé desses do nosso Bolas.
Às vezes falando de pessoas, sem saber, ele faz piada de português. Por exemplo: dois amigos foram à feira juntos e cada um comprou um porco. Como moravam próximos e o porco ficaria no mesmo quintal eles ficaram preocupados em como saber qual era de qual. Um falou: vou fazer uma marca no meu. E cortou a ponta do rabinho do seu porco. Quando se encontraram Joaquim falou o que tinha feito. E Manoel disse: mas Joaquim eu também cortei a ponta do rabinho do meu. Então vou fazer outro sinal disse Joaquim.
Cortou uma pontinha da orelha, coitado do porquinho. E quando se encontraram a história se repetiu porque isso Manoel tinha feito também. Daí discutiram e finalmente Joaquim conclui: olha Manoel, não vamos fazer mais marcas, você fica com o seu porco preto e eu fico com o meu porco branco. Coloquei os nomes para virar uma piada de português mas que foi contada como um fato engraçado por um português, o indefectível Senhor Bolas.
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| Jan e o indefectível senhor Bolas. |
Indefectível: que não falha, infalível, incontestável, indestrutível. Ora bolas com essa mudança ortográfica, para o senhor Bolas, o indefectível tem que ser à antiga ou na grafia ainda de Portugal (que os portugueses não querem aceitar o acordo Brasil/ Portugal).
Vamos para Estremoz nessa próxima quinta-feira e ele tem um compromisso na hora em que vamos precisar dele. Mas ele já resolveu: seu cunhado fica na casa com o homem da telefonia enquanto ele nos leva e volta para cuidar dos seus afazeres domésticos.
Ele é muito baixo mas tem muita força. Ajudou nesse dia a trazer o armário chinês de Jan da garagem, onde estava desde que chegou da Holanda, para a sala. E o armário é grande e pesado. E muito bonito também.
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| Nossa limusine estacionada no Continente. |
Indica os marceneiros, pedreiros, eletricistas, jardineiros e tudo o mais que precisamos. Pára no caminho para falar com o pedreiro e combinar como nos procurar. E se o pedreiro não vem no dia combinado, lá vai o querido senhor Bolas reclamar. Queria que parássemos na sua casa para ver seu canteiro de temperos já que ele me viu comprando vasinhos de hortelã e manjericão. Vai me dar as mudas de modo que não preciso comprar mais. Ele diz quando estou a cozinhar e preciso de algum tempero vou ali no quintal e pego um raminho de coentro e pronto. Já me deu aulas enormes sobre como plantar, aonde plantar, quando cortar a planta, quando plantar. Aqui no Alentejo quando plantar é muito importante, pelo sol, pelo solo seco, pelo rigor do inverno.
Outro dia tinha um galho no meio do caminho. No meio do caminho tinha um galho. Tinha um galho no meio do caminho. Tinha um galho. No meio do caminho tinha um galho. Tinha, um galho que arranhava o carro. Tinha porque no dia seguinte não tinha mais. O indefectível senhor Bolas trouxe sua tesoura e cortou o galhor invasor. E perguntou com sua voz de contador de façanhas quando passamos: onde está aquele galho? Nunca me esquecerei desse acontecimento, na vida de minhas aventuras alentejanas. Nunca me esquecerei, passando naquela curva da estrada estreita que no meio do caminho tinha um galho abatido pela tesoura do nosso amigo.
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| O nosso cortador de galhos que tudo faz. |
No meio do caminho
Carlos Drummond de Andrade.
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.
Se Drummond tivesse conhecido o senhor Bolas teria escrito o poema sobre um galho e não sobre uma pedra.
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| Aguardente de Medronho, uma fruta. |
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| O medronho, fruto do medronheiro. |
Passa horas descrevendo as ilhas e a que ele acha a melhor de todas: a ilha de Porto Santo no arquipélago português que inclui a ilha da Madeira. A descrição dessa ilha, imagino que paradisíaca, é de uma extensa praia de areia com um pouco de ilha a compor.
Ele gosta de visitar os cafés para tomar uma bica (pequena xícara de café em Portugal) ou uma taça de vinho verde.
Fala de suas visitas a lindas quintas com piscinas e lindas paisagens de amigos da família.
Sabe tudo sobre corrupção em Portugal, da prisão do ex-primeiro ministro, amigo de Lula, e das maracutaias de Eduardo Santos presidente de Angola, dono, ele e suas filhas, de imensas terras no Alentejo. Sempre vejo as terras compradas com dinheiro roubado e a prisão onde estava José Sócrates, no caminho de Évora. José Sócrates agora está em prisão domiciliar. Como saudosista lamenta os tempo de Salazar quando as terras do Alentejo eram férteis campos de trigo e hoje não são mais produtivas, exceto pelas vinhas. Sabe das casa de prova das vinículas onde estrangeiros vão experimentar os vinhos alentejanos. Numa das vezes numa dessas casas estava acompanhando um grupo de franceses, que não falavam inglês nem português óbvio e as recepcionistas do local só falavam inglês e português. Então experimentaram os vinhos e quando pagaram ele entendeu muito bem que os franceses acharam muito caro esse programa.
Nosso faz-tudo é ajudante das compras dos mercados duas vezes por semana, leva com a gente o lixo de garrafas vazias para Evoramonte e os lixos orgânicos para o lugar onde sempre vamos a pé. Jan fica sem saber se ele gosta de levar o lixo no carro, mas claro que sim. Portugueses não sabem dizer não. Jan sai do carro para levar o lixo ou as garrafas mas o senhor Bolas corre para ajudar. Inadmissível para um europeu do oeste anglo-saxão e principalmente holandês não fazer tudo sozinho e conviver com tamanha solicitude.
Esqueci de dizer que o senhor Bolas se chama: Abraltino Carapeta Bolas. Com carro de aluguer.
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| Com a mala aberta para carregar o carro. |
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| Meu grande amigo senhor Bolas. |








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